A Fome (para além de Santana Lopes) criar PDF versão para impressão
26-Mai-2008
João Teixeira LopesÉ urgente que o Governo leve a cabo, em parceria com as instituições que estão no terreno, uma campanha nacional de distribuição regular de alimentos. É, por assim dizer, o mínimo dos mínimos!

No início da passada semana, antes de Santana Lopes confrontar Sócrates com o «regresso da fome», visitei, com vários camaradas, o Banco Alimentar do Porto. A deslocação tinha dois objectivos fundamentais: entregar o Livro Negro da Pobreza no distrito (uma vez que aquela fora uma das instituições visitadas durante o trabalho de terreno) e recolher novas informações, nomeadamente no contexto da crise alimentar.

Os dados não poderiam ser mais esclarecedores. Há seis meses, o Banco Alimentar do Porto (BAP) estava já muito longe de conseguir responder às solicitações contando, na altura, com mais de cem organizações em lista de espera. Hoje são 180: mais 80%, num curtíssimo espaço de tempo - aumento fulgurante.

No total, o BAP distribui regularmente alimentos para 70 mil pessoas. Mas dezenas de milhares estão a descoberto, uma vez que não estão disponíveis alimentos suficientes. Constituem, na verdade, utentes das associações «mediadoras», uma vez que estas fazem a ponte entre o BAP (que não efectua distribuição individual de alimentos) e as pessoas carenciadas. Não será exagero, por isso, e apenas contando com a rede do BAP, avançar com um número de cem mil pessoas com carências alimentares, parte delas sem cobertura institucional. A nível nacional, considerando que a pobreza no distrito do Porto representa 25% do total do país, adianto, sem qualquer cedência à demagogia, com o cenário de 400 mil pessoas em situação de miséria ou pobreza absoluta (definida, precisamente, por grandes dificuldades em conseguir satisfazer necessidades básicas).

O Ministro da Agricultura insurgiu-se com estes números e diz que ninguém passa fome. Em primeiro lugar, o Ministro confunde-se: o facto de existirem redes de distribuição de alimentos não perdoa em nada o facto cru de existirem tantas pessoas em urgência social, incapazes de comparem um cabaz essencial. Em segundo lugar, como já foi claramente demonstrado, a dita rede está muito longe de poder responder às crescentes necessidades. Em terceiro lugar, o Ministro não diz a verdade quanto aos alimentos distribuídos: os excedentes da União Europeia têm diminuído e não há nem carne nem leite para dispensar. Em quarto lugar, sinal claro da crueldade social deste Governo, legitima-se uma demissão de responsabilidades estatais carregando o terceiro sector com a missão de matar a fome aos pobres.

Sejamos claros: é urgente que o Governo leve a cabo, em parceria com as instituições que estão no terreno, uma campanha nacional de distribuição regular de alimentos. É, por assim dizer, o mínimo dos mínimos!

Quanto a Santana Lopes, cabe-lhe responder por que se calou quando durante o Governo do PSD vários estudos demonstraram a existência de duzentas mil pessoas com fome. Todos nos lembramos da resposta do então Ministro Bagão Félix: «não sabemos onde estão essas pessoas, senão dar-lhes-íamos de comer».

João Teixeira Lopes

 
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