O preço do petróleo zomba da realidade dos combustíveis criar PDF versão para impressão
09-Jun-2008
Refinaria de petróleo. Foto de xiffy, FlickRPara este economista e jornalista americano, especialista na questão energética, nenhuma crise de oferta justifica o nível de preços praticados actualmente. Neste artigo, ele sustenta que pelo menos 60% do preço do petróleo vem da especulação dos mercados de futuros, orquestrada pelos fundos especulativos, pelos bancos e grupos financeiros. Engdahl considera ainda que a teoria do "pico do petróleo" - o argumento de que a produção do petróleo atingiu o ponto em que mais da metade das reservas foi utilizada - é um embuste que ajuda a especulação.
Por F. William Engdahl, AsiaTimesOnline

No momento em que as empresas e os consumidores avaliam as implicações do crude a 130 dólares por barril, é preciso ter em mente que pelo menos 60% deste preço vem da especulação não-regulamentada dos mercados de futuros, orquestrada pelos fundos especulativos, pelos bancos e grupos financeiros, que utilizam o London ICE Futures, o mercado de futuros do New York Nymex e as transacções interbancárias não-controladas ou as negociações de balcão para evitar o escrutínio.

As regras americanas sobre as margens, fixadas pela Comissão governamental de Comércio Futuros de Matérias Primas (Commodity Futures Trading Commission), permitem aos especuladores comprar contratos de futuros1 de crude pagando apenas 6% do valor do contrato. Ao preço actual de cerca de 130 dólares, isto significa que o operador de contratos de futuros só precisa gastar 8 dólares por barril. Toma emprestados os restantes 120 dólares.

Este "efeito de alavanca"extremo, de 16 contra um, contribui para elevar os preços a níveis fortemente irrealistas e apaga as perdas dos bancos, ocasionados pelos subprimes e outros desastres, a expensas do conjunto da população.

O embuste do "pico do petróleo" - isto é, o argumento segundo o qual a produção do petróleo atingiu o ponto em que mais da metade das reservas foi utilizada e em que o mundo está declínio do petróleo barato e das quantidades abundantes - permitiu que esta cara fraude prosseguisse desde a invasão do Iraque em 2003, com ajuda dos bancos-chave, dos operadores petrolíferos e das majors petrolíferas.

Washington tenta lançar a culpa, como sempre, sobre os produtores árabes e a OPEP. O problema não é uma oferta baixa de crude. Na verdade, o mundo tem actualmente uma sobreoferta. Apesar disso, o preço do barril continua a subir sem descanso. Porquê? Encontramos a resposta na política claramente deliberada do governo dos Estados Unidos, que permite as manipulações desenfreadas dos preços do petróleo.


Procura mundial de petróleo estável, preços disparam

O estratega chefe para este mercado de um dos principais bancos mundiais, David Kelly, do JP Morgan Funds, admitiu recentemente ao Washington Post algo que diz muito: "acho importante ter em conta que o crescimento do consumo mundial de petróleo não é tão forte."

Uma das histórias utilizadas para sustentar as especulações nos contratos de futuros de petróleo é a de que a procura chinesa por petróleo importado explode fora de qualquer controlo, conduzindo a um desequilíbrio entre a oferta e a procura. Mas os factos não sustentam a tese da procura chinesa.

A EIA (Administração para a Informação sobre a Energia) do governo americano concluiu no seu último relatório "Perspectivas Energéticas a Curto Termo" que se espera que a procura de petróleo dos Estados Unidos decline este ano em 190 mil barris por dia. Isto principalmente devido à recessão económica que se amplia.

Segundo a EIA, espera-se que o consumo chinês, longe de explodir, suba este ano apenas 400 mil barris por dia. Dificilmente se trata de um "brusco aumento da procura" atribuído à China nos média [que justificam a subida dos preços do crude]. No ano passado, a China importou 3,2 milhões de barris por dia e o seu consumo estimado era em torno de um total de 7 milhões de barris/dia. Para comparar, os Estados Unidos consumiam cerca de 20,7 milhões de barris/dia.

Isto quer dizer que a nação mais consumidora de petróleo, os Estados Unidos, passam por uma baixa significativa na procura. A China, que consome apenas um terço do que consomem os Estados Unidos, só terá um aumento menor de importação, se o compararmos à produção quotidiana mundial de petróleo de cerca de 84 milhões de barris [actualmente], menos de meio por cento da procura total.

