“Que Deus nos salve destes amigos!” criar PDF versão para impressão
21-Mai-2008
Uri AvneryNos últimos dias, Israel quase naufragou sob uma enchente de amigos. Os Grandes da Terra, passados e presentes, estiveram em Israel para lisonjear, para adular, para ajoelhar-se aos pés de Israel.
"Que Deus me salve dos amigos; dos inimigos, encarrego-me eu!" - como se rezava antigamente. Incomodaram-me demais!

Tomemos o exemplo da Chanceler alemã, Angela Merkel, que foi como peregrina a Jerusalém e falou como alcoviteira, nada criticou e, no discurso no Knesset, alcançou os píncaros da subserviência. Fui convidado a assistir àquela sessão do Parlamento. Declinei do privilégio.

Tampouco aceitei o duvidoso privilégio de assistir à sessão em que falou o hiper-ativo Nicholas Sarkozy, outro que se esforçou para superar o recorde de adulação estabelecido pela sua rival alemã.

Antes disto, também esteve em Israel o mentor de John McCain, o pastor evangélico John Hagee - para quem a Igreja Católica seria um monstro. Exsudava adulação santificante por todos os poros. E proibiu Israel, em nome de Deus (dele), de ceder uma polegada, que seja, da Terra Santa. E ordenou que Israel lute até a última gota de sangue (nosso).

De qualquer modo, ninguém fez sequer parecido com o que fez George Bush. Aproximando-se nos últimos dias da mais desastrosa presidência nos anais da República, George Bush praticamente meteu um fósforo aceso na mão do governo de Israel, para que ponha fogo, de vez, no barril de pólvora sobre o qual vivemos.

Mas a lista de líderes actuais que disputaram o troféu da adulação empalidece, se se assiste ao desfile de "ex-" que vieram, na tentativa de sitiar Israel, de vez.

Um enxame planetário de "ex-" voou de pouso em pouso, como abelhas, um por todos, todos por um. Esta semana estiveram em Jerusalém, convidados pelo número 1 dos "ex-": Shimon Peres - político que jamais venceu uma eleição em 84 anos de vida, e que afinal ganhou, em gesto de compaixão, o título de presidente de Israel, que significa praticamente nada.

O denominador comum do grupo é que o prestígio interno destes "ex-" aproxima-se do zero absoluto, tanto quanto o seu prestígio internacional já ultrapassa camadas superiores da estratosfera. A adoração mútua (uns elogiam os outros e, assim, eles elogiam-se muito e todos sentem-se elogiados) compensa, para eles, o respeito zero que merecem dos seus concidadãos nos seus respectivos países.

Membro sénior deste clube é Tony Blair que, apeado do poder na sua terra, não se contentou com gozar as flores da aposentadoria e dos novos salários. Como prémio de consolação, obteve também o prazer de rodar o mundo brincando com a tragédia de Israel. Semana sim semana não, convoca uma conferência de imprensa para apresentar resultados do espectacular sucesso que têm obtido os seus esforços para melhorar a vida dos palestinianos. A evidência de que a vida vai de muito mal a muito pior nos territórios ocupados nada altera, nos relatórios. O establishment das Forças de Segurança de Israel trata-o como um incómodo, ao qual é preciso jogar alguma migalha de vez em quando, para mantê-lo sorridente.

Também houve gente boa na conferência que aconteceu esta semana em Israel, mas os "ex-" roubaram a cena: de Henry Kissinger, criminoso de guerra aposentado, ao destronado herói da paz Mikhail Gorbachev - que ainda considero herói da paz, porque evitou o banho de sangue no colapso do império soviético; uma lástima vê-lo em tão má companhia.

Todos os participantes desta orgia despejaram montanhas de adulação sobre Israel. Nenhum trouxe sequer uma palavra de crítica. Como se não houvesse ocupação. Como se as colónias não existissem. Como se Gaza não estivesse a morrer sob bloqueio. Como se o bloqueio não existisse. Como se ninguém estivesse a ser assassinado. Como se os assassinatos não fossem diários. Vai tudo bem: Israel é Estado amante da paz. E os terroristas maus, maus, maus, querem afogá-lo no mar.

