O poder mudou de campo criar PDF versão para impressão
09-Jun-2008
Refinaria foto de Azza BazooNo início dos anos 1970, quando o barril de "ouro negro" valia menos de 2 dólares, ninguém iria imaginar que um presidente americano se encontraria um dia na situação de ser obrigado a implorar ao rei da Arábia Saudita por um aumento da produção da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), com o objectivo de forçar uma redução dos preços. O Ocidente, no entanto, chegou a esse ponto.
Artigo de Jean-Michel Bezat, publicado no jornal Le Monde em 20 de Maio de 2008

Depois de esbarrar numa primeira recusa grosseira, em meados de Janeiro, George W. Bush voltou a insistir neste pedido, na Sexta-Feira 16 de Maio, por ocasião do seu encontro em Riade com o rei Abdallah. Sem conseguir mais do que um aumento limitado e temporário.

Já vai longe a época em que a Standard Oil of New Jersey, a Anglo-Persian, a Gulf Oil e suas quatro outras "irmãs" dominavam o mercado mundial. O tempo em que o presidente Roosevelt obteve do rei Ibn Saud a abertura dos poços sauditas às companhias estrangeiras em troca da protecção militar americana (1945). A época em que era possível derrubar impunemente o primeiro-ministro iraniano Mossadegh (1953), culpado de ter nacionalizado os hidrocarbonetos. O tempo em que fingiam acreditar que o petróleo é uma riqueza inesgotável.

O poder de mercado mudou de campo. Escapou dos países consumidores e das grandes multinacionais do sector (Exxon, Chevron, Shell, BP). A evolução do preço do barril (cerca de 128 dólares) decide-se nos bastidores do Kremlin e nos meandros do poder iraniano, no meio dos pântanos nigerianos e nas margens do Orenoco venezuelano, nos corredores vienenses da Opep e nas agitadas salas da bolsa de Nova Iorque. E, sobretudo, nos palácios sauditas.

O mundo vive um terceiro choque petrolífero - mais lento do que os de 1973 e de 1980. O barril, cujo preço foi multiplicado por seis em seis anos, está hoje mais caro em dólares constantes do que no início de 1981. O seu preço pode refluir dez ou vinte dólares nos próximos meses, mas isso é muito incerto. Alguns analistas tão influentes como os do banco de negócios Goldman Sachs prevêem a sua cotação média no segundo semestre em 141 dólares, e em 148 dólares em 2009. A OPEP já não exclui os 200 dólares.

O reino waabita, o único país a poder lançar um milhão de barris suplementares no mercado, resiste a isso. Ele inflectiu mesmo o seu discurso, recentemente, anunciando que ia estabelecer um tecto máximo de 12,5 milhões de barris por dia entre 2009 e 2020, para preservar as suas reservas e os interesses das gerações futuras. "Sempre que descobrirem novas jazidas, deixem-nas no solo, pois os nossos filhos irão precisar delas", decidiu o rei.

Nada consegue convencer os sauditas a abrirem as comportas. Eles acham que o mercado está bem abastecido e que as reservas de petróleo bruto e de gasolina estão em bons níveis. Preocupam-se, sobretudo, com a política energética dos Estados Unidos, que visa reduzir a "dependência do petróleo" em relação ao Oriente Médio - palavra de ordem lançada por Bush e retomada em coro pelos candidatos à eleição presidencial John McCain e Barack Obama. Basta ouvir as acusações do ministro saudita da energia contra os agrocombustíveis, que se desenvolvem no continente americano, para compreender o que está em jogo. A isso, deve ser acrescentada a vontade de alguns parlamentares americanos de submeter o mercado petroleiro às regras anti-cartéis do comércio internacional, e até suspender as vendas de armas se Riade não aumentar a sua produção de petróleo.

Estas iniciativas inquietam e exasperam a Opep. A estratégia do cartel de Viena, que renunciou a fixar uma grelha de preços desde 2003, parece simples: abastecer o mercado para evitar qualquer ruptura, reduzir a "almofada de segurança" ao mínimo (2 milhões de barris por dia) e manter assim os preços tão elevados quanto possível, sem comprometer o crescimento económico. Com três quartos das reservas mundiais, os treze Estados membros da Opep têm os meios para seguir esta política.

Explosão dos preços
A dependência dos países consumidores está ligada à fragilidade das multinacionais. Os Estados petrolíferos e as suas companhias públicas nacionais partilham entre si 85% das reservas mundiais. As gigantes multinacionais não detêm mais do que 15% dessas reservas e enfrentam problemas para reconstituí-las à medida que elas se vão esgotando.

Qual o peso da "gigante" ExxonMobil, a maior companhia cotada, face à Gazprom ou à Saudi Aramco? O acesso das grandes companhias ocidentais aos campos petrolíferos - fechados na Arábia Saudita, no Kuwait e no México, a sua penetração está cada vez mais difícil na Rússia, na Venezuela e na Argélia - implicaria "o retorno ao período anterior às nacionalizações dos anos 1970", acha Nicolas Sarkis, director da revista especializada "Pétrole et gaz arabes" ("Petróleo e gás árabes").

Será precisa uma guerra pelo precioso líquido? Inimaginável, mesmo que a sede de petróleo fosse um dos motivos da invasão americana do Iraque em 2003, conforme reconheceu o antigo presidente da Fed (Federal Reserve - banco central americano), Alan Greenspan. Para que benefício? Aumentando as tensões no Médio Oriente e reduzindo a oferta, ela contribuiu para a explosão dos preços. Tomar posse destas reservas pela força seria "uma batalha de retaguarda", os países petrolíferos estão hoje "numa posição de força", nota Nicolas Sarkis. Eles podem vender as suas enormes reservas em dólares e impedir que os beligerantes do petróleo dele se apoderem, oferecendo-o a países mais pacíficos. Antes para a China do que para a América!

Numerosos países industrializados extraíram lições das crises de 1973 e 1980 e reduziram a sua dependência. Precisam de menos petróleo para criar a mesma riqueza. Nos Estados Unidos, as sucessivas administrações continuaram a decidir como antes: "O modo de vida americano não é negociável". Assim, a sua taxa de dependência do petróleo importado passou de 60% para 80%.

No imediato, o problema é geopolítico: o acesso ao recurso reduz-se. A longo prazo é geológico. Restam 1,2 biliões de barris de petróleo, ou seja quarenta anos de consumo ao rimo de extracção actual. Os mais optimistas multiplicam este número por três, acrescentando os tipos de petróleo denominados de "não convencionais" (óleos pesados, areias betuminosas). Infelizmente, são muito caros para extrair. As reservas dos campos petrolíferos declinam na Arábia Saudita, na Rússia, na Noruega, no México, na Indonésia...

A única resposta reside numa diminuição do consumo. Ora, a explosão dos preços não reduziu a procura, senão marginalmente, uma vez que os transportes funcionam, numa proporção de 97%, por meio dos derivados do petróleo bruto. Uma tal baixa é vital para reforçar a segurança energética e para lutar contra o aquecimento climático. Contudo, a redução do consumo nunca foi tão vital, quer para reforçar a segurança energética, quer para lutar contra o aquecimento climático. O petróleo mais barato e mais limpo é aquele que não se queima.

Jean-Michel Bezat

 
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