As previsões da OPEP sobre o crescimento da procura mundial de petróleo mantêm-se sem alterações em 1,2 milhão de barris/dia, sendo que o abrandamento do crescimento económico no mundo industrializado é compensado por um ligeiro crescimento do consumo nos países em desenvolvimento. A OPEP prevê que a procura mundial de petróleo em 2008 será em média de 67 milhões de barris/dia, sem sofrer grandes mudanças em relação às estimativas precedentes. Prevê-se que a procura da China, do Médio Oriente, da Índia e da América Latina se reforce, mas a procura da União Europeia e da América do Norte vais ser mais fraca.

Os maiores consumidores de petróleo do mundo estão assim confrontados com uma baixa brutal do consumo, que vai agravar-se à medida que os efeitos económicos ligados à habitação e à crise financeira americana se fizerem sentir. Nos mercados normais e transparentes, o preço do crude deveria mais baixar que aumentar. Nenhuma crise de oferta justifica o nível de preços praticados actualmente.


Novos e importantes campos petrolíferos entram em serviço

Não só não existe crise de oferta para justificar uma bolha dos preços do crude de tal forma brutal, como também há vários campos petrolíferos gigantes que devem começar a produzir em 2008, aumentando um pouco a oferta.

O maior produtor de petróleo do mundo, a Arábia Saudita, está a finalizar projectos de aumentar a sua actividade de perfuração em um terço e aumentar os seus investimentos em 40%. O projecto da Saudi Aramco, que decorre de 2009 a 2013, deve ser aprovado este mês pelo conselho de administração desta sociedade e pelo Ministério do Petróleo. O reino saudita está no meio de um projecto de 50 mil milhões de dólares de expansão da sua produção petrolífera para satisfazer a procura crescente na Ásia e nos outros mercados emergentes, e prevê-se que vá aumentar a sua capacidade de bombeamento para um total de 12,5 milhões de barris/dia daqui ao próximo ano, um aumento de cerca de 11% da sua capacidade actual, que é de 11,3 milhões de barris/dia.

Em Abril deste ano, o campo petrolífero de Khoursaniyah, na Arábia Saudita, começou a operação e fornecerá em breve 500 mil barris suplementares por dia de crude saudita ligeiro de alta qualidade. Além disso, o desenvolvimento do campo petrolífero Khourais, deste país, o maior projecto da Saudi Aramco, vai impulsionar a capacidade de produção dos campos petrolíferos sauditas de 11,3 para 12,5 milhões de barris/dia de crude ligeiro arábico de alta qualidade, aumentando assim a capacidade de exportação da Arábia Saudita.

A brasileira Petrobras está nas primeiras fases de exploração de reservas petrolíferas offshore confirmadas recentemente no seu campo petrolífero de Tupi, que poderia ser tão fabuloso, ou mesmo mais, que o Mar do Norte. A Petrobras diz que o novo campo de Tupi, ultra-profundo, poderia conter até 8 mil milhões de barris de crude ligeiro recuperáveis. Quando entrar em actividade, dentro de alguns anos, espera-se que coloque o Brasil entre os 10 primeiros produtores de petróleo do mundo, entre a Nigéria e a Venezuela.

Nos Estados Unidos, ao lado de rumores segundo os quais as grandes companhias petrolíferas ficaram sentadas sobre vastas novas reservas no Alasca, por medo de que os preços destes últimos anos não se afundem devido a uma superprodução, a US Geological Survey [a agência americana dos Estudos Geológicos] (USGS) publicou recentemente um relatório que confirmava novas reservas petrolíferas numa região que se chama os Bakken, que se estende pelo Dakota do Norte, pelo Montana e pelo sudeste de Saskatchewan. A USGS estima que há até 3,65 mil milhões de barris de petróleo nos Bakken.

Há também algumas confirmações de novas reservas importantes de petróleo que só estão à espera de ser exploradas no Iraque, onde as Quatro Grandes majors anglo-americanas do petróleo salivam por pôr a mão em campos inexplorados. Pensa-se que estes têm reservas que o colocariam em segundo lugar, logo atrás da Arábia Saudita. O resto do mundo ainda está por explorar. A um preço acima de 60 dólares o barril, os novos e imensos potenciais tornam-se economicamente viáveis. O problema essencial ao qual estão confrontadas as majors não é de encontrar um substituto ao petróleo, mas de guardar segredo das descobertas de petróleo, a fim de manter os preços actuais a um nível exorbitante. Para isso, recebem a ajuda dos bancos de Wall Street e das duas principais bolsas de petróleo - a Nymex and London-Atlanta's ICE e a ICE Futures.


