Corrida presidencial nos EUA ignora corrida ao armamento criar PDF versão para impressão
05-Jun-2008
amy_goodman.jpgTodos os dias há pessoas - civis, crianças - a ser mortas e mutiladas por bombas de fragmentação e minas terrestres. A activação de milhares de mísseis nucleares está presa por um fio.

Enquanto decorre a corrida presidencial norte-americana o mesmo acontece com a corrida ao armamento, a nível mundial. Todos os dias há pessoas - civis, crianças - a ser mortas e mutiladas por bombas de fragmentação e minas terrestres. A activação de milhares de mísseis nucleares está presa por um fio. O governo dos Estados Unidos brande o seu sabre contra o Irão, acusando-o de estar a desenvolver um programa de armas nucleares, ao mesmo tempo que oferece urânio à Arábia Saudita. E, com a guerra do Iraque já no sexto ano, um dos seus arquitectos, Douglas J. Feith, antigo subsecretário da defesa na administração de Donald Rumsfeld, escreveu, como era de prever, uma história revisionista da guerra e das decisões que levaram a ela.

Feith declarou esta semana: "Assim, embora tenha sido um erro tremendo a Administração ter confiado nas informações incorrectas sobre as armas de destruição maciça - e com isto quero dizer que foi catastrófico para a nossa credibilidade - em primeiro lugar, foi um erro honesto, não foi uma mentira. Mas mesmo que a repreendamos pelo erro, o que encontrámos no Iraque foi uma grave ameaça de armas de destruição maciça. Mesmo que Saddam Hussein tivesse decidido não manter as reservas, tinha-se colocado numa posição em que poderia ter reposto essas reservas em 3 a 5 semanas."

Durante uma entrevista, perguntei a Hans Blix o que pensava dos comentários de Feith. Blix foi o Inspector-Chefe para o Armamento das Nações Unidas encarregado da procura de armas de destruição maciça. Reflectindo sobre o que ocorreu há cinco anos, afirmou: "Provar que não há nada é quase impossível. Acho que bastaria que tivéssemos ficado mais dois meses no Iraque para deixar bem claro para toda a gente que era muito provável não haver quaisquer armas de destruição maciça." Em vez de esperar pelo resultado das investigações, o Pentágono preocupou-se em desacreditar Blix. Questionei-o sobre as alegadas escutas que os EUA tinham posto no gabinete e em casa dele. Disse-me: "Quem dera que tivessem escutado um pouco melhor aquilo que eu tinha a dizer, se é que escutaram."

Blix descreve o actual estado das relações mundiais como uma "Paz Fria". "É difícil ignorar a impressão de que - quase 20 anos depois do fim da Guerra Fria - ainda são os cálculos militares que dominam a forma como se projectam as relações mundiais a longo prazo. O terrorismo foi formalmente declarado o inimigo número um, mas também são tomadas precauções contra o crescente poder da China e da Rússia." O pacto de cooperação nuclear do Presidente Bush com a Índia, a declarada disponibilidade de Barack Obama de atacar unilateralmente o Paquistão, aliado dos Estados Unidos e potência nuclear, a promessa feita por Hillary Clinton de "arrasar o Irão", nação de 70 milhões de habitantes (caso este atacasse Israel) e a dureza das posições de John MaCain em relação à Rússia, incluindo a instalação de uma linha de defesa anti-míssil na Europa de leste, tudo aponta para uma aposta em soluções militares, que Blix considera um caminho para o conflito e para a guerra.
Numa notável demonstração de hipocrisia, a administração Bush comprometeu-se a fornecer urânio enriquecido à Arábia Saudita. O activista antinuclear Harvey Wasserman declarou: "A ideia de fornecer urânio enriquecido aos sauditas e ao mesmo tempo ameaçar de guerra o Irão por enriquecer urânio é absolutamente espantosa. Roça o absurdo pensar que os sauditas vão de algum modo baixar o preço do petróleo na esperança de conseguirem reactores nucleares no futuro."

Perguntei a Blix qual seria a coisa mais importante que os EUA poderiam fazer para promover a paz no mundo. Assinar o Tratado de Proibição Total de Ensaios Nucleares, disse ele. "Nessa altura, acho muito provável que os chineses, que não o ratificaram, sigam o exemplo. Se a China o fizer, talvez a Índia o faça. Se a Índia o fizer, o Paquistão também o fará, etc. E o tratado seria aplicado. Seria uma grande coisa se conseguíssemos banir os testes de armas nucleares no futuro."

As armas nucleares não são as únicas armas de destruição maciça. Enquanto eu entrevistava Blix, centenas de pessoas reuniam-se em Dublin, na Irlanda, para redigir um tratado contra as bombas de fragmentação, causa defendida pela Princesa Diana nos últimos anos de vida. A Conferência Diplomática de Dublin sobre Munições de Fragmentação destina-se a "negociar um novo instrumento da lei humanitária internacional para banir as munições de fragmentação, responsáveis por causar danos inaceitáveis em civis."

Participam 128 países na conferência de Dublin. Os Estados Unidos, principal produtor de munições de fragmentação, primam pela ausência. A Rússia e a China também não estão lá.

Da proliferação nuclear ao uso de bombas de fragmentação - a cobertura da campanha eleitoral deveria centrar-se mais na corrida ao armamento e menos nas corridas de cavalos.

Tradução: Maria José Simas



 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >
© 2019 Esquerda.Net
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.