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16-Mai-2008
Uri AvneryAlgum dia, espero, haverá em Israel uma "Comissão para a Verdade e a Reconciliação", semelhante à que houve na África do Sul. Incluirá israelitas, palestinianos e historiadores de vários países, com a tarefa de estabelecer o que realmente aconteceu em Israel em 1948.

Nos 60 anos que decorreram até hoje, os eventos da guerra foram soterrados sob camadas e camadas de propaganda de Israel e da Palestina, dos judeus e dos árabes. Para chegar à camada mais profunda desta história, precisamos de uma escavação quase arqueológica. Mesmo as testemunhas oculares que ainda vivem têm dificuldades, às vezes, para lembrar o que realmente viram e o que foi distorcido e falsificado pelos mitos, até que os eventos se tornaram irreconhecíveis.

Sou testemunha ocular. Nos últimos dias, por causa do 60º aniversário, tenho sido procurado por dezenas de entrevistadores, de rádio e de televisão de todo o mundo, que me pedem que conte o que realmente aconteceu. Aqui vão algumas das perguntas que tenho ouvido e o que tenho respondido. (Perdoem as repetições.)

A guerra de 1948 foi diferente de outras?

Antes de tudo, não foi uma guerra: foram duas, em sequência, sem transição.

A primeira guerra travou-se entre judeus e árabes, no país. Começou imediatamente depois de assinada a resolução da Assembleia Geral da ONU, de 29/11/1947, que decretou a divisão da Palestina, uma parte para um Estado judeu e outra parte para um Estado árabe. Esta guerra durou até a proclamação do Estado de Israel, dia 14/5/1948. Neste dia, começou a segunda guerra - entre o Estado de Israel e os Estados vizinhos, que engajaram seus exércitos nos combates.

Esta segunda guerra não foi guerra entre dois países que disputassem um pedaço de terra entre ambos, como as guerras entre Alemanha e França, que disputavam a Alsácia. Nem foi guerra fratricida, como a Guerra Civil Norte-americana, entre dois exércitos de uma mesma nação. Classifico-a como "guerra étnica".

"Guerra étnica" trava-se entre dois povos que vivem num mesmo país, cada um dos quais reclama para si o controle sobre todo o território. Neste tipo de guerra, disputa-se, além da vitória militar, a posse sobre a maior quantidade possível de território, excluída dele a população civil. Foi o que aconteceu quando a Jugoslávia se dividiu e quando, não por acaso, foi cunhada a odiosa expressão "limpeza étnica".

A guerra era inevitável?

No momento em que aconteceu, eu esperei, até o último minuto, que fosse evitada (volto, adiante, a este assunto). Hoje, vendo o processo em retrospectiva, é evidente que, em 1948, já era tarde demais.

Os judeus estavam determinados a estabelecer o seu próprio Estado. Este era um dos objectivos fundamentais do movimento sionista, fundado 50 anos antes, e que foi muito reforçado pelo Holocausto (que chegara ao fim apenas dois anos e meio antes).

Os árabes estavam determinados a impedir que se estabelecesse um Estado judeu, no país que (com toda a razão) consideravam país árabe. Por isto, os árabes iniciaram a guerra.

O que pensavam os judeus, quando se alistavam?

Quando me alistei, no início da guerra, todos estávamos convencidos de que corríamos o risco de sermos aniquilados e que, portanto, lutávamos para nos defender, defender as nossas famílias e toda a comunidade hebraica. A frase "Não temos escolha" não era apenas slogan: era convicção profunda. (Quando digo "nós", refiro-me a toda a comunidade hebraica em geral e aos soldados em particular.) Não creio que os árabes temessem ser aniquilados. Foi onde erraram.

Isto explica por que a comunidade hebraica se mobilizou tão completamente, desde o primeiro instante. Tínhamos um comando unificado (até os grupos Irgun e Stern obedeciam àquele comando) e uma só força militar unificada, que rapidamente assumiu características de exército regular.

Do lado árabe, tudo foi completamente diferente. Não havia comando unificado, nem exército árabe-palestiniano - o que significa que não conseguiam concentrar forças nos pontos cruciais. Mas só soubemos disto depois da guerra.

Os judeus acreditavam que eram o lado mais forte?