Então, por que os preços continuam a aumentar?

Há uma prova cada vez mais evidente de que a recente bolha especulativa do petróleo, que seguiu uma linha assímptota [que se aproxima de um limite mas sem nunca chegar a ele] desde Janeiro, está no ponto de explodir. No fim de Abril, em Dallas, Texas, a Associação Americana dos Geólogos do Petróleo realizou a sua conferência anual. Reuniu dirigentes das majors e geólogos. Segundo um dos participantes, os patrões das majors, bem documentados, chegaram ao consenso de que "o preço do petróleo vai baixar espectacularmente em breve e que o crescimento dos preços a longo termo vai ser do gás natural".

Poucos dias antes, Lehman Brothers, um banco de investimento de Wall Street, disse que a recente bolha petrolífera estava a chegar ao fim. Michael Waldron, o estratega-chefe para o petróleo deste banco, foi citado pelo Daily Telegraph britânico. Eis o que disse: "A oferta de petróleo ultrapassa o crescimento da procura. Os stocks acumularam-se desde o início do ano."

Nos Estados Unidos, segundo o relatório mensal da EIA sobre os stocks, editado a 7 de Maio, os stocks diários de petróleo subiram desde Janeiro, de quase 12 milhões de barris em Abril para chegarem perto de 33 milhões de barris. Ao mesmo tempo, o relatório de 7 de Maio sobre a gasolina nos Estados Unidos, publicado pela MasterCard, mostrou que a procura de gasolina tinha caído 5,8%. E os refinadores reduzem de maneira espectacular os ritmos de refinamento para ajustar-se à procura de gasolina em baixa. As refinarias funcionam actualmente a 85% da sua capacidade, em baixa em relação aos 89% do ano passado, numa época onde a produção é normalmente de 95%. Os refinadores tentam hoje claramente reduzir os stocks de gasolina para fazer subir o preço da gasolina. "É a economia, estúpido!", para parafrasear o dito tristemente célebre de Bill Clinton a Bush pai. Isto chama-se recessão económica.

O relatório de 8 de Maio da Oil Movements, uma sociedade britânica que segue a progressão de carregamentos de petróleo no mundo inteiro, mostra que o volume de petróleo em trânsito no alto mar é muito grande. Praticamente todas as categorias de carregamentos são mais importantes que no ano passado. O relatório observa que "no Ocidente, uma grande parte da criação de stocks de petróleo, este ano, produziu-se ao largo, fora das vistas". Fontes bem informadas dizem que a indústria mundial do petróleo, desde as actividades e os stocks das Quatro majors, à verdadeira situação dos navios-cisterna, à formação de stocks e ao seu aumento, é a indústria mais secreta do mundo, à excepção possível do comércio de estupefacientes.


Goldman Sachs mais uma vez no centro

O preço do petróleo hoje, ao contrário do que era há 20 anos, é determinado atrás de salas fechadas em instituições financeiras gigantes, como a Goldman Sachs, Morgan Stanley, JP Morgan Chase, Citigroup, Deutsche Bank ou a UBS. A bolsa-chave neste jogo é a London ICE Futures Exchange (antigamente a International Petroleum Exchange - a Bolsa Internacional do Petróleo). A ICE Futures é uma filial a 100% da Atlanta Georgia International Commodities Exchange. A ICE foi fundada em Atlanta em parte pela Goldman Sachs, que tem também o índice de preços de matérias-primas mais utilizado do mundo, o GSCI, que tem um grande peso do preço do petróleo.

Como sublinhei no meu artigo anterior, o ICE foi o alvo de um inquérito parlamentar recente. Esta sociedade foi citada tanto no relatório de 27 de Junho de 2006 da subcomissão permanente de inquéritos do Senado [dos EUA] e nas audições de Dezembro de 2007 da Comissão sobre a Energia e o Comércio da Câmara de Representantes, que investigou o comércio não regulado dos contratos energéticos a termo.

