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07-Out-2006

À BEIRA DO ABISMO
afeganistao01Há cinco anos, após os atentados do 11 de Setembro, uma coligação encabeçada pelos Estados Unidos bombardeava e invadia o Afeganistão, derrubando o regime bárbaro dos taliban.
O Afeganistão é um dos países mais pobres do mundo e o seu povo tem atravessado dificuldades inomináveis, uma guerra civil durante décadas, invasões estrangeiras, regimes de extrema crueldade, senhores da guerra, fanatismo islâmico extremo. As mulheres têm sido a parte mais oprimida e violentada deste país da Ásia central, que é também o maior produtor mundial de heroína.
Neste dossier diversos artigos procuram dar a conhecer como está o Afeganistão. À beira do abismo é como caracterizou a situação actual o jornalista e escritor paquistanês Ahmed Rashid neste artigo publicado em Junho passado e disponível em inglês em ahmedrashid.com

Afeganistão: À beira do abismo

por Ahmed Rashid

1.

Em Dezembro de 2005 passei várias horas no salão de entrada do Hotel Intercontinental em Cabul entrevistando algumas das pessoas que por lá passavam. O hotel, alcandorado numa colina à beira da cidade e há muito visto pela cadeia Intercontinental como uma perda, passou tempos difíceis nos vinte e três anos da guerra do Afeganistão. Em 1992 passei mais de um mês escondido neste hotel, evitando os estilhaços do colapso do regime comunista e depois a guerra civil que se espalhou por toda a cidade. Na década seguinte o hotel tinha regularmente faltas de electricidade ou de água e nunca mais lá vi uma mulher.

Em 2005, sentado no sofá do salão de entrada do hotel, encontrei à minha esquerda um antigo comandante taliban com uma barba até à cintura, e à direita uma bela jovem afegã de Herat, cuja única concessão à cobertura tradicional era um lenço largo e esvoaçante na cabeça. Eram ambos membros do novo parlamento afegão que foi eleito a 18 de Setembro, na semana anterior tinham estado a receber instrução dos peritos das Nações Unidas sobre o que era um parlamento e como se comportar nele. As duas horas de intervalo para almoço permitiam aos deputados encontrar-se informalmente. Como disse à jovem, via-se que o antigo oficial taliban estava ainda em estado de choque por ela lá estar.

Um choque ainda maior deve ter sido a disposição dos lugares a 19 de Dezembro de 2005, quando o parlamento foi inaugurado pelo presidente Hamid Karzai na presença do vice-presidente dos EUA Dick Cheney, que chegou vinte minutos depois. Deputados e deputadas estavam sentados próximos uns dos outros por ordem alfabética. Tal não acontece no Irão ou no mundo árabe, os parlamentos existentes em muitos países muçulmanos impõem a mais estrita segregação.

O parlamento provou que não é um veículo estritamente controlado por Karzai ou pelos americanos. Atacou a sua primeira tarefa em Março de 2006 com o cuidado e profissionalismo que se pode esperar de instituições antigas e experimentadas. No sistema presidencialista do Afeganistão a nova constituição dá ao parlamento o poder de aprovar o governo e aos deputados de se pronunciarem sobre ele. Eles pediram respeitosamente a cada um dos vinte e cinco ministros que apresentassem as suas credenciais, dissessem o que fizeram e esperavam fazer e obrigaram-nos a responder a perguntas rápidas e duras formuladas pelos deputados.

Ainda mais notável foi ver pela primeira vez estes procedimentos serem transmitidos em directo pela TV e pela rádio. Uma grande parte da população viu-os. Durante um mês o trabalho parava enquanto os afegãos magnetizados ouviam ministros tribais e senhores da guerra tactearem por palavras que transmitissem o que eles pensavam. Finalmente a 20 de Abril o parlamento aprovou apenas 20 ministros, forçando Karzai a demitir cinco dos seus escolhidos.

É difícil constatar a importância de um parlamento tão independente e a experiência das primeiras eleições gerais desde 1973 para os afegãos. Votaram cerca de 6,6 milhões de afegãos, dos quais 41% eram mulheres. As mulheres conseguiram 68 lugares ou seja 27% dos 249 lugares na Wolesi Jirga, ou câmara baixa "Casa do Povo" e um sexto no Meshrano Jirga - a câmara alta ou Senado chamado "Conselho dos Anciãos". Estes números estão muito para além do maior número de mulheres existente no parlamento de qualquer outro país muçulmano, ou mesmo em muitos países ocidentais. Estima-se ainda que um terço dos deputados homens ou são senhores da guerra, grandes violadores dos direitos humanos, ou estão envolvidos no tráfico de droga. É este o resultado de mais de duas décadas de guerra.