Não, de modo algum. Naquele momento, os judeus eram apenas um terço da população que vivia aqui. As centenas de vilas e cidades árabes por todo o país controlavam as principais vias de transporte, cruciais para a nossa sobrevivência. Sofremos muitas baixas na luta para desimpedir as estradas, principalmente a estrada para Jerusalém. Sinceramente, víamo-nos como "poucos contra muitos".

Aos poucos, a correlação de forças foi-se alterando. O nosso exército foi-se organizando e aprendeu pela experiência, enquanto os árabes continuavam a depender de "faz'ah" - mobilização de moradores das vilas locais, que só contavam com as suas velhas armas. A partir de Abril de 1948, começámos a receber grandes quantidades de armamento leve, da Checoslováquia, mandadas por ordem de Stálin. Em meados de Maio, quando se aproximava uma esperada intervenção dos exércitos árabes, já controlávamos território contínuo, na Palestina.

Em outras palavras, os judeus deslocaram os árabes?

Ainda não era "limpeza étnica", mas resultado da guerra. Os judeus preparavam-se para resistir a um ataque massivo pelos exércitos árabes, e não podiam deixar grandes populações hostis na retaguarda. Uma exigência estratégica que, evidentemente, se misturava ao desejo mais ou menos consciente de criar um território judeu contínuo.

Em certo momento, inimigos dos judeus criaram um mito conspiratório sobre um "Plano D", que teria sido a origem da limpeza étnica. De facto, foi um plano militar para criar território contínuo controlado pelos judeus, como parte da preparação para o confronto com os exércitos árabes.

O senhor está a dizer que, nesta fase, ainda não havia a decisão de expulsar os árabes?

É preciso lembrar o contexto político, naquele momento: nos termos da resolução da ONU, o "Estado judeu" deveria englobar mais de metade da Palestina (consideradas as fronteiras de 1947, sob o Mandato dos ingleses). Neste território, mais de 40% da população era árabe. Os porta-vozes árabes argumentavam que seria impossível implantar um Estado judeu numa área em que mais da metade da população era árabe; e exigiram o cancelamento da resolução que determinava a divisão. Os judeus, que defendiam a resolução, queriam provar que a divisão era possível. E houve esforços (em Haifa, por exemplo), para convencer os árabes a permanecer nas suas casas. Mas a realidade da guerra, a própria guerra, provocou o êxodo em massa.

É preciso entender que em nenhum momento os árabes "abandonaram o país". Na realidade, acontecia assim: no curso dos combates, uma vila árabe recebia bombardeamento intenso. Os moradores - homens, mulheres e crianças - fugiam, é claro, para a vila mais próxima. Então os judeus bombardeavam a vila mais próxima, e todos fugiam para outra vila, e assim por diante, até que houve o armistício e, de repente, havia uma fronteira demarcada (a Linha Verde) entre os refugiados e as suas casas. O massacre de Deir Yassin acelerou os deslocamentos em massa.

Nem os habitantes de Jaffa deixaram o país - afinal, Gaza, onde se refugiaram, também é parte da Palestina.

Neste caso, como começou a "limpeza étnica"?

Na segunda metade da guerra, depois de detido o avanço dos exércitos árabes, uma deliberada política para expulsar os árabes tornou-se um objectivo de guerra.

A bem da verdade, deve-se lembrar que não aconteceu de um só lado. Poucos árabes permaneciam nos territórios ocupados pelos judeus, mas, tão-pouco permaneciam judeus nos territórios que os árabes conquistavam (por exemplo, nos quarteirões dos kibbutzim Etzion Bloc e no bairro judeu da Cidade Velha, em Jerusalém. Os judeus que aí viviam foram mortos ou expulsos). A diferença estava na quantidade: os judeus ocupavam grandes extensões de terra; os árabes, só pequenas áreas.

A verdadeira decisão pela "limpeza étnica" foi tomada depois da guerra: impedir que 750 mil refugiados árabes voltassem para as suas casas.

O que aconteceu quando os exércitos árabes entraram na guerra?

De início, a situação dos judeus pareceu desesperada. Os exércitos árabes eram tropas regulares, bem treinadas (principalmente pelos ingleses), e equipados com armamento pesado: aviões militares, tanques e artilharia, enquanto os judeus só tínhamos armas leves - espingardas, metralhadoras, morteiros leves e armas anti-tanques que não funcionavam. Só em Junho começámos a receber armamento pesado.