Estes dois estudos concluíram que o progresso do preço do petróleo para 128 dólares por barril, e mais, é alimentado pelos milhares de milhões de dólares de contratos de futuros sobre o petróleo e o gás que são feitos na ICE. Usando uma excepção bem prática da regulamentação, concedida em Janeiro de 2006 pela administração de George W. Bush, os negócios na ICE Futures sobre contratos energéticos a termo americanos não são regulados pela Commodities Futures Trading Commission (CFTC), mesmo no caso dos contratos petrolíferos americanos negociados pelo intermediário da ICE Futures que são negociados nas filiais da ICE nos Estados Unidos. E, a pedido da Enron, a CFTC isentou no ano de 2000 as negociações de balcão de contratos de futuros de petróleo.

Não é por isso surpreendente de ver num despacho da Reuters, publicado a 6 de Maio, que a Goldman Sachs anunciou que o petróleo poderia estar de facto à beira de uma nova subida "super elevada" de preços, podendo levar o preço do barril a 200 dólares nos seis a 24 próximos meses. Esta manchete "200 dólares por barril!" entrou nas primeiras páginas dos jornais durante os dois dias que se seguiram. Quantos ingénuos carneiros seguiram esta notícia com as suas apostas financeiras?

Arjun Murti, o estratega para as energias da Goldman Sachs, pôs a culpa no que ele chama de procura "feroz" (sic) da China e do Médio Oriente, combinada com a sua afirmação de que o Médio Oriente está próximo da sua capacidade máxima de produção. A mitologia do "pico do petróleo" mais uma vez ajudou Wall Street. O nível de exagero infundado lembra o exagero auto-servido por Wall Street em 1999-2000 em torno das dot.com ou da Enron.

Em 2001, mesmo antes do crash das dot-com na NASDAQ, algumas firmas de Wall Street empurravam junto de um público crédulo as vendas das acções de sociedades onde as suas filiais bancárias tinham interesses financeiros. Em suma, como ficou comprovado nos inquéritos parlamentares, sociedades que têm um interesse particular numa certa questão financeira serviram-se dos média para encher os bolsos e os das suas sociedades, nas costas do público.

Seria interessante que o Congresso intimasse a Goldman Sachs e uns quantos outros actores principais a apresentarem os seus registos de contratos de futuros em energia, para ver se eles são investidos com o fim de se beneficiar de um aumento suplementar de petróleo a 200 dólares. Sem esquecer que um fundo especulativo ou um banco podem comprar contratos de futuros petrolíferos com um efeito de alavancagem de 16 contra um.

Acenam-nos com uma série interminável de argumentos plausíveis para justificar o preço elevado do crude: um "prémio para o risco terrorista", um aumento "feroz" de procura na China e na Índia, os problemas na região petrolífera da Nigéria, os pipelines que explodem no Iraque, uma possível guerra com o Irão... e, acima de tudo isso, o alarde sobre o pico do petróleo. O especulador petrolífero T Boone Pickens teria encaixado um lucro enorme em contratos de futuro de petróleo e defende, o que é bem prático, que o mundo se encontra à beira do "pico do petróleo". Assim como o banqueiro de investimentos de Houston e amigo do vice-presidente Dick Cheney, Matt Simmons.

Como se nota num relatório do Senado americano de Junho de 2006, O Papel da Especulação do Mercado no Crescimento dos Preços do Petróleo e do Gás, "Há alguns gestores de fundos especulativos que são mestres em saber como explorar as teorias do pico do petróleo e o assunto da oferta e da procura, e em fazer grandes previsões de aumentos chocantes de preços só para alimentar o fogo das subidas de preços, de forma a auto-realizar a profecia."

Um Congresso Democrata irá agir em ano eleitoral para mudar os mercados de futuros de petróleo, minuciosamente elaborados de forma opaca, e arriscar assim de fazer explodir a bolha? No dia 12 de Maio, a Comissão sobre a Energia e o Comércio da Câmara de Representantes declarou que examinaria esta questão em Junho.

24/5/2008

F William Engdahl escreveu "A Century of War: Anglo-American Oil Politics and the New World Order" (PlutoPress), e "Seeds of Destruction: The Hidden Agenda of Genetic Manipulation" (Global Research, disponível em www.globalresearch.ca).

Tradução de Luis Leiria

1 Um Contrato de Futuros é um instrumento financeiro derivado que consiste num acordo de compra e venda de um determinado activo (acção ou obrigação), a um preço fixado previamente e num determinado prazo ou data. Os contratos de futuros são, geralmente, efectuados em Bolsas de Valores especializadas, locais onde também podem ser transaccionados. Além das acções e obrigações, os contratos de futuros também podem ser respeitantes a mercadorias, moeda e instrumentos de dívida.

 
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