Congresso Feminista 2008: Relançar igualdade da mulher na agenda política criar PDF versão para impressão
19-Jun-2008
Congresso Feminista 2008Em Junho de 2008 assinalam-se 80 anos da realização do segundo congresso feminista em Portugal. Uma data que a UMAR - União de Mulheres Alternativa e Resposta irá assinalar com a realização de um novo congresso, nos dias 26 e 27 de Junho, na Fundação Calouste Gulbenkian, e 28 de Junho, na Faculdade de Belas Artes. O jornal Esquerda nº. 29 falou com Catarina Moreira e traça as linhas desta iniciativa.
Texto de Catarina Oliveira

Após uma das maiores conquistas de sempre das mulheres portuguesas, a alteração da lei da interrupção voluntária da gravidez, alcançada em 2007, através de referendo nacional, há ainda um longo caminho a percorrer, a nível político, social, cultural e das mentalidades, em matéria de igualdade dos direitos das mulheres em Portugal. Esta é uma forte convicção daquelas que, como Manuela Tavares e Maria José Magalhães, da direcção da UMAR, entre mais de 300 nomes que integram a comissão promotora, se empenharam na organização deste congresso, que trará em Junho a Lisboa alguns dos principais investigadores nacionais e internacionais, sobre a temática da condição feminina.

O congresso é composto por cerca de 30 painéis temáticos, e contará com a presença de perto de 160 congressistas, entre as quais várias feministas oriundas de África e do Brasil. São esperadas cerca de 400 pessoas, durante os três de actividade, que se iniciam com uma homenagem à feminista Madalena Barbosa, na Gulbenkian, na conferência de abertura. Na recta final do congresso tem lugar a mesa redonda: "Os feminismos e os desafios para o nosso século", que conta com Maria José Magalhães, Teresa Joaquim, Ana Luísa Amaral, Ana Vicente, Ana Gabriela Macedo, Conceição Nogueira, Fernanda Henriques, Manuela Tavares, Regina Tavares da Silva e Virgínia Ferreira.

Dar visibilidade aos feminismos como uma corrente de pensamento e de acção na sociedade portuguesa e envolver diversos sectores sociais, culturais, associativos e políticos para que os feminismos se projectem socialmente, como um modo de reconfigurar a democracia e a cidadania participativa, são alguns dos principais objectivos do encontro.

Para preparar o congresso, em Março último, a UMAR atravessou o país de Norte a Sul para saber o que as mulheres pensam sobre o feminismo, na Rota dos Feminismos. Este roteiro contou com iniciativas de índole cultural e recreativa, organizadas por associações locais, entre as quais música, animação, leitura de poemas, conversas informais acerca do feminismo e a distribuição de postais e folhetos sobre o simbolismo do dia da Mulher.

A celebração dos 80 anos do último congresso feminista que se realizou em Portugal - o 2º Congresso Feminista e da Educação - organizado pelo Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, constitui a oportunidade certa para trazer para a sociedade portuguesa reflexões sobre temas como "Feminismos, cidadania e movimentos sociais", "Trabalho, sindicalismo e empoderamento das mulheres", "Tráfico de Mulheres", "Mulheres e Minorias Étnicas e Culturais", entre mais de 30 sessão temáticas.

"Este é o tempo para relançar as questões feministas e os feminismos", acredita Catarina Frade Moreira, de 29 anos, da direcção nacional da UMAR, que integra a comissão promotora. Após o Sim no referendo em 2007, terminou "um dos últimos redutos da dominação sobre a mulher, sobre o seu corpo e o seu direito ao prazer". Durante muito tempo a questão do aborto alimentou a questão feminista em Portugal. Catarina Moreira afirma que, após ter sido conquistado esse direito, agora finalmente legitimado pelo Estado, alguns poderão ter julgado, que, em matéria de causas feministas, já haveria pouco pelo qual lutar. Nada de mais errado, esclarece. "Continuamos a assistir a várias formas de violência e discriminação sobre as mulheres, seja ela física ou simbólica". A pobreza e a exclusão social atingem hoje as mulheres de forma diferente dos homens, sendo elas as mais afectadas pela falta de independência económica, na desigualdade no acesso ao emprego, com a sobrecarga física e mental que resulta do concílio da vida pessoal e profissional.

Para Catarina Moreira, que há vários anos desenvolve trabalho de investigação sobre a condição feminina, há também uma necessidade de mudança de mentalidades na forma como hoje são encarados os "feminismos", no plural já que as causas que são mais prementes para cada feminista, mulher ou homem, "derivam sempre do seu posicionamento individual", sexo, raça, herança cultural, orientação cultural ou de outros aspectos.

Hoje o feminismo continua, no entanto, envolto num grande preconceito. "Julgo que assumir-me hoje como feminista é um acto revolucionário, contra-corrente, que as pessoas não estão à espera, parece que é algo que pertence ao passado, a um outro tempo, que não faz sentido", refere-nos Catarina. Mas faz, de facto, todo o sentido. E os jovens não escapam às críticas. "Parece que as pessoas têm uma certa amnésia, sobretudo os jovens e as jovens, ou que não se interessam. Não podemos esquecer que só há 30 anos as mulheres podem votar, ou sair do país sem ter autorização do marido, ou ter o seu negócio próprio. Não tenhamos ilusões de que em 30 anos as causas e lutas de outrora foram conquistadas."

