Dobre de finados criar PDF versão para impressão
24-Mai-2008
Miguel PortasAmanhã, o Líbano elege, finalmente, o actual chefe do exército como Presidente da República. Um Governo de unidade nacional, com representação de todas as comunidades, verá a luz do dia em breve. E, na Primavera de 2009, o país irá a votos com uma nova lei eleitoral que, para o caso, é a de 1960. Até lá haverá discussão sobre as armas do Hezbollah e assistiremos a novas vagas de atentados, mas o espectro da guerra civil foi afastado.

À hora em que o acordo mediado pelo Qatar era assinado pelos partidos libaneses, a oposição xiita e cristã, que montara acampamento em frente ao Palácio governamental, levantou as suas tendas, tal como o Hezbollah, uns dias antes, entregara ao exército todas as posições em Beirute ocidental.

Os analistas explicaram os confrontos do início do mês como uma operação do Irão e da Síria, por interposto Hezbollah. Com efeito, ingerências não faltam naquele país, mas o «resumo» é próprio de ignorantes. Não foi o grupo xiita, mas um Governo desacreditado que, quebrando o princípio que presidira à sua formação, tomou a iniciativa, ilegalizando as comunicações da resistência. O Hezbollah aproveitou para obter o que exigia há dois anos: um novo Governo, onde a oposição dispusesse de direito de veto sobre as decisões.

Para quem conheça o Líbano, a pretensão era mais do que razoável. O partido xiita tem com o maior partido cristão uma aliança que representa a maioria da população. Por outro lado, se o Líbano não é governável contra qualquer uma das suas comunidades, muito menos o pode ser contra duas.

O Líbano é um vespeiro de ingerências e a Síria e o Irão pertencem ao catálogo. Mas quem estimulou a provocação do Governo, que ditaria a sua perda, foram os homens de mão de Bush. Os aliados de Washington no Líbano perceberam, à sua custa, que não devem esperar mais do que palavras da próxima administração.

Esta crise permitiu ainda a emergência do Qatar entre as monarquias do Golfo. O emirato conseguiu numa semana o que sauditas e sírios não quiseram, ou não puderam, durante meses. Também a Turquia marca pontos. Ao mesmo tempo que os libaneses discutiam em Doha, Ancara punha sírios e israelitas a discutir a devolução dos montes Golã, ocupados por Israel em 1967. Ninguém espere que Damasco rompa a aliança com Teerão. Mas está na hora de Telavive começar a fazer contas à vida.

O desfecho libanês mostra como a estratégia do Império para o Médio Oriente se está a esgotar rapidamente em todas as frentes. Finalmente, conviria que a Europa também percebesse. Estrasburgo acabou por apoiar, agora, o acordo de Doha depois de, em 2005, ter classificado o Hezbollah como «organização terrorista»...

Artigo de Miguel Portas publicado no jornal Sol de 24 de Maio de 2008

 
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