1968: A luta contra o racismo irrompe nas Olimpíadas criar PDF versão para impressão
07-Ago-2008
Lee Evans, de boina ods Panteras Negras, no centro, junto com os seus cilegas com boinas idênticasOs Jogos Olímpicos de 1968, na Cidade do México, ficaram famosos pelos protestos inéditos contra o racismo protagonizados por atletas afro-americanos. Nesta entrevista, Lee Evans, medalha de ouro nos 400 metros em 68 e membro do Projecto Olímpico Pelos Direitos Humanos, esclarece ao pormenor como tudo se passou, desde as estratégias para lidar com os media até à forma como conseguiram contornar os imprevistos de última hora.

Entrevista conduzida por Dave Zirin, versão integral no Counterpunch

Lee Evans alcançou o recorde do Mundo dos 400 metros nos Jogos Olímpicos de 1968, no México. Desde então tem treinado selecções de atletismo de nível internacional, desde a Nigéria até à Arábia Saudita, e actualmente é treinador de atletismo e corta-mato na Universidade de Alabama do Sul. Mas talvez Evans seja mais conhecido por ser um membro fundador da OPHR, o Projecto Olímpico pelos Direitos Humanos, que em 1968 tentou organizar um boicote dos atletas afro-americanos aos Jogos Olímpicos do México, para protestar contra a opressão e o racismo dentro e fora de portas. Este protesto teve um dos seus momentos altos com a saudação de punho erguido e luva preta protagonizada por Tommy Smith e John Carlos, após terminarem a corrida dos 200 metros em primeiro e terceiro lugar, respectivamente.

(...)

O que esteve na origem da tua radicalização nos anos 60?

Em 1966, eu era número um do Mundo nos 400 metros mas também um "caloiro" na universidade. Fui a Londres para um encontro e conheci alguns africanos que me convidaram para um comício naquela mesma noite, e eu aceitei ir. Eles vieram buscar-me ao hotel e levaram-me para um encontro da resistência Sul-Africana. Rezaram pelos irmãos que morreram durante a semana e eu nem sequer sabia que na verdade havia uma guerra em curso. Na reunião conheci o Dennis Brutus e o Sam Ramsamy, que é agora presidente do Comité Olímpico da África do Sul. Conhecer estas pessoas fez com que me tornasse consciente do que se estava realmente a passar. Mas nunca falei em público até ao Outono de 1967, altura em que ninguém nos arrendava casa perto da universidade. Nesse tempo, os únicos homens negros no campus eram atletas: de basket, futebol americano ou corrida. O Harry Edwards estava a trabalhar no seu doutoramento e andava por ali. Inteirou-se das nossas queixas e convocou uma reunião. Foi assim que começou. Fundámos o Projecto Olímpico pelos Direitos Humanos. E tudo isto porque não encontrávamos casa suficientemente perto da universidade.

O que é o Projecto Olímpico pelos Direitos Humanos?

No fundo, era um instrumento para operacionalizar a proposta de boicote aos Jogos Olímpicos de 68 pelos atletas afro-americanos. Estávamos muito descontentes com o que se passava no nosso desporto. Tínhamos dez reivindicações. Uma delas era tão somente a exigência de um treinador negro para a equipa.

Outra tinha que ver com a reatribuição do título a Muhammad Ali. Por que motivo isso era tão importante?

Ele estava a ser enxovalhado pelo sistema tal como nós, por isso todos nós nos identificávamos com ele.

O que havia em Muhammmad Ali de tão ameaçador para os poderes da altura?

A sua independência e a forma como falava. Nessa altura, os muçulmanos negros diziam que os brancos eram demónios, de forma que isso assustava imenso os brancos. E depois há o facto de o Malcom X ter recrutado o Muhammad Ali para o Islão e o sistema andava atrás do Malcom X nessa altura.

Os atletas não aderiram ao boicote e participaram nos Jogos. Olhando para trás, achas que foi uma estratégia de sucesso?

