A trégua de Gaza: uma derrota de Israel criar PDF versão para impressão
25-Jun-2008
Michel WarschawskiO acordo de trégua conseguido no passado dia 18 de Junho entre o governo israelita e o Hamas constitui uma dupla vitória do partido islâmico palestiniano.

Em primeiro lugar, quebrou a decisão israelita de não negociar com o Hamas: Ehud Olmert não teve outro remédio senão negociar, de forma indirecta, com uma organização com a qual, segundo o que ele mesmo proclamara, não ia falar nunca. Em segundo lugar, Israel viu-se obrigado a suspender a sua agressão criminosa contra Gaza e a sua população.

Diferente do que a maioria dos jornais israelitas afirmam, o recente ciclo de violência não começou com o lançamento de foguetes Qassam sobre Sderot, mas sim com a decisão de Israel e dos EUA de submeter Gaza a um cerco, de impor um embargo internacional sobre uma população de mais de 1,5 milhão de civis e de lançar centenas de toneladas de bombas e projécteis sobre este pequeno território repleto de gente, tudo com o objectivo de forçar a população de Gaza a desfazer-se do governo que elegeu democraticamente.

Como pode compreender qualquer pessoa não contaminada pelo vírus da arrogância colonial, a violência dos militares israelitas só fortalece a popularidade do governo eleito. Poder-se-ia ter esperado de Olmert e dos seus generais que tivessem retirado alguma lição do fiasco libanês de 2006, onde, como reacção aos maciços bombardeamentos israelitas e à destruição em Beirute, Tiro e Bint Jbeil, a maioria do povo libanês cerrou fileiras em torno do Hezbollah, incluindo muitas mulheres e homens que definitivamente não eram partidários dessa organização. O orgulho e a dignidade são factores com peso específico no jogo político, mas a história demonstrou uma e outra vez que os governos coloniais são incapazes de levar esses factores em consideração.

O fracasso da estratégia de impor mudanças por meio da violência militar não é só uma derrota israelita, mas também mais um fracasso da estratégia neoconservadora global norte-americana da "guerra preventiva infinita contra o terrorismo". Do Afeganistão ao Líbano, do Iraque à Palestina, a estratégia dos EUA fracassou, como confirmou o relatório Baker-Hamilton. E a maior parte da classe dirigente norte-americana reza para que, antes de desaparecer definitivamente da cena política dentro de poucos meses, não passe pela cabeça do presidente Bush tentar um último ataque, numa tentativa infrutífera de reverter os fracassos da década anterior, fracassos que custaram a vida a centenas de milhares de civis inocentes, sobretudo no Médio Oriente.

Em 2006, Israel viu-se obrigado a retirar do Líbano, deixando atrás um governo pró-EUA mais enfraquecido que antes. Agora, em 2008, Israel tem de firmar uma trégua com o Hamas, com o que fortalece o poder e a popularidade do Hamas na Cisjordânia e em Gaza.

Benjamin Netanyahu tem razão quando fala de fracasso da estratégia de guerra de Bush-Olmert. Mas a sua alternativa para remediar o fracasso do brutal cerco e bombardeamento de Gaza consiste em empregar uma brutalidade ainda maior, intensificar o cerco e impor mais pressões internacionais contra a população palestiniana.

O que não funcionou com violência poderá funcionar com mais violência? É muito pouco provável. O orgulho e a dignidade são às vezes mais fortes que o poder militar.

Michael Warschawski

Publicado originalmente no Alternative Information Center http://www.alternativenews.org/

Tradução de Luis Leiria

 
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