“E humildemente, Israel pede perdão.” criar PDF versão para impressão
16-Jun-2008
Uri AvneryO primeiro-ministro do Canadá, num discurso dramático ao Parlamento, pediu desculpas aos povos autóctones do seu país, pelas injustiças que sucessivos governos canadianos cometeram, ao longo de muitas gerações.
Assim, o Canadá branco tenta fazer a paz com os povos nativos, cujas terras os primeiros brancos lá chegados conquistaram e cuja cultura os legisladores recém-chegados tentaram varrer do continente americano. 

Pedir desculpas por erros passados tornou-se parte da cultura política moderna.

Pedir desculpas não é fácil. Alguém mais cínico dirá que tampouco é assim tão difícil. São palavras e palavras são mercadoria barata. Sim. Mas pedir desculpas também é um acto que carrega uma significação profunda. Os seres humanos - e mais ainda as nações - sempre penam muito, antes de admitir as atrocidades que cometam. Pedir desculpas implica reescrever a narrativa histórica que é a base da coesão nacional. Pedir desculpas obriga a reescrever os livros escolares e altera a auto-imagem nacional. Raramente os governos pedem desculpas oficiais, o que se explica em grande parte pela acção dos nacionalistas demagogos e xenófobos que infestam todas as nações.

O presidente da França pediu desculpas, em nome dos franceses, pelos erros do regime de Vichy, que entregou judeus aos exterminadores nazis. O governo checo pediu desculpas aos alemães pela expulsão em massa da população alemã no final da II Guerra Mundial. A Alemanha, é claro, pediu desculpas aos judeus pelos crimes inomináveis do Holocausto. Recentemente, o governo australiano pediu desculpas aos povos aborígenes. E até em Israel já houve uma pálida tentativa de curar uma chaga doméstica, quando Ehud Barak pediu desculpas aos judeus orientais pela discriminação de que foram vítimas durante muitos anos.

Mas em Israel o problema é muito mais difícil e complexo. Pedir desculpas, neste caso, tem a ver com as raízes da existência de Israel como nação, na parte do mundo onde está hoje.

Creio que a paz entre Israel e o povo palestiniano - paz verdadeira, baseada em autêntica conciliação - começa por um pedido de desculpas.

Fecho os olhos e, em imaginação, vejo o presidente de Israel ou o primeiro-ministro, em sessão extraordinária e especialíssima do Knesset, o Parlamento israelita, pronunciando um discurso que faria história, mais ou menos nos seguintes termos:


 

"Digníssima presidente do Parlamento israelita. Senhores e senhoras parlamentares.

Em nome do Estado de Israel e de todos os cidadãos de Israel, dirijo-me hoje aos filhos e filhas do povo palestiniano, estejam onde estiverem em todo o mundo.

Reconhecemos que cometemos contra os senhores, as senhoras, seus filhos, filhas, netos e netas, uma injustiça histórica. E humildemente Israel pede perdão.

Quando o movimento sionista decidiu estabelecer um lar nacional neste país - "a terra de Israel", para nós; e "Filastina", para vocês - ninguém sabia que teria de construir o novo Estado sobre as ruínas de outro povo. De facto, até então, praticamente ninguém, no movimento sionista, jamais pusera os pés na vossa terra, antes do I Congresso Sionista, em 1897, e ninguém tinha sequer ideia do que aqui havia.

O ardente desejo dos pais fundadores do movimento sionista era salvar os judeus europeus, sobre os quais se armavam as nuvens tempestuosas do ódio. Na Europa Ocidental, já havia pogroms. E por toda a Europa viam-se sinais do processo que, adiante, levaria ao horror do Holocausto e à morte de 6 milhões de judeus.

A isto se somou a devoção profunda que liga os judeus, por muitas gerações, à terra na qual se escreveu a Bíblia, texto que define o povo judeu; e a cidade de Jerusalém, cidade para a qual se voltam os judeus, há milhares de anos, nas suas orações.

