Celebremos o fim da raça criar PDF versão para impressão
28-Jul-2008
ADN (parte da estrutura de um ADN)"Hoje eu tenho que sublinhar, acima de tudo, a raça, o dia da raça". Os motivos pelos quais o Presidente da República utilizou a palavra "raça", própria do regime salazarista e que foi condenada pela Unesco na década de 50, tendo desde então entrado em desuso tanto nas ciências naturais como nas ciências sociais, nunca foram explicitados. Cavaco não se arrependeu, de certo mantendo-se fiel à sua antiga máxima: "nunca tenho dúvidas e raramente me engano". Mas porque as dúvidas existem, tiremos a limpo esta questão.
Texto de Miguel Reis publicado no jornal Esquerda 30.

Alguns zoólogos tendem a considerar a raça um sinónimo de subespécie, caracterizada pela existência de linhagens distintas dentro das espécies. Normalmente isto ocorre quando duas ou mais populações de uma mesma espécie ficam separadas por barreiras geográficas durante muitas gerações. Não existindo trocas de genes, elas sofrem mutações ao longo do tempo, diferenciando-se geneticamente. No entanto, mesmo cingindo-nos à classificação dos animais, o termo "raça" não reúne consenso e pelo contrário suscita algum descrédito, até porque no "Código Internacional de Nomenclatura Zoológica" (4ª edição, 2000) não existe nenhuma norma definida para considerar categorias sistemáticas abaixo da espécie.

No passado muitos usaram a palavra "raça" para distinguir pessoas de cor de pele diferente. Mas a noção de "raça", entendida em termos biológicos, é bastante tardia. Passou a ser aplicada a animais e vegetais apenas no séc. XVII (com Lineu) e somente no século XIX o termo é utilizado em relação à espécie humana, nomeadamente com o Conde de Gobineau, na sua obra "Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas" (1853), que divide a humanidade em três raças distintas, a "raça branca" (Ariana), a "raça amarela" e a "raça negra", com superioridade da primeira em relação às outras. O racialismo ou racismo científico tornou-se a partir daí a ideologia predominante nos meios eruditos, em conjunto com o darwinismo social e com as teorias eugénicas desenvolvidas por Francis Galton.

A teoria da divisão em "raças humanas" disseminou-se amplamente na época do nacionalismo inflamado, que deu lugar à proclamação de ideologias racistas em nome da ciência, com a Alemanha Nazi e o extermínio dos Judeus a ilustrarem à cabeça a letalidade desta expressão. Também os regimes coloniais - como Portugal - fizeram da "raça" uma forma de mostrarem a sua superioridade sobre os colonizados. O apartheid, na África do Sul, foi o expoente máximo desta política.

Contudo, não só por causa do horror justificado pela "raça" mas também devido aos avanços na genética, biologia e até na antropologia (com Claude Lévi-Strauss e Franz Boas), na segunda metade do séc.XX a ideia de "raça" foi sendo aos poucos abandonada, levando a Unesco a recomendar a sua substituição por "grupo étnico", o qual insiste fortemente nas dimensões culturais dentro da população humana (língua, religião, costumes, hábitos etc.).

Na verdade era ilegítimo utilizar determinadas diferenças físicas - a cor da pele, o tamanho, o tipo de cabelo, a conformação facial e cranial - para dividir a humanidade de maneira hierárquica. Tanto a biologia como as ciências humanas tiveram de abandonar essa noção. Hoje, só nos Estados Unidos se usa uma classificação oficial da sua população em raças, alegadamente para proteger os direitos das minorias.

Os argumentos da ciência

Mas atentemos então nas razões da ciência moderna e contemporânea. Há pelo menos dois fortes argumentos que destroem o conceito biológico de "raça", independentemente da sua utilização para postular hierarquias. O primeiro argumento tem que ver com as semelhanças essenciais entre os seres humanos. Com efeito, em 2006, a comunidade científica de biólogos considerou que ninguém poderia falar de raças humanas, como frisou Albert Jacquard numa declaração assinada por seiscentos cientistas : "O conceito de raça pode ser definido somente dentro de espécies cujos vários grupos foram isolados uns dos outros por um tempo suficientemente longo para que o seu património genético se diferencie. De onde se conclui que, na espécie humana, esta diferenciação é tão pouco pronunciada que o conceito de raças humanas não é operacional".

Tanto assim é que se considerarmos dois seres humanos escolhidos ao acaso, as suas diferenças genéticas são identificadas entre um em 1000 e um em 1500 pares de nucleótidos (constituintes do DNA), ao contrário, por exemplo, dos chimpanzés, em que entre eles é possível encontrar diferenças num em cada 500 pares de nucleótidos. Tudo indica que os membros da espécie humana têm entre si mais semelhanças do que o que sucede na generalidade das outras espécies, o que invalida a utilização do conceito de subespécie ou raça no caso dos humanos.

O segundo argumento tem que ver com a diversidade dentro da igualdade. Ou seja, de toda a variabilidade genética humana (que já sabemos que é de 0,1%, um par de nucleótidos em cada mil) cerca de 90% desta variação pode ser encontrada dentro do mesmo grupo geográfi co (europeu, asiático, africano, etc.) e apenas 10% entre os diversos grupos. Logo, as diferenças genéticas entre dois brancos escolhidos ao acaso podem facilmente ser superiores às diferenças genéticas entre um negro e um branco. Os genes que definem a cor da pele são apenas seis enquanto que, por exemplo, a altura de cada ser humano é controlada por dezenas de genes. Ou seja, um negro alto pode ser mais parecido geneticamente com um branco alto do que com um negro baixo.

Concluindo, as diferenças genéticas entre seres humanos não são suficientes para podermos categorizar raças, e por outro lado essas diferenças ocorrem muito mais entre indivíduos do que entre grupos geográficos, de tal modo que se insistíssemos na categorização teriam que ser estabelecidas milhares de "raças", tornando inútil o próprio conceito de raça. Isto são lições da ciência. Convém sempre lembrá-las, mesmo que delas não necessitemos para advogar uma política de igualdade de direitos entre todos os seres humanos.

 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >
Esquerda.Rádio
© 2019 Esquerda.Net
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.