Louçã analisa crise financeira - jornal Esquerda de Julho criar PDF versão para impressão
23-Jul-2008
Jornal Esquerda nº. 30 - Julho de 2008 No jornal Esquerda 30, Francisco Louçã responde a perguntas do economista Nuno Teles sobre a crise nacional e internacional. Ao longo desta entrevista são abordadas a crise financeira, com origem nos Estados Unidos e propagação a nível mundial, as suas consequências na economia europeia e nacional e também a política económica do governo português.

Nuno Teles (NT): Como é que uma crise de um sector muito particular do mercado de crédito norte-americano pode provocar uma crise mundial desta gravidade, que se prolonga há mais de um ano?

Francisco Louçã (FL): Talvez ainda não se saiba tudo na resposta a essa pergunta, porque os fundamentos da crise só foram revelados parcialmente e é provável, e esse é o efeito de arrastamento da crise, que a desvalorização dos activos de empresas, que constituíram fundos a partir de acções ou derivados baseados na bolha imobiliária ou outros produtos especulativos deste tipo, venha a revelar no futuro tragédias financeiras ainda mais graves.

Quando olhamos para trás o grande problema é saber porque é que desde 95/97 a economia norte-americana foi puxada por bolhas especulativas sucessivas. Na verdade foram pelo menos duas bolhas sobrepostas, a do mercado imobiliário e a relacionada com as indústrias de tecnologias e de comunicações.

A diferença entre a dinâmica especulativa dos mercados financeiros e o crescimento real das economias não pode ser mantida em rotas divergentes durante muito tempo. E isto levou a que houvessem muitos capitais, que não tinham e procuravam uma rentabilidade a curto prazo muito elevada, só pudessem encontrá-la ou em mercados especulativos, como o imobiliário, ou naqueles em que existia a expectativa de taxas de lucro importantes, como era o caso das grandes empresas de telecomunicações de internet e de informática. Isso levou a um grande fluxo de capitais para esses sectores, o que acentuou a bolha especulativa, e houve um bocado um processo tipo Dona Branca: quanto mais crescia o fluxo de capitais, maior era a procura das acções, maior a sua valorização, mais atraía capitais que estavam ociosos. Em certa medida temos aqui um princípio de catástrofe na financiarização do capitalismo mundial.

NT: Assistimos a um conjunto de crises financeiras de há vinte anos a esta parte. Mas nunca assistimos a uma crise financeira desta gravidade no centro da economia global, nos Estados Unidos. O que podemos antever desta crise nos EUA e quais as suas consequências no resto da economia mundial?

FL: Há muitas consequências desta crise e ela vai-se arrastando ao longo do tempo, porque as suas consequências não estão completamente absorvidas. A ONU fazia há pouco tempo um cálculo de que poderia ter afectado 2% do produto mundial, mas na verdade não se sabe ainda. Porque não se sabe qual é a dimensão dos activos patrimoniais de empresas, que pode vir a ser posto em causa por efeitos de desagregação sucessivos. Neste momento esta crise já é mais grave do que a crise financeira de 2000/2001, e provavelmente do que a de 97.

Comparar com os outros processos em que houve simultaneamente um efeito de dominó sobre o emprego ainda é relativamente cedo. Mas os efeitos na economia real serão graves, há empresas que vão falir, o desemprego aumenta por causa disso, portanto as consequências são muito grandes.

Por outro lado, os Estado Unidos respondem a esta crise numa situação difícil, porque a política oficial americana tem sido manter a taxa de juro muito baixa para poder impulsionar a economia e almofadar os efeitos recessivos que estas crises têm. Mas a taxa de juro muito baixa tem também um efeito que é levar os capitais a não procurarem aplicações de longo prazo na banca, mas jogarem na bolsa, portanto acentua o efeito. O Greenspan e os outros depois dele acentuaram o recurso à bolsa como o centro do mercado financeiro, mas isto também tem uma consequência, tendo juros relativamente baixos, a não ser que a bolsa prometa grandes remunerações de capital, o fluxo de capitais para os Estados Unidos pode ser prejudicado porque a taxa de juro nos EUA é de 2%, mas na Europa é de 5% ou mais em algumas aplicações. Os Estados Unidos precisam de capital, é um país esfomeado de capital, tem que manter esse fluxo permanente e esta crise cria uma contradição que é nova, se a confiança na bolsa vier a ser posta em causa.