Os avanços legislativos em matéria de direitos das mulheres são significativos mas não têm tido correspondência em termos concretos. "Temos um primeiro plano nacional contra o tráfico de seres humanos, o terceiro plano nacional contra a violência e igualdade de género, e a nível da UE criou-se o roteiro para a igualdade, existem planos mas não basta estar no papel, há muito trabalho a ser feito, e sobretudo em termos de mudança de mentalidades".

Ser feminista no século XXI não é mais que lutar, através desta corrente de pensamento e acção, pelos direitos humanos de homens e mulheres, contra as discriminações, contra as instituições que oprimem mulheres e homens. O que todas as mulheres querem é que as suas opções, o que a sociedade lhes pode dar, não seja condicionado pelo facto de se ter nascido mulher. E essa é uma luta que ainda é necessário continuar a travar.

Congresso Feminista 2008: Alguns dos temas em reflexão

Sessão de abertura

Elisabete Brasil, Rui Vilar (Presidente da Fundação C. Gulbenkian), Elza Pais (Presidente CIG), Lígia Amâncio (Vice-presidente da FCT)

Conferência de abertura

Maria José Magalhães, Sónia Alvarez (Univ. da Califórnia, Vice-Presidente da Associação de Estudos Latino Americanos)

Simone de Beauvoir: o centenário do seu nascimento

Maria Antónia Palla, Teresa Almeida,

Mulheres e Média

Maria João Silveirinha, Diana Andringa.

Mulheres e Lideranças

Albertina Jordão, M. Helena de Koning.

Mulheres, Pobreza e Exclusão Social

Ana Maria Braga da Cruz, Vânia Martins

Violência de Género e nas relações de intimidade I

Artemisa Coimbra, Manuel Lisboa.

Feminismos, História das Mulheres e da Educação

Sofi a Marques da Silva, Margarida Felgueiras

Trabalho, sindicalismo e empoderamento das mulheres

Guida Vieira, Maria José Maurício

Movimentos Sociais, Feminismos e Políticas Públicas

Almerinda Bento, Leslie Toledo

Famílias, casamentos e trajectos emancipatórios

Engrácia Leandro Anália Torres

Mulheres Migrantes

Cármen Queiroz, Rosa Nunes

Educação, Género e Cidadanias

Marília Favinha, Cristina Vieira.

Escrita de mulheres / Escrita feminista

Lídia Jorge, António Feijó

Representações Sexualidades e Erotismo

Ana Teixeira, Júlio Machado Vaz

Tráfico de mulheres e Prostituição

Catarina Moreira, Alexandra Oliveira

Sexualidades e Direitos Sexuais e Reprodutivos

Manuela Sampaio, Ana Campos

Conferência de encerramento

Manuela Góis e Salomé Coelho, Miguel Arruda (Prés. Cons. Directivo de Belas Artes), Maria Xosé Agra Romero (Univ. Santiago de Compostela); Miriam Pilar Rossi (Revista Estudos Feministas) Teresa Pinto (APEM) e Fátima Grácio (F. Cuidar o Futuro).

*Além dos moderadores e comentadores referidos, cada sessão temática contra vários intervenientes que farão a apresentação do trabalho desenvolvido sobre o tema.

Informações Úteis: União de Mulheres Alternativa e Resposta - UMAR: 218 873 005

Programa Cultural

Ciclo de Cinema e Vídeo do Congresso Feminista

Filme documental e de ficção de realizadoras/es portuguesas/es; Filme concerto; Filme dança e Curtas e longas-metragens

  • 13 a 16 Jun | Sáb a Seg: 15h30;

18h30; 22h | Cinema São Jorge

Conversas no tanque - Feminismos e Controvérsias

  • 18 Jun: 21h | Chapitô

Apresentação da «Agenda Feminista 2009»

  • 26 Jun: 19h | CML - Paços do Concelho Música Quarteto Ariadne |

Concerto de Abertura do Congresso Feminista

  • 26 Jun: 9h30 | Fundação Calouste Gulbenkian (Auditório 2)

Sara Serpa Quinteto

  • 26 Jun: 23h | Hot Clube Portugal Trio de Ana Margarida Sanmarful,

Margarida Prates e Valter Marrafa

  • 27 Jun: 16h30 | Fundação Calouste Gulbenkian (Auditório 2)

Cramol, Descalças (Açores) e Paula Sousa Trio

  • 27 Jun: 21h30 | Fábrica do Braço de Prata Artes Visuais

Pintura: Andrea Inocêncio

  • 21 Jun a 19 Jul | Galeria Pedro Serrenho

Fotografia

Exposição de Rita Carmo | espaço do Congresso Feminista

Músicas: Retratos de mulheres na música, em Portugal

  • 26, 27 Jun | Fundação Calouste Gulbenkian GravuraColectiva
  • 26 a 28 Jun | Galeria da Associação de Gravura "Água Forte"

Jóia, Substantivo Feminino

Joalharia Contemporânea com a PIN (Associação Portuguesa de Joalharia Contemporânea) e Galeria Articula

Inaugura a 19 Jun | Galeria Articula Artes Performativas

Perfinst: Uma Performance-Instalação, de Luís Castro | Espaço Karnart

"Visões sobre Cemitério de Pianos"

A partir de Cemitério de Pianos, de José Luís Peixoto.

  • Até 28 Jun | Qui a Sáb 22h30 «A Fronteira», de Laila Ripoll.
  • De 9 Jun a 18 Jul | Seg a Sex: 21h | Espaço Karnart
 
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