Uma revelação corajosa sobre o Hotel Palestina criar PDF versão para impressão
23-Mai-2008
Amy GoodmanUma veterana dos serviços secretos do exército lançou luz sobre o bombardeamento de 2003 contra o Hotel Palestina, local onde em Bagdad se alojavam muitos jornalistas, incluindo dois que morreram no ataque.

Decorreram mais de cinco anos desde a invasão do Iraque, desde que o presidente Bush se perfilou debaixo da faixa dizendo "Missão Cumprida" do porta-aviões com o mesmo nome. Enquanto estes cinco aniversários tiveram algum destaque, outro houve que não mereceu nenhum: o do bombardeamento do Hotel Palestina em Bagdad por um tanque do exército norte-americano a 8 de Abril de 2003. O ataque matou dois jornalistas independentes, Taras Protsyuk, operadora de câmara da Reuters, e José Couso, operador de câmara da rede de televisão espanhola Telecinco. Couso gravou a sua própria morte. Estava a filmar na varanda e registou o tanque à distância, a rodar o canhão e a apontar para o hotel. Um tribunal espanhol acusou de homicídio três soldados americanos, mas o governo dos Estados Unidos recusa-se a entregar os acusados. A história poderia ter acabado assim, mais um dia de violência no Iraque, não fora uma jovem veterana dos serviços secretos que decidiu pôr a "boca no trombone".

Adrienne Kinne é uma ex-sargento que serviu dez anos nos serviços secretos do exército, de 1994 a 2004. Fluente em árabe, trabalhou no exército a traduzir comunicações interceptadas. Disse-me em entrevista esta semana1 que tinha visto uma lista de alvos que incluía o Hotel Palestina. Sabia que albergava jornalistas, visto que tinha interceptado (ilegal e inconstitucionalmente, em sua opinião) chamadas do Hotel Palestina entre jornalistas e seus familiares e amigos nos países de origem.

Disse Kinne: "Escutávamos jornalistas que estavam instalados no Hotel Palestina. Lembro-me disso, especificamente porque durante a ofensiva ‘choque e pavor', nos deram uma lista de alvos potenciais em Bagdad, em que constava o Hotel Palestina. Juntando dois e dois, fui ter com o meu oficial chefe, e disse-lhe que havia jornalistas hospedados naquele hotel que se julgavam em segurança, e mesmo assim o hotel constava da nossa lista de alvos potenciais, e devia haver ali uma falha de comunicação e não deveríamos fazer um esforço para que quem de direito ficasse a par da situação? E, infelizmente, o meu oficial chefe... basicamente disse-me que não me competia analisar... algures alguém numa posição mais elevada sabia o que estavam a fazer."

Kinne disse que o oficial chefe era o subtenente John Berry.

O relato de Kinne contradiz directamente a versão oficial do governo norte-americano. A 2 de Maio de 2003, Colin Powell, então secretário de Estado e ex-general do exército, fez uma visita a Espanha. Disse acerca do Hotel Palestina: "Sabíamos do hotel. Sabíamos que era um hotel em que havia jornalistas e outros civis, e foi por essa razão que não foi atacado durante a campanha de raids aéreos."

Se Powell estava a dizer a verdade, então porque razão foi o hotel incluído na lista de alvos que Kinne diz ter lido num e-mail seguro? Ou estaria ele apenas a escolher as palavras ao dizer que o hotel não tinha sido um alvo durante a "campanha de raids aéreos?" Kinne revelou igualmente que os militares andavam a espiar organizações não-governamentais como os Médicos Sem Fronteiras e a Cruz Vermelha Internacional, a fazer escutas a esse grupos - o que também é ilegal - e a justificá-lo com a desculpa de que poderiam vir a revelar um esconderijo de armas de destruição maciça, ou de que o seu telefone por satélite poderia ser roubado por terroristas. Também recebeu e traduziu um fax do Congresso Nacional Iraquiano, o grupo de exilados iraquianos financiados pela CIA, que transmitiam informações falsas sobre as armas de destruição maciça ao governo norte-americano com o objectivo de fortalecer os argumentos a favor da guerra. A informação foi considerada altamente valiosa e enviada directamente para a Casa Branca.

Kinne mostrou grande coragem e correu grandes riscos ao trazer a lume estas revelações, ao dar com a "boca no trombone". Honrou a tradição de Daniel Ellsberg, que quebrou o sigilo dos chamados Documentos do Pentágono durante a Guerra do Vietname. Ellsberg tem incitado os funcionários do governo a denunciar este tipo de situações:

"É um enorme risco ter em nossa posse os segredos de que agora dispomos e que permitiram que o Presidente nos mentisse para nos convencer a entrar na guerra e tente agora conduzir-nos a uma guerra ainda mais desastrosa com o Irão. Chegou a altura de fazer revelações não autorizadas, as únicas que nos dirão a verdade sobre o que está a acontecer, e que, em minha opinião, devem ser feitas numa escala que possibilite ou até assegure que quem as faz seja identificado."

Javier, o irmão de José Couso, tem sido incansável a tentar conseguir que seja feita justiça no caso do irmão, viajando pelo mundo inteiro para dar a conhecer a sua história e impulsionando o processo nos tribunais espanhóis. As revelações de Kinne provocaram grande agitação em Espanha, onde a jurisdição do processo contra o exército norte-americano tem sido contestada. O vídeo com as declarações de Kinne foi gravado e prontamente traduzido para ser apresentado no dia seguinte no tribunal de Madrid.

A Casa Branca da era Bush, sabe-se agora, usou generais na reserva com ligações ao Pentágono e a industriais de armamento para enganar o público norte-americano. Os jornalistas independentes no Iraque eram um espinho cravado no flanco dos estrategas do Pentágono. Será que o ataque de 8 de Abril foi um espécie de ameaça velada? Graças à ex-sargento Adrienne Kinne, podemos estar mais perto de saber a verdade.

1 Semana de 12 a 16 de Maio

 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >
© 2019 Esquerda.Net
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.