Nenhum dos visitantes alertou Israel contra os riscos de persistir no rumo actual. Nenhum disse a verdade: que a continuação da política actual de Israel está a arrastar o Estado de Israel para o desastre.

Quem tenha amigos como estes, não precisa de inimigos. Não é amigo quem veja o amigo brincando de "roleta russa" e ofereça-lhe balas. Não é amigo quem veja o amigo à beira do abismo e diga "Vá em frente".

Na confraria de aduladores, os que mais chamaram a atenção foram os bilionários judeus norte-americanos (que também pagaram a conta da extravaganza).

Vários deles foram imediatamente levados à chefatura de Polícia, tão logo desembarcaram, para depor no caso que está a agitar Israel - a investigação de Ehud Olmert, acusado de corrupção.

O odor de corrupção acompanha Olmert desde que começou na política, há 45 anos. Agora, o odor tornou-se insuportável. A Polícia já sabe e divulgou que Moshe Morris Talansky, judeu-norte-americano e bilionário, é seu fornecedor regular de envelopes gordos de cédulas de dinheiro, há anos.

Já conhecemos a história? De onde? Claro! De filmes e séries de televisão norte-americanos. Alguém abre uma mala recheada de maços de dinheiro. O doador invariavelmente é membro da Mafia. O recebedor, um político corrupto. Será que Olmert não conhece estes filmes - ele ou um dos dele, que se iniciaram na vida política com discursos demagógicos de denúncia do "crime organizado"?

Olmert pouco me interessa. Talansky é figura muito mais interessante. Talansky é um, do género "bilionários apaixonados por Israel", a maioria dos quais vivem nos EUA, mas também no Canadá e na Suíça, na Áustria, na Austrália e noutros lugares. Todos são israelitas patriotas. Todos são filantropos. Todos doam milhões. Os milhões são entregues a políticos israelitas. E estes bilhões mantêm praticamente toda a extrema direita israelita.

O que anima os bilionários? O que leva estes bilionários a fazerem o que fazem?

Pesquisa mais profunda mostra que muitos deles enriqueceram em campos nebulosos. Vários são barões do jogo, proprietários de casinos, com inevitáveis conexões com violência, crime, exploração. Um deles, pelo menos, enriqueceu no ramo dos bordéis. Outro envolveu-se num escândalo do ramo de asilos para velhos. Outro é herdeiro de família que enriqueceu no ramo do comércio clandestino de bebida nos anos da "Lei Seca". Vários vendem armas - o mais imundo comércio e os mais imundos comerciantes - e abastecem as quadrilhas políticas armadas que semeiam morte e destruição na África.

Mas o dinheiro, como se sabe, não tem cheiro.

Vários destes multimilionários ressentem-se por não receberem as honrarias de que se acham merecedores. Seus co-bilionários, a alta sociedade, trata-os com desprezo. Quem alcance a posição deles não se satisfaz só com dinheiro. Quer prestígio. É o que se compra e vende em Israel: prestígio. E é barato.

Israel tem vendido vários tipos de prestígio, e sem perguntas. Por uma doação gorda, qualquer proprietário de casino ou de inferninho de jogo será recebido pelo primeiro-ministro, jantará com o presidente, terá o seu nome inscrito na fachada de um prédio de universidade.

(Uma vez escrevi uma pecinha de teatro sobre o Terceiro Templo, que Deus o construa logo, amém: Rosenstein, Santo entre os Santos; arcanjo Rosenzweig; querubim Rosenberg etc.)

Imediatamente depois da Guerra dos Seis Dias, no tempo da glória dos nossos generais, houve uma nova moda que se espalhou entre os melhores bilionários judeus: manter um general israelita na coleira, para apresentá-lo como animal de estimação. Alguns generais prestaram-se a isto. Afinal de contas, era a parte deles, no trato.

Um bilionário era dono do passe de Ezer Weizman, herói da Força Aérea (obrigado a renunciar à presidência, quando o caso veio à tona). Dois bilionários adoptaram Ariel Sharon e o instalaram na maior fazenda do país. Shimon Peres não era general (sequer soldado raso), mas pelo menos três bilionários o mantiveram no conforto das suas asas douradas.

