O problema são os 200 mil! criar PDF versão para impressão
26-Set-2006

violante_saramagomatos.jpgAfinal são 2%, de uma população de 10 milhões, os culpados pelo estado da nação que é estruturalmente atrasada e com uma aflitiva falta de coesão social.
Não é a sucessiva incompetência de sucessivos governos, não são as estratégias e as opções de desenvolvimento erradas, não são os modelos económicos liberais e neo-liberais, não é o fraquíssimo empenho de sectores importantes dos empresários que não se modernizam, nem investem em formação e inovação, que nos conduziram onde nos encontramos. Não! Para os 600 que se reuniram no Beato - e ainda que não se tenha ouvido uma palavra sobre o que eles, gestores de sucesso, tinham que fazer - o caminho está definido: além de privatizar a saúde, a educação, a segurança social (sectores apetecidos de negócio), segue-se o despedimento ou diminuição das condições de trabalho de 200 mil trabalhadores da administração pública. (Foram céleres em apresentar as suas propostas ao governo do PS, à espera de aproveitar a onda de profundo neo-liberalismo que o atravessa).

Mas de que 200 mil trabalhadores se fala? Dos que entraram para a administração pública sujeitando-se às regras dos concursos de admissão, ou dos que resultam de compadrios político-partidários que frequentemente enxameiam cargos superiores na administração, nos institutos e outros organismos? Nas contas do Compromisso Portugal - e também nas contas da Base de Dados da Administração Pública - estão diferenciadas estes trabalhadores? Não, mas deviam estar!

Dos 600 do Beato, muitos são gestores da banca. Preocupados porque a factura salarial dos funcionários públicos é a maior da Europa, em função do PIB, mas não esclarecem o que está mal: os salários altos ou o PIB baixo? Estes "bons gestores" são os gestores de um país que apresenta altíssimo endividamento familiar - o que explica os lucros da banca: em 2005, e só considerando o BCP, o BES e o BPI, foram de 1 300 milhões de euros.

E se pensarmos que a "migração" dos trabalhadores da administração pública para o privado significa fim dos contratos colectivos; fim da ADSE e sua substituição por um sistema geral menos benéfico; menor garantia de emprego estável e maior sujeição à florescente actividade das empresas de trabalho precário e à subcontratação de serviços; desemprego para os mais velhos - não restam dúvidas que afirmar que o que mais preocupa os «600 beatos» são os cidadãos mais desfavorecidos, é uma refinada hipocrisia.

Se juntarmos ainda a afirmação de que é preciso um "programa integrado de incentivos financeiros" com o Estado a pagar metade dos ordenados, estamos conversados sobre os objectivos finais da reunião do Beato.

Por alguma razão foi, pelo caminho, pedida a flexibilização da legislação laboral...

 
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