Em Setembro de 2005 votaram 53% da população, enquanto para as eleições presidenciais de 2004 tinham votado 70%. As razões para a queda de votantes têm a ver com o perigoso estado do Afeganistão de hoje, com a falta de segurança e com a desilusão dos eleitores.

As eleições concluíram o processo patrocinado pelas Nações Unidas que começou em Novembro de 2001, quando Lakhdar Brahimi e Francesc Vendrell, oficiais das NU, convenceram as diferentes facções afegãs a se encontrarem em Bona para traçar um futuro "caminho para a paz". Desde então os afegãos debateram e votaram uma nova constituição, elegeram livremente um presidente e um parlamento, e criaram conselhos nas 34 províncias para gerir os assuntos públicos. Até agora foram desarmados mais de 60 000 homens das milícias, cinco milhões de crianças voltaram para a escola e estão a ser providenciados alguns cuidados de saúde para além de Cabul. O crescimento do produto interno bruto (PIB) do Afeganistão - excluindo o boom da produção de ópio - foi de cerca de 17% ao ano desde 2002.

Espera-se que o crescimento do PIB atinja este ano 14% e o governo financiará 60% do orçamento anual com receitas próprias em vez das receitas doadas pelos ocidentais e pelos outros países - ainda que os fundos para o orçamento da reconstrução e do desenvolvimento continuem a provir dos países doadores. As receitas do governo totalizarão em 2006 apenas 5,4% do PIB não dependente da droga, "menos de qualquer outro país" segundo o último relatório do conselho das relações internacionais para o Afeganistão de Barnett Rubin. Infelizmente ele aponta também que o crescimento económico pós-guerra está agora a chegar ao fim. Rubin, o melhor de um conjunto de académicos americanos que trabalham sobre o Afeganistão desde antes do 11 de Setembro, conhece o Afeganistão melhor do que qualquer outro. Ler o seu relatório para o conselho de relações internacionais é deprimente, quer pelo que mostra que foi feito, quer pelo que falta ainda fazer.

2.

As tentativas de ressurgimento do Estado afegão durante os últimos cinco anos estiveram dependentes de quatro tipos de actores. No lado afegão houveram Karzai e os seus ministros, os senhores da guerra e os defensores dos direitos humanos. A comunidade internacional foi representada pelos delegados especiais do Secretário-geral das Nações Unidas para o Afeganistão. Os três primeiros representantes especiais - Brahimi, seguido pelo francês Jean Arnault e pelo alemão Tom Koenigs - conseguiram administrar as eleições, o parlamento e o governo e coordenaram a sua actividade com as agências de desenvolvimento assim como com cerca de 800 organizações não governamentais ocidentais e afegãs.

Os oficiais internacionais mais influentes foram os americanos, seguidos pelo embaixador Americano e pelos sucessivos generais americanos que chefiaram as forces da coligação, que são agora de 23 000 militares. (Muitos deles são americanos que perseguem os membros da Al Qaeda). O mais decisivo e o maior intruso dos representantes internacionais no Afeganistão foi Zalmany Khalilzad, que foi embaixador entre 2003 e 2005, e é agora embaixador dos EUA no Iraque. Inicialmente os EUA recusaram a participação de capacetes azuis no Afeganistão. A mais recente participação nesta actividade no Afeganistão é da NATO, que desde Agosto de 2003, tem 8 000 militares da força internacional de segurança e assistência, ISAF, em Cabul. Este ano a NATO alargou para mais 11 000 militares colocados nas equipas de reconstrução em 23 das 24 províncias do país. Brevemente as forças dos EUA serão incluídas nas da NATO criando um comando único.

Passaram cinco anos desde que George W. Bush declarou vitória no Afeganistão e disse que os terroristas estavam esmagados. Desde a conferência de Bona, em 2001, foram crescendo muito um conjunto variado de forças militares e de desenvolvimento. Como é que o Afeganistão está de novo próximo do colapso? Para resumir o que correu mal foi a invasão do Iraque: a recusa dos EUA a agarrar seriamente a construção do Estado no Afeganistão e em vez disso apostar numa infrutífera guerra no Iraque. Para o Afeganistão os resultados foram muito poucas tropas, muito pouco dinheiro e a falta de uma estratégia coerente e de iniciativas políticas sustentadas da parte dos líderes ocidentais e afegãos. A conferência de Bona criou o andaime para construir a estrutura do novo Afeganistão, mas faltaram os tijolos e a água corrente. O andaime é apenas uma casca vazia.