Sim. O Harry percebia bem os media. Disse sempre que iríamos levar a votos a proposta de boicote aos jogos e isso foi comentado em todos os jornais. Alguns editores foram tolos, ao escrever "Olhem para estes magrinhos e estúpidos negros, eles não sabem o que estão a fazer". Eles disseram coisas que deixaram bem a nu o tipo de pessoas que eram. Claro que a maioria dos atletas votou contra o boicote. O resultado da votação até me agradou, porque obviamente eu queria participar nos Jogos Olímpicos. Eu sabia que as coisas se passariam assim, que a proposta de boicote era uma forma de ganharmos margem de manobra. Eu e o Tom tínhamos falado sobre o assunto e eu disse "vamos dizer que vamos boicotar os Jogos para conseguirmos algumas coisas" mas todos nós sabíamos que íamos correr no México.

Podes dizer-nos que objectivos foram alcançados pelo Projecto Olímpico pelos Direitos Humanos?
O Projecto Olímpico pelos Direitos Humanos conseguiu muitas coisas que se reflectem hoje. Consciencializámos muitas pessoas. Em primeiro lugar, o facto de alguns estudantes universitários negros se posicionarem de cabeça erguida diante do Mundo. Os colunistas desportivos odiavam-nos. Escreveram coisas horríveis sobre mim e sobre o Tommy e isso fez com que a comunidade negra se juntasse do nosso lado.

O que sentiste quando viste o Tommy Smith e o John Carlos de punhos erguidos com luvas negras no pódio?

Tommy Smith e John Carlos levantam os punhos calçados com luvas negrasExclamei "Que boa ideia!". Também pensei no que o Avery Brundage [chefe do Comité Olímpico] lhes faria. Quando anteriormente lhe perguntaram o que faria se houvesse protestos nossos durante os Jogos ele disse "Mandaríamos esses rapazes de volta para casa, eles têm muita sorte por os termos permitido estar na equipa". Ele nunca devia ter dito isto porque a partir daí retomámos as nossas reuniões e decidimos avançar com protestos durante os Jogos Olímpicos. Na verdade, nunca conseguimos organizar um protesto uniforme. Havia sempre alguém que discordava, "Não posso usar meias pretas", "não posso usar preto sobre preto", "não posso fazer isto, não posso fazer aquilo". Finalmente acordámos que se conseguíssemos chegar ao pódio ficaríamos lado a lado com o nosso companheiro negro e faríamos as mesmas coisas. Por outras palavras, decidimos protestar por evento [em vez de um protesto único global]. Nos 400 metros, decidimos usar boinas pretas e assim foi. Por outro lado, nos 200 metros, o Tommy tinha luvas na mochila porque pensávamos que o Avery Brundage entregaria as medalhas de ouro a toda a gente. Disse ao Tommy que não queria apertar a mão do Avery Brundage. Vamos arranjar luvas pretas, metemo-las nas cuecas e antes do Avery Brundage nos apertar a mão, vestimos a luva preta e esperamos até ele ter um ataque cardíaco. Por isso eu também tinha duas luvas pretas na minha mochila. Mas, ao contrário do que pensávamos, o Avery Brundage não entregou as medalhas de ouro a todos, essa tarefa foi partilhada por vários dignitários. Só que o Tommy, quando estava à espera de sair para correr, deu uma das luvas ao Carlos. Ele apanhou a outra luva e fizeram a sua acção e eu não vi nada de errado nisso.

Qual foi a tua reacção quando soubeste que lhes retiraram as medalhas e mandaram-nos de volta para casa? Li notícias que diziam que ficaste muito, mas mesmo muito chateado

Claro que sim, afinal eles eram meus colegas de equipa. Fiquei muito perturbado. Quis voltar para casa. Disse que já não correria. Mas o Tommy e o John disseram-me que era melhor eu correr e ganhar. Vieram ao meu quarto e convenceram-me a correr. Eu estava confuso, mas quando me disseram que devia correr isso de alguma forma libertou-me.

Mencionaste que usaste uma boina preta no palanque?

Isso era o nosso protesto. Depois do que fizeram o Tommy e o John, tudo o que mais alguém fizesse seria muito pouco ou nada.

Quando os media te perguntaram por que motivo usaste uma boina preta, respondeste sarcasticamente que era porque estava a chover.

Sim, mas eles sabiam porquê. Sabíamos que a boina preta era um símbolo do Partido das Panteras Negras.