Os sionistas fundadores que aqui chegaram eram pioneiros, dos que carregam no coração os mais ferventes ideais. Acreditavam na libertação nacional, na liberdade, na justiça e na igualdade entre os homens. Israel orgulha-se deles. Nenhum deles jamais supôs que se cometeria aqui a injustiça que aqui se cometeu, de tão imensa dimensão histórica.

Nada disto justifica o que foi feito na Palestina, depois. A criação do lar nacional dos judeus neste país fez-se ao preço de uma terrível injustiça contra os povos que aqui já viviam há muitas gerações.

Já não se pode continuar a ignorar que, na guerra de 1948 -, que os israelitas chamam de "Guerra da Independência" e foi a Nakba para os palestinianos -, cerca de 750 mil palestinianos foram expulsos das próprias casas e da própria terra. Consideradas as específicas circunstâncias desta tragédia, proponho que se constitua um "Comité para a Verdade e a Reconciliação", que reunirá especialistas israelitas e palestinianos, e cujas conclusões serão incorporadas nos textos escolares israelitas e palestinianos.

Já não se pode continuar a ignorar que até hoje - e já são 60 anos de conflitos e guerra -, os palestinianos continuam impedidos de exercer o seu direito à independência e a um Estado nacional livre. Este direito é assegurado aos palestinianos pela Resolução de 29/11/1947 da Assembleia Geral da ONU, o mesmo documento que dá fundamento legal ao Estado de Israel.

Por tudo isto, Israel deve aos palestinianos um pedido de perdão, que aqui expresso, por esse pronunciamento e de todo o coração.

Diz a Bíblia que "Quem oculta os seus crimes não prosperará, mas quem os confessa e repele alcançará misericórdia" (Provérbios 28:13). É claro que não basta confessar. Temos de fazer cessar os efeitos dos erros que cometemos por tanto tempo.

É impossível fazer voltar a roda da história e recompor o país que aqui encontrámos em 1947, assim como nem o Canadá nem os EUA podem voltar a 200 anos passados. Temos de construir o nosso futuro comum, no desejo partilhado de andar em frente, de curar o que possa ser curado e reparar o que possa ser reparado, sem causar novas feridas, sem cometer novas injustiças e sem provocar novas tragédias humanas.

Peço que aceitem o nosso pedido de desculpas e de perdão, no espírito em que aqui o propomos. Trabalhemos juntos em busca de uma solução viável e prática para o nosso conflito de quase um século - solução que não satisfará todas as justas aspirações de justiça, nem corrigirá todos os erros, mas que permitirá que, doravante, os nossos povos, afinal, comecem a construir um futuro de liberdade, de paz e de prosperidade.

Esta solução está aí, à vista de todos. Todos a conhecemos. É solução que brotou da nossa sofrida experiência, trazida à luz pelas nossas dores, cristalizada no que de melhor produzimos, corações e mentes israelitas e palestinianas.

É solução simples, que cabe numa frase: os palestinianos têm exactamente os mesmos direitos que têm os israelitas. Os palestinianos, como os israelitas, têm direito a constituir o seu próprio Estado, sob a sua bandeira, governado pelas suas leis, leis que os palestinianos escrevam, governados por governos que os palestinianos elejam - e esperemos que seja um bom governo.

Um dos mandamentos fundadores da religião em Israel - e, também, da religião dos palestinianos e de todas as religiões - está bem dito há 2000 anos, por Hillel, o velho: "Não faças aos outros o que não queres que façam a ti."

Na prática, é o mandamento que afirma que os palestinianos têm o legítimo direito de constituir o Estado da Palestina, Estado livre e soberano, em todos os territórios que Israel ocupou em 1967 - e Estado palestiniano que será reconhecido como membro de pleno direito da ONU.

Serão restauradas as fronteiras de 4/6/1967. A isto chegaremos mediante negociações livres, com eventuais pequenos acertos territoriais que interessem às duas partes.

Jerusalém, cidade tão cara a todos nós e aos dois Estados que se constituirão, será capital dos dois Estados - Jerusalém Oeste, com a parte oriental do Muro das Lamentações, será capital de Israel; Jerusalém Leste, com al-Haram al-Sharif (para os israelitas, o "Monte do Templo") será capital da Palestina. O que é árabe, para os árabes; o que é judeu para os judeus. E trabalharemos juntos para preservar a cidade como cidade viva, aberta e íntegra.