Uma consequência foi a reanimação do movimento taliban que tornou ingovernável um terço do país. Juntamente com a Al Qaeda os líderes taliban estão a tentar construir novas bases na fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão. São ajudados pelo ressurgimento da indústria do ópio no Afeganistão, que tem contribuído para a expansão da corrupção e da ilegalidade, particularmente no sul. A maior colheita de papoilas do país é processada em ópio e refinada em heroína para exportação, representando actualmente cerca de 90% do mercado global. Espera-se que a colheita deste ano seja a maior de sempre e os relatórios sugerem que os traficantes de droga estão a estabelecer crescentes alianças com os taliban. Segundo o Independent de Londres, os combatentes islâmicos acordaram este ano suspender temporariamente a sua campanha de violência durante a colheita das papoilas para assegurar o máximo de lucros. O governo afegão demonstrou uma incapacidade fatal de garantir serviços ao seu povo e os ocidentais falharam a tratar com as interferências dos vizinhos, tais como o Paquistão e o Irão.

A situação tornou-se tão crítica que muitos dos doadores, em especial as Nações Unidas, debateram formalmente como continuar a estender o apoio ao Afeganistão depois de ser completado o processo estabelecido em Bona. Em Fevereiro de 2006, Karzai, as Nações Unidas e um largo grupo de nações assinaram em Londres o Acordo do Afeganistão, acordando, uma vez mais, o comprometimento do mundo com o Afeganistão e por sua vez o comprometimento de Cabul com a construção do Estado nos próximos cinco anos. Elogiada como uma declaração de maior solidariedade do mundo para com o Afeganistão o acordo é de facto uma admissão de falhanço estratégico. Muitos dos seus objectivos podem ser encontrados em numerosas promessas, combinações e garantias que foram feitas e nunca plenamente cumpridas pelos EUA, pela Grã-Bretanha e pelas outras nações poderosas muito antes de 2001. O acordo pode ser bem um caso de muito pouco e muito tarde - mesmo que seja plenamente cumprido. Rubin observa que o governo afegão será responsabilizado por qualquer falha no cumprimento dos ambiciosos objectivos do acordo, mas as nações ocidentais que o patrocinaram não serão responsabilizados. Temos visto padrão semelhante no Iraque e no Sudão. A comunidade internacional faz promessas que continuam por cumprir, só para repeti-las poucos anos depois, num novo pacote.

O comandante supremo da NATO, o general Americano James Jones, está farto de dizer que o maior problema do Afeganistão é a droga e não os taliban. Contudo, sem falar nos taliban o problema da droga não pode ser tratado. Nas quatro províncias do sul, Helmand, Kandahar, Zabul e Uruzgan, os taliban e os seus amigos da máfia do Paquistão, do Irão e da Ásia Central conduzem os camponeses no cultivo de papoilas, que lhes dão dinheiro sem impostos, e traficam heroína no estrangeiro para financiar o seu movimento. Estas províncias são a principal base e o centro de comando dos taliban e agora estão totalmente esvaziadas de quaisquer sinais de reconstrução económica ou da presença de ONG's. Eu disse que as tropas britânicas, holandesas e canadianas sob o comando da NATO alargaram a sua acção a estas províncias no Verão deste ano, mas têm teimosamente recusado tratar do problema da papoila e cada país tem uma estratégia diferente para combater os taliban. Os britânicos dizem que eles continuam na ofensiva, os holandeses dizem que eles actuam defensivamente. Assim as forças da NATO parecem mais uma coligação de má vontade do que algo mais, e os taliban começaram a desafiá-los com uma acelerada campanha de Verão de bombas e emboscadas.

Na conferência de Madrid a 17 de Maio, o general Jones fez um apelo apaixonado aos 26 países da NATO com tropas no Afeganistão para que acabem com as restrições nacionais que impõem às suas próprias forças. Há actualmente 71 restrições sobre como as forças podem ser usadas, disse ele, tornando extremamente difícil ao comando da ISAF levar a cabo uma efectiva campanha militar - quer para ganhar as simpatias populares, quer para lutar contra os taliban. Jones disse-me que estava a fazer o máximo para reduzir as restrições a um número possível de gerir.