NT: Observamos nesta crise, pela primeira vez em muito tempo, que os países mais desenvolvidos, como a Inglaterra e agora os EUA, nacionalizaram bancos e houve uma intervenção clara do Estado nos mercados financeiros. Isto pode indiciar uma reversão de todo o movimento de financiarização da economia a que vimos assistindo nos últimos 20 anos? Qual é o tipo de intervenção pública que necessitamos para disciplinar os mercados financeiros?

FL: Creio que ainda é cedo para dizer, e seria talvez um pouco especulativo, que os liberais mais duros se tornaram de repente proteccionistas, capazes de nacionalizar os bancos. No entanto foi assim que aconteceu na Inglaterra, com um governo tão liberal como o de Gordon Brown, e é assim que acontece nos Estados Unidos com George Bush.

Trata-se sobretudo de intervenções de desespero para evitar que a desconfiança no mercado tenha um efeito que vá cavalgando sobre outras sociedades. Creio que se trata de pagar o custo, de nacionalizar as dívidas para dar confiança ao mercado, para que ele continue a funcionar com esta espiral de atracção de capitais.

Uma política pública alternativa tem que começar por questionar o predomínio das orientações liberais. A defesa do pleno emprego e políticas de financiamento de necessidades públicas exigem um corte com estas economias liberais e uma medida fundamental, que é indispensável do ponto de vista da política mundial, o controlo dos movimentos de capitais.

É preciso um controlo do movimento de capitais, como a taxa Tobin pretendia quanto aos movimentos sobre operações cambiais, mas hoje é necessária alguma coisa muito mais geral do que isso. É preciso não só regular, mas regular controlando o movimento especulativo de capitais, para que se possa ter uma estratégia de convergência internacional sobre princípios fundamentais de saneamento do sistema financeiro.

O sistema financeiro só será salvo com uma fortíssima desvalorização dos capitais especulativos e isso faz-se historicamente de muitas formas diferentes. A mais trágica de todas é a guerra. Os grandes episódios históricos, a primeira guerra, a segunda, representaram exactamente isso, conflito imperialista com a desvalorização de capitais. Outra forma é a inflação ou a hiper-inflação, que é terrível do ponto de vista da vida social para os mais pobres, sobretudo quando há o risco de ser estagflação, inflação mais estagnação, desemprego com inflação.

NT: Esta crise internacional chega a Portugal num momento em que atravessamos quase sete anos de um crescimento medíocre, aumento de desemprego, estagnação salarial. Assistimos a um ajustamento muito assimétrico, a uma austeridade permanente em que o peso da crise é distribuído de forma muito desigual na sociedade portuguesa. Até que ponto é que os trabalhadores podem aguentar a crise que aí vem?

FL: Bem isso é sobretudo uma questão política. Portugal é um país que tem um processo de modernização muito rápido com a criação de uma polarização social muito forte. A acumulação privada da riqueza aumentou de uma forma extraordinária, aliás por pequenas operações que mudam por completo a configuração da burguesia portuguesa. A venda de 23% da GALP a Américo Amorim mais os 10% que ele comprou depois, o facto de ter passado de um ano para o outro a ter 33% da GALP, permitiu-lhe passar a ser o homem mais rico de Portugal, e acumular só com isso, num ano, uma mais valia da ordem dos dois mil milhões de euros. O Governo tem permitido e favorecido estes grandes processos de acumulação de capital que são rentistas, porque nestas operações têm grande benefício porque são monopólios, em serviços públicos ou em sectores estratégicos, e têm uma vantagem sem nenhuma concorrência, sem nenhum risco, o que acentua a ideia de que a burguesia portuguesa, tem uma história de enorme dependência do Estado e de enorme incapacidade de actuação social, de transformação, de inovação.

O capitalismo português será sempre um capitalismo mediocremente desenvolvido, rentista, explorador, baseado na pressão dos salários e a única pergunta é que projecto político alternativo é que os trabalhadores podem representar, como é que um projecto socialista pode confrontar esta dominação e esta forma de exploração, porque não existe possibilidade de desenvolvimento social, de redistribuição de riqueza, de melhoria das condições de vida, a não ser pela força, pela pressão e pela capacidade de um projecto anti-capitalista e socialista. Esse é o desafio político aos trabalhadores portugueses, a todos os que querem responder a esta crise.

