Alternativa, aqui agora criar PDF versão para impressão
07-Jun-2008
Eduardo PereiraNo dia 3 de Junho várias correntes da esquerda reuniram-se em festa, em Lisboa, no Teatro da Trindade. Para celebrar o que nos une, sem dúvida. Mas também para denunciar o falhanço insuportável daqueles que se renderam ao suposto "pensamento único", à ideologia neoliberal e à crença nos poderes quase mágicos do "mercado", erigido em valor central da política.

Para dizer que a factura dessa rendição, é o crescimento do desemprego, da precariedade, da pobreza e das desigualdades sociais. Para afirmar que essa factura não é uma inevitabilidade histórica, mas antes o corolário lógico das opções políticas dos Governos dos últimos anos. E para recolocar as questões sociais como o valor central de uma política de esquerda.

Foi bonita, a festa! No palco, houve música (Rádio Macau, António Manuel Ribeiro e Terrakota) e intervenções, a cargo de José Soeiro (deputado do Bloco de Esquerda), Isabel Allegro Magalhães (professora universitária) e Manuel Alegre. A sala foi pequena para os muitos que queriam marcar presença. Alguns transbordaram para outa sala, anexa. Outros assistiram num ecrã gigante montado no exterior. Outros ainda, espalhados pelo país, assistiram à transmissão em directo, pela internet. E muitos, muitos mais, associaram-se em espírito a esta celebração conjunta. Presentes na sala, ou associados à convocatória desta festa, estiveram militantes e dirigentes do Bloco de Esquerda, militantes destacados do PS (incluindo fundadores, dirigentes históricos, deputados e ex-governantes), comunistas empenhados no movimento de renovação comunista, independentes, figuras marcantes da resistência do séc. XX português como Edmundo Pedro, sindicalistas, militares de Abril, gente ligada à ciência, à cultura, às artes e muitos, muitos outros. Gente de várias gerações, como exemplificado pelos músicos Francisco Fanhais e Pacman, por exemplo. De fora, ficaram apenas aqueles que hoje governam renegando a esquerda a que ainda dizem pertencer, bem como aqueles outros que teimam em sobreviver agarrados a um sectarismo que é cada vez mais anacrónico e corresponde cada vez menos àquilo de que a esquerda necessita. De resto, estávamos lá todos.

Todos juntos, afirmando a urgência de construir uma alternativa de esquerda. Uma alternativa que dê resposta à crise social crescente. Que dê futuro aos jovens e amparo aos mais velhos. Que reafirme o princípio de um Estado que não abdique de prestar serviços públicos, nem de construir justiça social. Uma alternativa que reconheça o papel central do trabalho e a distribuição mais justa da riqueza como condições do desenvolvimento e da democracia plena. Que respeite os valores centrais da sustentabilidade ambiental. Que não apenas respeite integralmente os direitos das mulheres, dos imigrantes, dos homossexuais e de todas as minorias, como, mais do que isso, valorize a participação de todos e de todas. Que reabilite o valor das nacionalizações, contra monopólios privados que se arrogam direitos sobre bens estratégicos como a água, a energia, ou as estradas. Que garanta o respeito por todos os povos numa perspectiva verdadeiramente internacionalista, lutando contra os novos imperialismos. Que oponha ao capitalismo actual, o valor de um socialismo em permanente reinvenção.

Uma alternativa que responda a uma imensa maioria social, sem deixar de traduzir a especificidade da voz única de cada corrente, de uma esquerda que se fortalece na sua própria diversidade. Uma alternativa que se constrói aqui e agora.

Eduardo Pereira

Opinião publicada no jornal O Comércio de Gaia de 5 de Junho de 2008

 
Artigo seguinte >
© 2019 Esquerda.Net
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.