No dia seguinte à conferência, assim que Jones deixou Madrid, os Taliban atacaram nas quatro províncias do sul do Afeganistão. Tentaram tomar uma pequena cidade na província de Halmand, patrocinaram dois ataques suicida com carros bomba, emboscaram escoltas e colocaram minas. Morreram no total 105 afegãos civis, polícias e taliban - o dia mais sangrento desde o fim da guerra em Dezembro de 2001. Uma mulher soldado canadiana e um empreiteiro americano também morreram.

O governo Americano tem pedido que a NATO se torne mais activa, porque, digo eu, o bloqueado Donald Rumsfeld está desesperado para levar algumas tropas americanas para casa até às eleições para o Congresso em Novembro. Cerca de 3 000 dos 23 000 militares americanos actualmente no Afeganistão estão escalados para voltarem para casa este Verão e os oficiais de segurança ocidentais dizem que mais alguns milhares podem partir antes de Novembro. O início de um regresso americano no meio do ressurgimento dos perversos taliban enfureceu naturalmente Karzai e o seu governo. É uma grande desilusão para milhões de afegãos que, ao contrário dos iraquianos, ainda vêem na presença militar americana de certa grandeza uma garantia de segurança, de fundos internacionais certos e de reconstrução. No Iraque praticamente toda a população quer que os americanos vão embora, agradecendo-lhes contudo o terem derrubado Saddam Hussein. Mas a sobrevivência do novo governo afegão tem dependido da liderança dos Estados Unidos e da sua habilidade para convencer o resto do mundo a reconstruir o país. Os EUA têm de contribuir com dinheiro para cumprir as suas promessas e mostrar que estão dispostos a continuar. Não estão a fazer isto.

Desde 2003 que os Taliban se começaram a reagrupar, amadureceram gradualmente e desenvolveram-se com a ajuda da Al Qaed, que os reorganizou e ensinou a usarem tácticas mais sofisticadas nas suas operações militares. Há um ano os principais grupos taliban eram compostos de poucas dúzias de combatentes, agora cada grupo inclui centenas de homens equipados com armamento pesado com motas, carros e cavalos. Queimam escolas e edifícios administrativos e matam qualquer afegão que esteja, mesmo que indirectamente, associado com o governo. No sul operam com impunidade fora das capitais provinciais, que se estão a tornar como "Zonas Verdes". Aproximadamente 1 500 civis e guardas de segurança afegãos foram mortos pelos taliban no último ano e cerca de 300 já neste ano. Nos últimos nove meses houve 40 ataques bombistas suicidas, em comparação com cinco nos cinco anos anteriores. 295 soldados americanos e quatro oficiais da CIA foram mortos no Afeganistão desde o 11 de Setembro de 2001 - 140 por acção hostil.

O movimento Taliban é parcialmente dirigido de Quetta, na Província do Baluhistão no Paquistão, onde tem sido permitido que floresçam largamente e imperturbavelmente pelo regime militar do presidente Pervez Musharraf. Os paquistaneses nunca lançaram uma operação militar contra os taliban no Baluchistão, nem prenderam um único comandante superior taliban - embora vários oficiais menores tenham sido presos e enviados para Cabul. A logística, o treino e o recrutamento dos taliban estiveram no passado dependentes dos seus aliados no Paquistão tais como os partidos fundamentalistas islâmicos que dirigem as províncias do Baluchistão e da Fronteira Noroeste. Mas os taliban agora também estão entrincheirados no sul do Afeganistão. A Al Qaeda pôs também membros dos taliban em contacto com rebeldes no Iraque, o resultado é que os taliban estão a aprender como planear e levar a cabo ataques bombistas suicida, a fazer e colocar minas, e a detonar dispositivos explosivos improvisados (IEDs). Estão assim capazes de preparar o aumento de emboscadas mortais às tropas afegãs e ocidentais.

3.