Eu mesmo participei do descarregamento dos primeiros aviões de combate que chegaram, vindos da Checoslováquia. Haviam sido fabricados para a Wehrmacht alemã. Sobre as nossas cabeças, aviões "alemães", do nosso lado (Messerschmitts), enfrentavam aviões "ingleses" (Spitfires) pilotados por egípcios.

Por que Stálin apoiou os judeus?

Na véspera de a ONU aprovar a resolução, o representante dos soviéticos, Andrei Gromyko, fez um apaixonado discurso sionista. O objectivo imediato de Stálin era afastar os ingleses da Palestina, onde eles poderiam permitir a instalação de mísseis norte-americanos. Aqui, é preciso lembrar um dado que muitas vezes fica esquecido: a União Soviética foi o primeiro Estado a reconhecer oficialmente o Estado de Israel, imediatamente depois da declaração de independência. Os EUA, naquele momento, só o reconheceram informalmente - de facto, não de direito.

Stálin só voltou as costas a Israel alguns anos mais tarde, quando Israel aderiu abertamente ao bloco norte-americano. Só então, afinal, ficou evidente a paranóia anti-semita de Stálin. Os estrategas políticos de Moscovo apostavam mais na maré crescente do nacionalismo árabe.

Quais foram as suas impressões pessoais, durante a guerra?

Às vésperas da guerra, eu ainda acreditava numa parceria "semita" entre todos os habitantes do país. Um mês antes de a guerra eclodir, publiquei um folheto, War or Peace in the Semitic Region, no qual expunha esta ideia. Hoje, em retrospectiva, percebo que já era muito tarde, tarde demais.

Quando a guerra eclodiu, imediatamente me alistei numa brigada de combate (Givati). No último dia antes de ser incorporado, consegui - com um grupo de amigos - publicar outro folheto, From Defense to War, no qual propúnhamos que a guerra não perdesse de vista a paz que teria de vir depois. (Eu estava muito influenciado pelo comentarista militar inglês Basil Liddell Hart, que pregara esta via, durante a Segunda Guerra Mundial.)

Os meus amigos de então tentaram insistentemente convencer-me a não me alistar, de modo a poder continuar a tarefa mais importante de escrever. Entendi que os meus amigos estavam muito errados - que o lugar de todos os homens jovens, aptos e decentes, naqueles dias, era nas unidades de combate. Como poderia eu ficar em casa, quando milhares de rapazes da minha idade arriscavam a própria vida, dia e noite? Além do mais, quem daria atenção ao que eu escrevesse, se, naquela momento crucial da existência de Israel, eu não cumprisse o meu dever?

No início da guerra, combati como soldado de infantaria e lutei na região da estrada para Jerusalém; na segunda metade da guerra, servi com os "Raposas de Sansão", unidade de comando motorizado que lutou na frente egípcia. Assim, pude ver a guerra a partir de dezenas de diferentes pontos de vista.

Durante a guerra, escrevi as minhas experiências. Os meus relatos foram publicados em vários jornais e, depois, foram reunidos num livro intitulado In the Fields of the Philistines, 1948 (cuja edição em inglês está no prelo). Os censores militares não permitiam qualquer comentário negativo. Então, imediatamente depois da guerra, escrevi um segundo livro, The Other Side of the Coin, que divulguei como obra literária e, assim, não foi submetido à censura. Neste livro, relatei, entre outros factos, que recebemos ordens para matar todo e qualquer árabe refugiado que manifestasse intenção de voltar para as suas terras.

O que a guerra lhe ensinou?

As atrocidades que testemunhei fizeram de mim um pacifista convicto. A guerra ensinou-me que há um povo palestiniano, e que jamais alcançaremos a paz, enquanto não houver um Estado palestiniano, ao lado do Estado de Israel. O facto de ainda não haver um Estado palestiniano é uma das razões pelas quais a guerra de 1948 continua. Até hoje. 60 anos.

Uri Avnery, 10/5/2008, "1948", em Gush Shalom [Grupo da Paz], na Internet, em http://zope.gush-shalom.org/home/en/channels/avnery/1210454063/

Tradução do blogue do Bourdoukan, adaptado para português de Portugal por Carlos Santos

 
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