Israel evacuará as colónias de ocupação, que tantos sofrimentos provocam, fonte de eterna injustiça. Os colonos voltarão a Israel, excepto nas pequenas áreas que sejam objecto de troca, no interesse dos dois lados. Toda a parafernália da ocupação será removida, tanto materialmente quanto institucionalmente.

Temos de nos reaproximar, de coração aberto, movidos por compaixão e senso comum generoso, para a tarefa de construir uma solução justa e viável que ponha fim à inominável tragédia dos refugiados e das suas famílias. Cada família terá o direito de escolher de entre várias possibilidades: repatriamento e reassentamento no Estado da Palestina, com assistência garantida; permanecer onde estiverem ou emigrar para onde escolham ir, também assistidos por assistência generosa; e sim, claro, voltar a viver em território de Israel, em número que Israel aceite. Os próprios refugiados têm de ver-se e serem vistos como parceiros na construção de seu próprio futuro.

Creio que os nossos dois Estados - Israel e Palestina, vivendo lado a lado nesta pequena terra bem amada de todos nós, rapidamente criarão modos de conviver nos planos humano, social, económico, tecnológico e cultural, e construirão um relacionamento que garantirá a segurança de todos, além de desenvolvimento e prosperidade para todos.

Juntos construiremos paz e prosperidade baseadas em relações justas entre todos os países da região.

Comprometidos, então, com a paz, e unidos no desejo de criar melhor futuro para os nossos filhos, filhas, netos e netas, levantemo-nos, agora, e curvemos a cabeça, em memória das incontáveis vítimas desta guerra intolerável, árabes e judeus, palestinianos e israelitas. Que eles também nos perdoem."

 


 

Na minha opinião, um discurso nestes termos é absolutamente essencial, para inaugurar um novo capítulo na história de Israel.

Em décadas de reuniões com palestinianos, nas mais diferentes circunstâncias da vida, cheguei à conclusão de que os aspectos emocionais do conflito são tão importantes - e talvez sejam ainda mais importantes - do que os aspectos políticos. Todos os palestinianos vivem sob a profundo sensação de injustiça, que se manifesta em pensamento e em acções. E há sempre sentimentos de culpa, inconscientes ou semiconscientes, na alma dos israelitas, que criam uma convicção tão profunda quanto atormentada, de que os árabes jamais farão a paz com os israelitas.

Não sei se será possível um discurso como o que aqui proponho. Muitos factores imponderáveis incidem aí. Mas sei que, sem um discurso como o que aqui proponho, não bastam os acordos de paz construídos por diplomatas negociadores, que negociam por critérios diplomáticos. Como os acordos de Oslo já mostraram, jamais bastará construir uma ilha artificial de ‘acordo', num mar de emoções tempestuosas.

O pedido público de desculpas, pelo primeiro-ministro do Canadá, não é a única contribuição dos canadianos da qual muito se pode aprender.

Há 43 anos, o governo canadiano deu um passo extraordinário para construir a paz entre a maioria falante de inglês e a minoria falante de francês, no Canadá. Este relacionamento conflituoso permanecia, no Canadá, como chaga aberta, desde a conquista pelos ingleses do Canadá francês, há cerca de 250 anos. Há 43 anos a bandeira do Canadá, até então inspirada na "Union Jack" britânica, foi substituída por outra, com a folha de plátano.

Naquela ocasião, o presidente do Senado disse: "Esta bandeira é símbolo da unidade nacional, dado que ela, sem dúvida, representa todos os cidadãos do Canadá, sem distinção de raça, de língua, de fé ou de opinião".

Também aí há algo que Israel pode aprender.

Uri Avnery, 14/6/2008, "An apology", na internet, na página de Gush Shalom [Grupo de Paz], em http://zope.gush-shalom.org/home/en/channels/avnery/1213478638/

Tradução do blogue do Bourdoukan, adaptado para português de Portugal por Carlos Santos

 
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