NT: Parece-me particularmente grave a forma como a ofensiva se desloca para os serviços públicos. Portugal está amarrado a uma determinada direcção como por exemplo os acordos de parceria público-privado que se anunciam nos novos investimentos públicos? Estamos condenados a esse modelo num futuro próximo?

FL: Isso também depende da política.

Tanto o PS como o PSD estão inteiramente de acordo com esse modelo e qualquer governo que se baseie nestes partidos defenderá sempre uma estratégia nesse sentido. Porque são compromissos sociais e económicos fortíssimos.

Veja-se o caso da Lusoponte. A Lusoponte é uma parceria entre as grandes empresas de construção, construiu a ponte Vasco da Gama e como compensação foram-lhe dadas vantagens extraordinárias, como a exploração de uma ponte em que eles não tinham gasto um cêntimo, a ponte 25 de Abril.

A ponte 25 de Abril aos preços da altura, claro que há uma grande diferença nos anos, passaram 40 anos, é paga cada dois meses pelas portagens, é paga seis vezes por ano. E, esta empresa está a receber um benefício extraordinário que não decorre sequer da parceria público-privado. É simplesmente uma vantagem rentista e é o que acontece com as águas, com a saúde, porventura com a educação, com a REN (a rede de distribuição de energia) e com a distribuição dos produtos petrolíferos. Em todos esses sectores fundamentais, criam-se grupos nacionais, ou reforçam-se, que não constroem nenhuma capacidade produtiva porque se trata exclusivamente da exploração de serviços ou de utilidades públicas e nunca da criação de patentes, de conhecimento, de capacidade produtiva. Portugal nunca teve uma Nokia... A Sonae o melhor que faz é centros comerciais. As operações de internacionalização são redes de supermercados que produzem resultados comerciais ou financeiros, mas nunca valor acrescentado significativo.

NT: Uma pergunta, que tem muito a ver com uma das desculpas do governo... Está tudo muito enquadrado no pacto de crescimento e na luta contra o défice, é uma fatalidade?

FL: Os governos europeus, o português entre eles, criaram uma ideologia da irresponsabilidade, que aliás é uma parte da ideologia da globalização. Uma das grandes vantagens da globalização é permitir aos governos dizerem que a culpa nunca é sua. Dizem que têm que ter uma determinada política orçamental, porque ela lhes é imposta e não há escolhas, não há margem de liberdade.

No entanto, mesmo do ponto de vista desses critérios, a política das parcerias público-privado é um disparate. Porque ela significa um gasto orçamental muito acrescido no futuro. É toda a diferença entre fazer um aeroporto e pagar o capital necessário para a obra a 2%, que é o que se paga se for divida pública, ou pagá-lo a 15% ou mais no recurso ao capital privado. As parcerias público-privado significam um aumento de impostos no futuro. Aliás a conta é fácil de fazer. Nas obras que estão anunciadas significa 2.000 euros por cada contribuinte, que vamos ter que pagar só para financiar os juros e os benefícios de capital, porque foi escolhido capital privado e não uma despesa pública que é mais barata.

Elas só são assim porque significa que há uns consórcios que vão ter uma garantia, 75 anos nas barragens, 75 anos quando vierem a ter a exploração das estradas de Portugal ou 30 anos ou 35 nos hospitais, prazos longuíssimos de rentabilização de capital, que os torna imunes a qualquer necessidade de concorrência, são aplicações. E por isso é que a burguesia portuguesa precisa tanto do Estado porque o Estado lhe dá esta garantia. Veja-se bem que o PSD contesta obras públicas, que aliás já aprovou no passado e que o PS agora está a fazer, mas nunca contestará a privatização da ANA, dos aeroportos, nunca contestará o facto destas obras serem entregues à gestão privada. Pelo contrário estão-nos a dizer mais, que devia ser o modelo para todos os hospitais, devia ser o modelo para as estradas, devia ser o modelo em geral nos serviços públicos. Até chegaram a vender créditos fiscais ao maior banco mundial, que é o Citygroup, como fez Manuela Ferreira Leite. Em todos estes casos há um grande acordo nesta política anti-orçamental, de buraco orçamental.

Os que mais apregoam o rigor orçamental são os maiores responsáveis pela crise orçamental que vamos viver, já não num ano ou dois mas durante uma geração ou em alguns casos em duas gerações.

Entrevista completa em vídeo em www.esquerda.net

Nuno Teles, economista, co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas

 
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