Obama: "Não posso” criar PDF versão para impressão
16-Jun-2008
Uri AvneryDepois de meses de disputa dura e amarga, sem tréguas, Barack Obama derrotou uma formidável opositora, Hillary Clinton. Operou um milagre: pela primeira vez na história, um negro é candidato viável à presidência do mais poderoso país do planeta.
E qual foi a primeira coisa que fez, depois desta fantástica vitória? Correu para não chegar atrasado a mais uma reunião do lóbi israelita, no AIPAC (American Israel Public Affairs Committee), e lá fez um discurso que bateu todos os recordes de subserviência e adulação.
Foi chocante. Muito mais chocante foi que ninguém ficou chocado.

Foi uma fala triunfalista. Nem o AIPAC, organização poderosa, jamais vira coisa semelhante. Sete mil funcionários judeus, vindos de todos os cantos dos EUA, reuniram-se para receber a manifestação de obediência servil da elite de Washington, que ali se curvava, de vez. Os três aspirantes à presidência discursaram, disputando entre eles a palma máxima da adulação. Trezentos senadores e membros do Congresso enchiam as galerias. Quem aspirasse a ser eleito ou reeleito nos EUA, de facto qualquer um que acalentasse ambições políticas, lá estava, para ver e ser visto.

A Washington do AIPAC é como a Constantinopla dos imperadores bizantinos nos dias de apogeu.

O mundo olhou e ficou enfeitiçado. Em Israel, os jornais viveram dias de êxtase. Em todas as capitais do planeta, todos acompanhavam o evento. Os jornais árabes demoraram-se em reportagens e análises. A rede Al-Jazeera dedicou uma hora à discussão do fenómeno.

As mais extremadas conclusões dos professores John Mearsheimer e Stephen Walt confirmaram-se inteiramente. Às vésperas da chegada dos professores a Israel, na próxima 5ª-feira, o lóbi pró-Israel está no centro da vida política nos EUA e em todo o planeta.

Por quê, afinal? Por que os candidatos à presidência dos EUA crêem que o lóbi pró-Israel seja tão absolutamente essencial à eleição de cada um e de todos?

Os votos dos judeus são importantes, é claro, sobretudo em alguns estados ‘indecisos', que, conforme pendam para um ou outro candidato, determinam o resultado. Mas os afro-americanos são em maior número, são mais votos, assim como os hispânicos. E Obama trouxe, para o cenário político, milhões de novos votos, dos eleitores jovens. Numericamente, a comunidade árabe-muçulmana nos EUA também é significativa.

Alguns dizem que aí falaria o dinheiro judeu. Os judeus são ricos. É possível que doem mais que outros, para causas políticas. Mas o mito do poder do dinheiro judeu carrega um estigma anti-semita. Afinal de contas, outros lóbis e, sem dúvida alguma, as corporações multinacionais gigantes, doaram somas consideráveis de dinheiro para a campanha de Obama (tanto quanto doaram, também, para os seus adversários). O próprio Obama anunciou, orgulhoso, que centenas de milhares de cidadãos comuns lhe enviaram pequenas doações de campanha que, somadas, chegaram a dezenas de milhões de dólares.

Sim, é verdade comprovada que o lóbi judeu quase sempre consegue impedir a eleição de senadores e membros do Congresso que não dancem - e não dancem fervorosamente - pela música de Israel. Em alguns casos exemplares (propostos, de facto, para servirem de exemplo) o lóbi derrotou políticos populares, jogando o próprio prestígio e o peso do apoio financeiro noutro nome também empenhado na mesma disputa eleitoral e, de início, praticamente desconhecido.

Mas... numa eleição presidencial?

A transparente adulação, por Obama, ao lóbi israelita, destacou-se mais do que esforços similares, também de bajulação, pelos outros candidatos.

Por quê? Porque o seu espantoso sucesso nas primárias só se explica pela promessa de "trazer a mudança", de pôr fim às práticas políticas viciosas de Washington e de trocar as caras cínicas de sempre por um rosto jovem, de um homem corajoso que não esqueceria os seus princípios.

E então, no vai da valsa, a primeira coisa que Obama faz, depois de ter garantido a indicação pelo seu partido... foi esquecer os tais princípios. E esqueceu-os em grande estilo!