No norte do Baluchistão, nas áreas paquistanesas da tribo pashtun no norte e sul do Wasiristão e nas províncias adjacentes do Afeganistão, desenvolve-se um novo movimento rebelde internacional. É composto por membros dos taliban e da Al Qaeda paquistaneses e inclui afegãos taliban, asiáticos centrais leais ao movimento islâmico do Uzbequistão, chechenos, uigures e muçulmanos chineses e outros grupos afegãos liderados por Gulbudin Hakmatyar e Jalaluddin Haggani. Estão a combater sobretudo no leste e no noroeste do Afeganistão, mas também têm demonstrado uma aperfeiçoada capacidade de lançar carros bomba e montar ataques suicidas em Cabul e noutras cidades. Conseguiram resistir às tropas paquistanesas que foram enviadas para as áreas fronteiriças por Musharraf sob considerável pressão dos EUA na Primavera de 2004. Contudo o Paquistão não é o único problema. Barnett Rubin escreve que todos os vizinhos do Afeganistão - Irão, Índia, Rússia e as Repúblicas da Ásia Central - se opõe à presença americana a longo prazo e têm fundos para os seus próprios delegados afegãos como fizeram durante a guerra civil nos anos 90. Esperam apenas que os americanos partam.

A falta de segurança é uma consequência directa do pequeno número de forças ocidentais no terreno. Para além do campo, elas falharam na segurança das próprias cidades e das estradas nacionais onde as agências de ajuda podem trabalhar. Há cinco anos que o Pentágono se obstinou na perseguição à Al Qaeda enquanto falha (tal como acontece no Iraque) no conhecimento das necessidades de um plano coerente para restaurar a sociedade civil no Afeganistão, assim como na importância de levar até ao fim o combate aos taliban, que têm sido tratados como um problema local afegão que não diz respeito às tropas dos EUA. O resultado tem sido a ausência de uma estratégia americana clara para tratar com o Paquistão. O que tem frustrado profundamente os líderes afegãos e cria periodicamente declarações desencontradas entre Karzai e Musharraf na CNN. Entretanto a eficácia da campanha americana contra a Al Qaeda, é ela própria questionável, uma vez que os dois chefes máximos do grupo, Osama Bin Landem e Ayman al-Zawahiri permanecem a monte. Os americanos reivindicam ter apanhado numerosos líderes que eles descrevem como número três na hierarquia da Al Qaeda, embora cada vez que um número três é apanhado outro aparece a tomar o seu lugar.

O segundo, na lista de Rubin, maior problema do Afeganistão é a "corrupção e uma administração ineficaz e sem recursos". Assim que a guerra do Iraque começou o governo passou a receber muito menos dinheiro e apoio para que os seus ministérios sejam capazes de prestar serviços à população. Neste vazio, senhores da guerra e gabinetes ministeriais foram rapidamente ganhos pelos subornos dos membros do narcotráfico, passaram a procurar negócios e propriedades para si próprios. Mas as maiores nações não se entenderam sobre o Iraque e prestaram pouca atenção. Rubin observa que a pobreza, a fome, a doença e a desigualdade de género são tão más no Afeganistão que o país continua no fim de qualquer ranking global.

No Afeganistão o narcotráfico tem minado tudo desde a segurança ao desenvolvimento, enquanto aumenta a frustração pública com o governo. O Afeganistão produz 87% da heroína mundial segundo o Departamento de drogas e crime das Nações Unidas (UNODC) com sede em Viena. A UNODC estima que o valor de todos os opiáceos produzidos no Afeganistão no ano passado foi de 2 800 milhões de dólares - dos quais apenas 600 milhões chegaram aos produtores. É muito menos que a média de 2 500 milhões de dólares que os doadores ocidentais providenciaram ao Afeganistão desde 2001. Os rendimentos dos programas de ajuda, que devem providenciar alternativas de vida aos camponeses que produzem papoilas ou ajudarem-nos a plantar outras culturas igualmente lucrativas, são irrisórios quando comparados com os que o comércio da droga oferece. Os programas que melhor funcionam para ajudar os camponeses são oferecidos pelos próprios traficantes de ópio que providenciam variedades provadas de sementes, fertilizantes e melhores métodos de cultivo para aumentar a produção dos campos de ópio e mesmo dando um maior emprego durante a colheita. Quando se compara a situação do Afeganistão de hoje com a de 2001, vemos que o país precisa de desenvolver uma alternativa para toda a economia que substitua a economia da droga.

