Stiglitz: A guerra do Iraque é um factor importante no aumento de preços criar PDF versão para impressão
09-Jun-2008
Joseph StiglitzPara o prémio Nobel da economia, embora existam outros factores envolvidos no aumento de preço do petróleo, a guerra do Iraque é claramente um factor importante. Stiglitz lembra que antes da guerra, já considerando a crescente procura de energia da Índia e da China, os mercados de futuros projectavam que o preço do petróleo se manteria em torno de 23 dólares por barril. Foi a guerra - e a volatilidade que tem causado - juntamente com a queda do dólar devida às baixas taxas de juro e ao enorme défice comercial, a responsável por grande parte da diferença que se verifica.

Entrevista de Nathan Gardels, The Huffington Post


A economia norte-americana, a caminho de uma recessão ou ainda pior, tem vindo a substituir a guerra no Iraque como a questão-chave na campanha presidencial. Qual é a ligação entre a evolução da economia dos EUA e a guerra no Iraque?
A guerra conduziu directamente os EUA a um abrandamento económico. Antes da guerra com o Iraque, o preço do petróleo era de 25 dólares por barril. Agora ultrapassou os 100 dólares. Embora existam outros factores envolvidos neste aumento de preço, a guerra do Iraque é claramente um factor importante. Já considerando a crescente procura de energia a partir da Índia e da China, os mercados de futuros projectavam antes da guerra que o preço do petróleo se manteria em torno de 23 dólares por barril, pelo menos durante uma década. É a guerra - e a volatilidade que tem causado - juntamente com a queda do dólar devida às baixas taxas de juro e ao enorme défice comercial, que são responsáveis por grande parte da diferença que se verifica.
Esse preço mais elevado significa que milhares de milhões de dólares teriam ficado no bolso dos americanos, para gastar no mercado doméstico, em vez de irem parar à Arábia Saudita e outros exportadores de petróleo.
Em segundo lugar, o dinheiro gasto no Iraque não estimula a economia doméstica. Se se contrata um empreiteiro filipino para trabalhar no Iraque, não se vai obter o efeito multiplicador que teria a construção de uma estrada ou uma ponte no Missouri.
Em terceiro lugar, esta guerra, ao contrário de qualquer outra guerra na história americana, foi inteiramente financiada por défices. Os défices são preocupantes, porque, no final, desviam investimentos e aumentam dívidas que têm de ser pagas no futuro. Isso afecta a produtividade, porque sobra pouco para o investimento - público e privado - em investigação, educação e infra-estruturas, ou para investimentos do sector privado em máquinas e fábricas.
Até muito recentemente, não se sentiram fortemente estes três factores deprimentes da economia, porque o Banco Federal respondeu com a atitude que se deve manter a economia no seu caminho, independentemente de quanto gasta o presidente Bush na guerra do Iraque. Vendo uma economia débil, mantiveram as taxas de juro baixas, inundaram a economia com liquidez e só olharam para o outro lado quando as más práticas de concessão de empréstimos à habitação fizeram o dinheiro sair porta fora. A regulação foi negligente.
Ao mesmo tempo, as taxas de poupança nos EUA desceram em queda livre até zero. Portanto, tudo o que estava a ser gasto, desde a reconstrução do Iraque ao investimento doméstico, foi com dinheiro emprestado. Todos os problemas foram disfarçados por empréstimos. A bolha rebentou quando o rácio entre os preços da habitação e o rendimento - ou seja, aquilo que as pessoas cujos rendimentos estão a cair poderiam poupar - já não era sustentável.
Agora que podemos ver para além da bolha, a debilidade económica provocada pela guerra do Iraque será totalmente exposta. E nós vamos pagá-la com juros.

Um dos acontecimentos bizarros da globalização é a de que a China, que se opôs a guerra do Iraque na ONU, acabou por ser um importante financiador da guerra através da compra de títulos do Tesouro americano, com as enormes reservas de dólares que acumulou a partir do seu comércio excedentário com os EUA Assim, uma democracia consumidora e sem poupanças, contrai empréstimos a Estado de mercado leninista para combater o terrorismo e realizar eleições livres que instalaram o primeiro governo xiita num estado árabe em 800 anos!
Como é que vamos resolver tudo isso?