O que mais o distingue dos dois outros candidatos, Hillary Clinton e John McCain, é uma intransigente oposição à guerra no Iraque - e desde o primeiro momento. Foi atitude corajosa. A ideia não era popular. Foi posição que o pôs em total oposição ao lóbi pró-Israel, cujos braços, todos, empurraram George Bush para iniciar uma guerra que livrou Israel de um regime hostil.

E hoje... aí está Obama, arrastando-se na poeira aos pés do AIPAC e diligentemente cuidando de justificar uma política que desmente, do começo ao fim, as ideias que propusera.

OK, ele promete garantir a segurança de Israel a qualquer custo. Até aí, tudo normal. OK, faz sombrias ameaças ao Irão, embora também prometa encontrar os líderes iranianos e discutir pacificamente as dificuldades. OK, promete trazer de volta os três soldados israelitas capturados (mas crê, erradamente, que sejam mantidos presos pelo Hezbollah - erro que mostra, diga-se de passagem, o quanto é superficial o conhecimento que tem sobre os nossos problemas.).

Mas a declaração sobre Jerusalém ultrapassou todos os limites. Não exagera quem diga, desta declaração, que foi um escândalo. Um escândalo.

Nenhum palestiniano, nenhum árabe, nenhum muçulmano jamais fará a paz com Israel, se o complexo Haram al-Xerife (também conhecido como Monte do Templo), um dos três locais sagrados do Islão e o mais importante símbolo do nacionalismo palestiniano, não estiver sob plena soberania palestina. Este é um dos núcleos mais duros de todo o conflito.

Até a conferência de Camp David, em 2000, apesar do então primeiro-ministro Ehud Barak, já considerava a possibilidade de dividir Jerusalém, de algum modo.

E então aparece Obama e colhe, no fundo do quintal, o ultra-superado slogan de uma "Jerusalém indivisa, capital de Israel para toda a Eternidade"! Desde Camp David, todos os governos de Israel já sabem que este mantra é um obstáculo insuperável em qualquer negociação que vise à construção da paz. Por isto, o mantra desaparecera - silenciosamente, quase secretamente - de todos os arsenais de slogans oficiais. Só a direita israelita (e a direita judaico-norte-americana) tem interesse em repeti-lo, e pela mesma razão: para matar no berço, para impedir que cresça, qualquer possibilidade de qualquer paz, porque toda e qualquer paz sempre exigirá o fim das colónias de ocupação em terra árabe.

Nas campanhas presidenciais anteriores, os candidatos sempre falaram como se bastasse prometer que a embaixada dos EUA seria transferida de Telavive para Jerusalém. Eleitos, nenhum dos candidatos deu um passo para cumprir esta promessa. Todos foram persuadidos pelo Departamento de Estado de que a transferência agrediria interesses norte-americanos básicos, na Região.

Obama, não. Obama foi muito além disto. O mais provável é que tenha falado por artifício de campanha, pensando com seus botões: 'OK, tenho de dizer isto, para ser eleito. Depois... será o que Deus quiser'.

Mas nem assim se pode ignorar o facto: todos temem tanto o AIPAC, tanto, que nem este candidato, que promete mudanças importantes, se atreveu a contrariar publicamente o lóbi! Neste ponto, Obama segue, rigorosamente, a rotina da Washington mais antiquada: está pronto para deixar matar o mais básico dos interesses dos EUA.

A verdade é que a paz entre Israel e a Palestina é interesse vital dos EUA, porque só a paz abrirá caminho até ao coração das massas árabes, do Iraque a Marrocos. Obama comprometeu a própria imagem no mundo muçulmano. E pôs o próprio futuro sob pesada hipoteca - que muito mais pesará, quando, e se, for eleito presidente.

Há 65 anos, os judeus norte-americanos assistiram, impotentes, ao extermínio de seus irmãos e irmãs, pela Alemanha nazi, na Europa. Nada puderam fazer para influenciar o Presidente Franklin Delano Roosevelt e forçá-lo a tomar alguma atitude para deter o Holocausto. (Na mesma época, muitos afro-americanos temiam aproximar-se das secções eleitorais, para votar; temiam os cães que eram atiçados contra eles.)

O que causou este tão significativo aumento no poder do establishment judeu-norte-americano? Talento organizacional? Dinheiro? A ascensão social? Vergonha pelo pouco empenho durante o Holocausto?