A recusa dos doadores internacionais a investir nas regiões agrícolas, onde vive 70% da população, tem sido um falhanço crítico. Outro foi a falta de fundos para projectos infraestruturais. Nos cinco anos decorridos desde a invasão liderada pelos EUA não foram construídos nem uma única represa, estação eléctrica ou sistema maior de abastecimento de água. Só uma estrada nacional inter cidades foi completada. Só um em cada três residentes em Cabul tem energia eléctrica, que só existe uma em cada três noites. Rubin aponta que os fundos para a reconstrução do Afeganistão até 2003 ficaram abaixo dos que foram para Timor-Leste e Haiti. Entretanto os EUA e a NATO gastaram entre 15 e 18 mil milhões de dólares por ano nas suas operações militares. O mais trágico de tudo é que as populações ocidentais estão longe de conhecer a crise devido à falência crónica da informação sobre o Afeganistão, sobretudo nos EUA.

4.

Recentemente perguntei a um amigo que é redactor na CNN porque é que a CNN não tem uma equipa de reportagem em Cabul ou Islamabad há mais de um ano. Estas são, apesar de tudo, duas capitais que são centrais para a "guerra ao terrorismo" da administração Bush, e a falta de repórteres significa que 18 000 militares americanos no Afeganistão quase não são mencionados na cobertura de notícias internacionais da CNN. Tendo em conta as recentes decisões da Time magazine, do New York Times e de outras grandes organizações da imprensa de despedir centenas de jornalistas, pensei que o meu amigo me iria falar de medidas de corte e redução de orçamentos para reportagem em áreas perigosas. Em vez disso ele respondeu "Podes juntar outras capitais fundamentais como Banguecoque, Jacarta e Teerão, que também estão a ficar sem cobertura."

Disse-me que o problema nestas capitais muçulmanas não é um problema de custos, mas que há muito poucos voluntários para ir para lá. Nem os jovens americanos, homens e mulheres, que ainda há poucos anos se ofereciam para fazer reportagem da Ásia e do Médio Oriente, se oferecem agora. Em contraste, na Grã-Bretanha, dúzias de jovens jornalistas têm sido aplicados a reportar de ambas as regiões, sempre que se abrem vagas. "Os americanos, especialmente os jovens americanos, não querem viajar para a Ásia ou para o mundo islâmico, qualquer lugar pode ser perigoso," disse o meu amigo da CNN. "É um tempo triste para o jornalismo americano."

Os dois livros de reportagem que existem, contudo, foram escritos por americanos aventureiros e corajosos que viveram no Afeganistão e no Paquistão e conhecem bem ambos os países. Ann Jones, autora de vários livros feministas, chegou a Cabul em Dezembro de 2002, um ano depois dos EUA terem deixado de bombardear o país. Começou por trabalhar para uma pequena mas efectiva ONG chamada Madar, ou Mãe, uma organização criada vários anos antes para ajudar as mulheres em Cabul que ficaram viúvas durante os conflitos do país. Em "Cabul no Inverno" Jones descreve as suas visitas às mulheres nas prisões afegãs e a sua experiência de ensinar inglês às professoras - trabalho que ninguém mais queria fazer.

...

Em "Três chávenas de chá", Greg Mortenson, cuja história é contada pelo jornalista David Relin, é ainda mais intrépido que Jones. Um brilhante e conhecido alpinista, que hoje podia ganhar milhões ilustrando mochilas em anúncios nas revistas, Mortenson decidiu em vez disso construir uma escola no mais remoto canto do norte do Paquistão um lugar que é desconhecido de todos à excepção de alguns paquistaneses.

...

Tanto Mortenson como Jones fazem campanha para que os americanos aprendam história, algo que a administração Bush tem repetidamente recusado fazer. Bush visitou Cabul pela primeira vez em 1 de Março de 2006, por poucas horas, onde ele salientou como tudo ia brilhantemente. No seu mais lúcido momento, Zahir Shah, a antigo rei do Afeganistão, agora com noventa e dois anos de idade, contou a primeira visita de um presidente americano a Cabul. Foi o presidente Dwight Eisenhower, que também para uma vista de um dia em 9 de Dezembro de 1959, quando, com 45 anos, o rei dirigia o país e era considerado jovem. Shah lembra-se que pediu a Eisenhower mais ajuda económica para o seu empobrecido país, assim como apoio diplomático para ajudar a melhorar as relações deterioradas com o Paquistão e uma presença americana sustentada para proteger o país. A ajuda recebida foi parca e ineptamente fornecida. Há coisas que nunca mudam.

Publicado em New York Review - 22/06/2006

 
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