O que achavas dos Panteras Negras na altura?

Pensava que eram rapazes muito corajosos mas não faria o que eles faziam na época. Quase todos os dias tinham um tiroteio com a polícia. Em comparação, a minha tarefa [protestar nos Jogos Olímpicos] era mais fácil. Isto é uma das coisas que aprendi com o Malcom X e o Marthin Luther King. Toda a gente pode desempenhar um papel, mas todos têm que fazer alguma coisa. Costumava dizer aos meus colegas para os convencer a vir às reuniões: "Vai ser fácil para nós. Apenas vamos estar nos Jogos Olímpicos. Conheço alguns tipos em Oakland que andam aos tiros com a polícia. Por isso o que estamos a fazer não se compara ao que eles fazem. Não estamos a pôr a nossa vida em risco". Mas afinal pusemos mesmo as nossas vidas em risco, pois tive cerca de 20 ameaças de morte na Cidade do México. Tínhamos caixas do correio nos Jogos Olímpicos e eu recebia mensagens do Ku Kux Klan e da NRA [Associação dos Defensores do porte de armas] a dizer "Vamos matar-vos a todos, seus pretos". Chegavam a dizer a que horas nos iam matar.

Quais foram as reacções ao teu protesto?

Nesse aspecto não foi muito recompensador, porque os negros achavam que eu não tinha feito o suficiente e os brancos ficaram fulos. Apanhei dos dois lados. A comunidade negra queria que eu tivesse dinamitado o pódio. Seria a única coisa que os teria deixado satisfeitos, porque depois do que fizeram o Tommy e o John, que mais podia eu fazer?

Fizeste algumas coisas inacreditavelmente espantosas desde esse dias em 68. Podes-nos falar da tua experiência como treinador na Nigéria, no Qatar e na Arábia Saudita?

Lembro-me quando era jovem e aprendi por que razão era negro, e por que é que estava numa aula em Fresno, Califórnia. Apercebi-me aí que a minha herança e o meu povo eram ex-escravos e vieram de África. Assim que me apercebi do que pretendia o Jim Crow [legislador segregacionista] e de que os meus ascendentes eram africanos, quis voltar às origens e ir para África. E foi o que fiz. Fui para África em 1975 e trabalhei lá durante 20 anos e tive muita sorte de ter treinado três vencedores de medalhas olímpicas na equipa da Nigéria.

Também treinaste as selecções do Qatar e da Arábia Saudita...

Sim, fui treinador internacional e quando passei os 50, disse à minha mulher que tínhamos que voltar para os EUA, porque não tinha reforma. Por isso estou nos EUA a tentar obter a reforma e depois de o conseguir, o que significa que terei de ficar aqui 10 anos, então volto para África e continuo lá o meu trabalho.

E agora és treinador no South Alabama

Sim, por mais sete anos.

Como tiveste essa experiência em África e no Médio Oriente, gostava de ter perguntar o que pensas das políticas de Bush para essas zonas, a "guerra contra o terrorismo"?

Não concordo com a guerra do Iraque. Sabes, estive nesses sítios todos e o Iraque nunca teve planos desonestos contra os EUA, e acho que todos esses republicanos de direita sabem isso. Eles apenas querem uma guerra para poderem fazer negócio e ganhar dinheiro. É a única razão que me ocorre. Concordo que persigam os terroristas mas o que estão a fazer ao Iraque e aos Árabes é estúpido. É por isso que os países árabes estão contra, precisamente porque sabem que nem o Iraque nem o Saddam constituíam uma ameaça para os EUA . Eles não têm armas de destruição maciça.

Última pergunta: vocês trouxeram a luta pela liberdade dos negros para dentro do desporto. Acham que isso precisa de ser feito outra vez?

Sim, mas infelizmente a malta não está consciencializada. Para os novos atletas é mais uma questão de dinheiro. Acho que o dinheiro lhes polui as mentes. Não estão conscientes do que se está a passar, não querem saber das outras pessoas. Se queremos progredir, isto vai ter que mudar.

Abril de 2004

David Zirin é o editor de notícias do Prince George's Post. O seu e-mail é Este endereço de email está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email

Tradução de Miguel Reis

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