Quanto mais penso sobre este espantoso fenómeno, mais se fortalece a minha convicção (sobre a qual já escrevi muitas vezes) de que o factor determinante é sempre a semelhança que há entre e empreitada norte-americana e a empreitada sionista, tanto no plano espiritual quanto no plano prático mais objectivo. Israel é os EUA, em miniatura. Os EUA são um monstruoso Israel.

Os emigrados do "Mayflower", exactamente como a primeira e segunda ondas de emigrados sionistas, fugiram da Europa e, na fuga, levavam com eles, no coração, uma visão messiânica, ao mesmo tempo religiosa e utópica (sim, é verdade: os primeiros sionistas eram, na maioria, ateus; mas as tradições religiosas pesavam poderosamente na sua visão de mundo). Os fundadores da sociedade norte-americana eram "pilgrims", peregrinos; os emigrados sionistas chamam-se de "olim", forma abreviada de "olim beregel", também a significar "peregrinos". Ambos abriram velas rumo a uma "terra prometida", crendo que fossem, eles mesmos, cada um a seu modo, o povo escolhido de Deus.

Ambos os grupos sofreram muito na nova terra. Ambos se viam como "pioneiros", que fariam florescer o deserto ou o oeste selvagem; nos dois casos, "povo sem terra, em terra sem povo". Nos dois casos, os que chegavam ignoraram os povos nativos, que viram como selvagens subhumanos e assassinos perigosos. Nos dois casos, a resistência dos povos locais foi vista como prova de que os resistentes seriam ‘naturalmente' maus, assassinos, ladrões - o que, nos dois casos, justificaria a prática das piores atrocidades. Nos dois casos, os povos locais foram expulsos e a terra foi-lhes roubada, como se a expulsão e o roubo fossem a resposta natural naquelas circunstâncias. E os recém-chegados, nos dois casos, ocuparam cada colina, cada palmo de terra, cada sombra de árvore, com a enxada numa mão e a Bíblia na outra.

Sim, é verdade, Israel não praticou nada comparável ao genocídio de que foram vítimas os povos norte-americanos autóctones, nem nada que se compare à violência do escravizamento de muitas gerações de afro-descendentes nos EUA. Mas, dado que os norte-americanos reprimiram a lembrança destas atrocidades, já nada impede que se vejam como assemelhados aos israelitas. O resultado é que, no inconsciente das duas nações, parece fermentar uma mistura venenosa de culpas reprimidas que, nos dois casos, se manifesta na negação obsessiva dos erros passados; o que, nos dois casos, parece gerar agressividade, violência e culto obcecado do poder.

Como pode acontecer que um homem como Obama, filho de pai africano, se identifique tão profunda e completamente com o pensamento de tantas gerações de brancos norte-americanos? Outra vez, aí se manifesta o poder de um mito que se enraíza no inconsciente pessoal, e leva um homem a identificar-se 100% com uma narrativa nacional imaginada. Pode-se somar aí a necessidade imperiosa, inconsciente, de se identificar com os vitoriosos, de ser como os vitoriosos, se possível.

Por tudo isto, não aceito sem reservas a ‘explicação' de que Obama disse o que disse ‘apenas' para ser eleito; que, depois de eleito, retomará o seu discurso progressista.

Não tenho a certeza de que as coisas sejam bem assim. Sou dos que acham que os preconceitos deitaram raízes muito fundas no pensamento de Obama; e que nada mudará, na passagem do candidato ao presidente eleito.

De certeza, só tenho uma: a fala de Obama na reunião do AIPAC fez mal, muito mal, ao processo de paz. E o que faça mal ao processo de paz faz mal a Israel, faz mal aos EUA, faz mal ao mundo e faz mal ao povo palestiniano.

Se Obama se mantiver preso ao que disse perante o AIPAC, depois de eleito estará obrigado a confessar, em tudo quanto tenha a ver com a paz entre israelitas e palestinianos: "Não posso!".

Uri Avnery,"No, I can't", em Gush Shalom [Grupo da Paz] em http://zope.gush-shalom.org/home/en/channels/avnery/1212871846/ .
Tradução do blogue do Bourdoukan, adaptado para português de Portugal por Carlos Santos

 
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