Mercados opacos cada vez mais financiarizados criar PDF versão para impressão
10-Jun-2008
Central de energia. Foto de fd, FlickROs contratos de futuros1 sobre o ouro negro representarão 30 a 35 vezes o volume do comércio real de petróleo.
Nicolas Sarkozy, na entrevista de 24 de Abril à televisão, pôs em causa a "incrível" especulação que provoca a subida brutal dos preços das matérias primas.
Artigo de Adrien de Tricornot, publicado no jornal Le Monde

O secretário-geral da Organização dos países exportadores de petróleo (OPEP), Abdallah El-Badri, declarou, na Quarta feira 21 de Maio, que o mercado petrolífero se tinha tornado "completamente louco". E o empresário de chocolate Cadbury considerou que os hedge funds (fundos especulativos) eram directamente responsáveis pela subida dos preços do cacau.

Mas para Philippe Chalminh, professor na Universidade Paris-Dauphine, "a especulação é a espuma da vaga, o importante é a vaga". "A subida dos preços das matérias-primas provém, evidentemente, de uma tensão entre a procura e as capacidades de produção. A especulação apenas amplifica e precipita o movimento de alta dos preços", acrescenta Antoine Brunet, conselheiro da empresa Lazard Frères Gestion.

Se o debate está aberto, é porque estes mercados se transformaram profundamente nestes últimos anos, com a explosão dos produtos financeiros, derivados sobre petróleo, cacau, níquel, etc. Os contratos de "futuros" permitem definir uma opção no preço de uma matéria prima - ou de um índice que agrupe várias matérias primas - a um prazo mais ou menos longo. Criados para permitir aos agentes económicos protegerem-se contra as evoluções dos preços, os mercados de derivados transformaram também produtos essenciais em activos financeiros como os outros, nos quais se pode ganhar dinheiro rapidamente. O afluxo de capitais, na compra, nos mercados de derivados provocou assim a subida dos preços "a prazo" que servem, entre outros critérios, de guia para o mercado físico.

Neste últimos meses, o fenómeno acelerou-se fortemente, coincidindo com a subida dos preços. Num estudo de 28 de Abril, o banco UBS, que se baseia nos dados da Commodity and Futures Trade Commission (CFTC) - o regulador do mercado americano de derivados - calcula que as posições especulativas na compra nos mercados de derivados de metais preciosos são hoje 1,7 vezes superiores à média desde 1994.

Para os produtos agrícolas, elas são 2,8 vezes mais fortes. "As forças especulativas amplificam as subidas de preços das matérias-primas", explica Dominic Schnider, responsável da área de matérias-primas no UBS Wealth Management em Singapura. "No entanto, acrescenta este perito, é impossível avaliar a parte do preço equivalente à especulação".

As previsões sobre a escassez futura das matérias-primas divergem. Sobretudo, os números da CFTC são apenas a parte visível do icebergue. Assim, algumas ordens especulativas, realizadas pelos bancos por conta dos seus clientes, não figuram lá. Sobretudo, este tipo de operação passa cada vez mais por mercados OTC (over the counter - mercados privados, directamente entre os bancos e os seus clientes), que não são nem regulados, nem organizados e portanto sobre os quais muito poucas informações estão disponíveis, à imagem do mercado de câmbios.

Qual é o seu peso? Recortando as declarações dos bancos da Organização de Cooperação de Desenvolvimento Económico (OCDE) sobre as suas actividades nos mercados de derivados OTC - câmbio, taxas, crédito, matérias primas, etc. - pode-se deduzir que há duas vezes mais actividade no mercado de comum acordo (directamente entre os bancos e os seus clientes) dos derivados de matérias-primas que nos mercados organizados e, sobretudo, que o crescimento da actividade aumenta lá muito mais rapidamente", explica Frédéric Lasserre, responsável da área de matérias-primas na Société Générale (banco francês). "De 2000 a 2006, o volume de comércio real de petróleo aumentou 13% e o montante dos produtos derivados OTC 260%. Transacciona-se nos mercados de produtos financeiros 30 a 35 vezes o volume de comércio real do petróleo", calcula Lasserre.

Qual é o impacto do apetite pelo petróleo virtual no curso do ouro negro? "Há tantas respostas quantos diferentes métodos usados para o calcular. Grosso modo, os nossos estudos mostram que um quarto do preço não se pode explicar pelo actual equilíbrio entre oferta e procura, mas este número deve ser tomado com muita precaução", diz Lasserre. O mesmo cálculo para Schnider (UBS), que antecipa um recuo do preço do petróleo para 105 dólares nos próximos doze meses, porque "o mercado petrolífero está desligado dos dados fundamentais da oferta e da procura".

A situação será diferente para os outros produtos: "Por razões estruturais da oferta e da procura, a alta dos preços dos produtos agrícolas e dos metais deverá continuar nos próximos doze meses, mas com diferenças muito fortes segundo o tipo de matérias primas. Nestes movimentos, pode haver exageros devido à especulação, mas eles não duram a longo prazo", acha Schnider.

A falta de transparência deveria permitir a continuação da volatilidade. O mercado do petróleo é "um terreno extremamente opaco", explica Jean Marie Chevallier, professor em Paris-Dauphine e director do Centro de geopolítica da energia e das matérias primas: "Suspeito que certos actores emitem rumores para influenciar os mercados". Nos Estados Unidos, o Senado fez um inquérito e alguns profissionais evocaram presumíveis manipulações.

Adrien de Tricornot, 3 de Junho de 2008.

Tradução de Carlos Santos

1 Futuros são contratos de compra e venda de uma dada quantidade e qualidade de um bem, ou de um serviço, num local e numa data futura específica, a um preço fixado no presente.

 
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