E o povo norte-americano não tem nenhuma ideia sobre o que está a apoiar, o que mina a democracia doméstica também!
Mas as ironias não param por aí. Esta é a primeira guerra americana desde a Guerra Revolucionária que tem sido financiado a partir do estrangeiro. No início de cada uma das outras guerras, houve uma verdadeira discussão pública sobre quais os custos que devem ser colocadas sobre as gerações futuras e os que deveriam ser pagos imediatamente, com impostos. Esta é a primeira vez em que temos impostos mais baixos quando vamos para a guerra.
A guerra do Iraque não só tem sido financiado por estrangeiros, como tem sido a mais privatizada guerra na história americana. E os resultados são chocantes. Por exemplo, um segurança privado contratado - não estou a falar de engenheiros altamente qualificados - recebe bem mais de mil dólares por dia, muitas vezes mais de 400 mil dólares por ano. Um militar do Exército dos EUA recebe cerca de 40 mil dólares por ano para desempenhar as mesmas funções. Toda a gente sabe que, em qualquer local de trabalho, pagar a uma pessoas 10 vezes mais do que se paga a outra, pela mesma função, é uma receita para o descontentamento. Portanto, a fim de atrair soldados, o Exército tem aumentado os bónus de inscrição. Estamos a competir connosco mesmo!
Mas esse não é o fim do absurdo. Para além disso, o contribuinte dos EUA está a pagar o seguro de invalidez e morte do contratante, mas depois as apólices de seguro isentam as companhias de pagamentos em circunstâncias de "hostilidades". Então, que seguros estamos a comprar? O contribuinte está a pagar às companhias de seguros para nada!

Qual é a situação da América, em termos do cômputo económico da guerra do Iraque?
Pelas nossas estimativas mais conservadoras, esta guerra tem um custo quase inimaginável de 3 biliões (milhões de milhões) de dólares. Uma estimativa mais realista, no entanto, está mais perto de 5 biliões, uma vez que se devem incluir todos os custos de longo prazo, a jusante, como os benefícios e tratamentos a veteranos ou os custos consideráveis de se retirar do Iraque e reposicionar as forças na região.
Depois existem os micro-custos. Por exemplo, se um soldado morre, a sua família recebe um pagamento de 500 mil dólares ao longo da sua vida. Isso não está incluído no orçamento público em que os custos da guerra são considerados.
Estes custos são reais e não vão desaparecer. Não pode continuar a varrê-los para baixo do tapete. Tal como um cartão de crédito apresenta a factura, as despesas só crescem mais se as ignorarmos.
Por último, se alguém diz que temos de permanecer no Iraque por mais quatro anos, ou nada menos do que os próximos 100 anos (como John McCain tem sugerido), também tem de dizer honestamente ao povo americano como se vão pagar os 12 mil milhões de dólares por mês que isso custa. É isso que vai tornar a América mais segura? Vamos sair, mais cedo ou mais tarde. Acima de tudo, devemos parar de fantasiar. Foram essas fantasias que nos deixaram os problemas.

Na sua opinião, esta confusão económica é o resultado de uma fantasia neoconservadora ou uma cobertura pela administração Bush para esconder os custos da opinião pública americana?

Ambas. Foi uma fantasia neocon que devíamos saudar com grinaldas e apenas ser responsáveis pela limpeza das pétalas de rosa. O petróleo iraquiano deveria pagar tudo o resto.
Também foi uma tentativa deliberada de esconder os custos do povo americano. De que outra forma se poderá justificar não fornecer as tropas americanas com o equipamento de que necessitam? De que outra forma se poderá justificar não dar aos veteranos aquilo de que necessitam para tratar a deficiência dos nossos heróicos soldados que foram mutilados física e psicologicamente por esta guerra? Isso só pode ser interpretado como uma tentativa deliberada de esconder os verdadeiros custos da guerra, à custa de enfraquecer as nossas forças armadas, que foram debilitadas. A administração Bush colocou a vantagem política de curto prazo à frente da segurança do país.

Os custos económicos comprometem todo o esforço de segurança pós-11 de Setembro. Quando John McCain diz que não se interessa e que não compreende o aspecto económico das coisas - só sabe como manter a América segura - o que é que isso diz sobre a sua capacidade de liderança?
Se ele não compreende a economia, não entende a segurança. Se tivéssemos infinitos recursos, podíamos ter perfeita segurança. Mas a América, como qualquer outro país, tem limitações dos recursos. Isso significa que é preciso ser inteligente - ou seja, económico - sobre o dinheiro que gastamos. Se se enfraquece a economia americana, não será possível encontrar os recursos necessários para a segurança. As duas coisas não podem ser separadas.

4/3/2008

Tradução de João Romão

 
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