O feminismo é um projecto mas também um método... criar PDF versão para impressão
25-Jun-2008
Manta da Marcha Mundial de Mulheres (pormenor) - Foto de Paulete MatosO que é o feminismo ou que sentido faz hoje falar de feminismo? Lígia Amâncio, investigadora, considera que "faz todo o sentido continuar a falar de feminismo", enquanto reivindicação de uma sociedade mais igualitária. Sustenta que "o feminismo é um projecto, sem dúvida, mas também um método e uma ética..."
Entrevista de Lígia Amâncio ao jornal Notícias da Amadora, 20 Março de 2003 (disponível no site Congresso Feminista 2008).

Notícias da Amadora: Os movimentos feministas em Portugal são reflexo da estrutural ausência de consciência e militância...?

Lígia Amâncio: A ausência, ou timidez, do movimento feminista em Portugal deve-se a factores específicos da sociedade portuguesa que se situam ao nível do género e não ao nível da ausência de consciência e militância que, aliás, existe em muitos outros domínios... Esses factores situam-se no antes e no pós 25 de Abril:

a) A luta antifascista mobilizou grande parte das feministas da primeira vaga contribuindo para diluir as reivindicações feministas na luta pela democracia (veja-se a este propósito o trabalho, publicado em livro pelo ICS, da Vanda Gorjão). As próprias forças políticas que enquadraram, no plano político e organizativo, grande parte da luta antifascista consideravam que a questão da desigualdade entre os sexos era meramente subsidiária da desigualdade entre classes.

b) O movimento feminista dos anos 60 e 70 do século XX difundiu-se sobretudo através da palavra e da escrita. Há vários exemplos de obras que se tornaram referências mobilizadoras das mulheres e dos meios intelectuais, em geral, para a causa das mulheres (Simone de Beauvoir em França, Betty Friedan nos EUA, entre outras, as Três Marias em Portugal). Mas, em Portugal, o analfabetismo manteve a população em geral e as mulheres, em particular, mergulhadas num poço de ignorância e obscurantismo que não lhes permitia aceder à palavra como aconteceu com as mulheres dos outros países que, por essa altura, tinham chegado às Universidades, acedido ao conhecimento e à informação.

c) No pós 25 de Abril dois factores contribuíram para impedir a difusão de uma consciência feminista. No plano político, o facto das questões da igualdade terem sido colonizadas pelos partidos e pela(s) igreja(s), deixando pouco espaço à expressão da sociedade civil. Este processo inscreve-se na forte partidarização da sociedade portuguesa a seguir ao 25 de Abril que dificultou todas as formas de expressão colectiva 'fora' dos aparelhos partidários. Acontece, porém, que essa capacidade de expressão foi, apesar de tudo, crescendo no que diz respeito a outras questões como o racismo, a emigração, a política internacional, etc., sem que tal tivesse acontecido com o feminismo que ainda hoje é atravessado pelas ortodoxias partidárias... Isto leva-nos ao segundo factor: o facto de muitas mulheres terem vivido uma mudança quase 'revolucionária' do seu estatuto no plano económico, da cidadania e da auto-estima, sobretudo em comparação com as gerações anteriores, sem qualquer esforço de reivindicação da sua parte, favoreceu o discurso conservador sobre o "fim do feminismo" que se difundiu, nos anos 80, nos países onde o movimento foi forte em reacção precisamente ao período anterior. Este foi um produto de importação que a sociedade portuguesa passou a consumir irreflectidamente...

NA: O feminismo é um projecto inacabado, dinâmico...e por isso mesmo parece vacilar entre um projecto de sociedade mais igualitária e uma teoria das relações de poder?

LA: O feminismo é, sem dúvida, um projecto inacabado e dinâmico que não deixa de apresentar algumas linhas de continuidade desde o seu nascimento, no século XVIII, até aos nossos dias. Não me parece, aliás, correcto dizer que o feminismo vacila entre um projecto de sociedade mais igualitária e uma teoria das relações de poder, porque estas duas linhas de força e reflexão estão presentes na história do feminismo ao longo dos tempos. Este movimento constitui, com efeito, um projecto de sociedade que sempre foi acompanhado de críticas e interrogações sobre a própria sociedade, o estado, a democracia, o conhecimento...

NA: Faz sentido falar de feminismo, hoje? Quais as reivindicações que o sustentam?

LA: Faz todo o sentido continuar a falar de feminismo, do meu ponto de vista, enquanto reivindicação de uma sociedade mais igualitária, o que significa que não podemos esquecer todas as outras formas de desigualdade, ligadas ou potenciadas pela desigualdade entre os sexos e desde que não abdiquemos, nessa luta, do nosso olhar crítico e reflexivo sobre a sociedade em que vivemos em todas as suas formas de organização política, económica e social. O feminismo é um projecto, sem dúvida, mas também um método e uma ética... Reivindicações actuais? Em Portugal, a questão dos direitos sexuais e reprodutivos continua a marcar a ligação com o passado e a impedir o acesso das mulheres portuguesas à cidadania e à modernidade.

 
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