Nenhum bilionário jamais perdeu o dinheiro investido em comprar generais israelitas, em apoiar políticos israelitas ou em qualquer doação-investimento, desde que o dinheiro fosse alto, aplicado em negócios em Israel. Ego é ego, patriotismo é patriotismo, mas business é business. Assim a corrupção instalou-se e prosperou.

Quem doe milhões a um político em Israel (ou, aliás, verdade seja dita, também nos EUA ou na Itália, ou onde for, no mundo inteiro) sabe bem que os milhões voltarão, com lucro. O político vira ministro, ou primeiro-ministro, ou presidente; e o apoiante acertou na roleta.

No mundo político, nenhuma doação é inocente. De um modo ou de outro, o doador sempre recupera o investimento - multiplicado por mil. Vale nos EUA, vale na Itália e vale também em Israel, é claro. Se o doador declara à polícia que não mantém negócios em Israel, declara, mesmo, é que a Polícia deve continuar a cavar.

O escândalo Olmert confirma mais uma vez o que já sabemos há muito tempo: os políticos israelitas não são movidos apenas pelo combustível "dinheiro". O combustível que os move chama-se "dinheiro que vem de fora". Para vencer eleições e fazer campanha eleitoral, um candidato precisa de milhões - e estes milhões, em Israel, vêm de doadores estrangeiros.

Nas primárias do partido, Olmert foi financiado por bilionários estrangeiros que também o financiaram nas eleições gerais - das quais saiu já sagrado Primeiro-ministro. Imediatamente depois, Olmert inventou a Segunda Guerra do Líbano - com tudo o que trouxe de morte e destruição. Pode-se dizer que os bilionários judeus-norte-americanos mataram soldados e civis, israelitas e libaneses, que morreram naquela guerra.

Em discurso na conferência em Jerusalém, Shimon Peres elogiou a esperteza, a astúcia, a ‘malandragem', a chutzpa, dos israelitas. Precisamos é de mais chutzpa, disse ele. Soou inadequado e tolo, mas foi pura bravata, fanfarronada.

Quero falar de outra malandragem. Chutzpa não metafórica, mas real, reles esperteza: a esperteza dos bilionários de Nova Iorque e Genebra e de outros cantos do mundo, que interferem nas eleições em Israel e determinam o destino de Israel como nação. A esperteza reles de doar o dinheiro que faz a guerra na qual morrem não os filhos deles, mas os nossos. A malandragem reles de doar milhões para que se construam colónias nos territórios palestinianos ocupados, especialmente em Jerusalém. Aquelas colónias são construídas especificamente para evitar a paz e impor a Israel uma guerra eterna, uma guerra que ameaça o futuro de Israel - não o futuro deles.

Sejamos bem claros: não estou a criticar os doadores bem-intencionados, que sentem o impulso moral de contribuir para que se construa uma nova ala num hospital, ou uma nova universidade em Israel. Gosto de quem doe algumas centenas de dólares para apoiar uma causa política na qual creia. Rejeito, isto sim, os bilionários estrangeiros que "investem" porque desejam ditar os rumos do Estado de Israel.

Em todos os países os políticos recebem doações de doadores estrangeiros. Mas o fenómeno, noutros casos, é apenas marginal. Em Israel, as doações de bilionários estrangeiros têm peso determinante.

Aí está um dos efeitos perversos de Israel ser definido como "Estado Judeu". Por causa disto, os israelitas não conseguimos ver a verdadeira face destes doadores - que não passam de estrangeiros que aspiram, impertinentes, a interferir na vida de Israel; e que corrompem o Estado de Israel.

Porque Israel é visto como "Estado Judeu"... estes doadores estrangeiros ainda são vistos como "judeus de bom coração", que apoiam um Estado que também lhes pertence.

Gideon Levy publicou um artigo, recentemente, em que pede que "nos deixem em paz". Menos refinado do que Levy, só posso dizer mais grosseiramente: "Sumam daqui! E levem daqui o vosso dinheiro! Israel não está à venda. Basta de tentarem mandar na vida - e na morte - de Israel!"

URI AVNERY, 17/5/2008, "With Friends Like These...", Gush Shalom [Grupo da Paz], na internet, em http://zope.gush-shalom.org/home/en/channels/avnery/1211059332/.

Tradução do blogue do Bourdoukan, adaptado para português de Portugal por Carlos Santos

 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >
© 2019 Esquerda.Net
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.