"A Batalha de Praga", de Flausino Torres criar PDF versão para impressão
07-Mai-2008

Estudantes checos discutem com soldados soviéticos durante a invasão de PragaA Primavera de Praga de 1968 foi testemunhada pelo historiador e militante comunista português Flausino Torres, pai do arqueólogo Cláudio Torres, que dava aulas na Universidade Karlova. Horrorizado, Flausino Torres assistiu aos tanques soviéticos esmagando a experiência de um "socialismo sem ditadura; socialismo com democracia, com minorias; socialismo sem censura à imprensa". É um extracto do relato que escreveu na altura, "A Batalha de Praga" que pode ser lido abaixo.

 

Capa do livro Capa do livro Flausino Torres, Documentos e Fragmentos Biográficos de um Intelectual Antifascista, de Paulo Torres Bento27/8/68 - No dia 21, quarta-feira, pelas 7 horas da manhã, entram-nos pela porta dentro três compatriotas - entre eles a Maria [pseudónimo de Mercedes Ferreira]: "Rebentou a guerra! A Checoslováquia foi invadida pelos Sovietes! Às 11 horas da noite de ontem 20, algumas centenas de tanques atravessaram a fronteira: a Polónia, a Hungria, a RDA, a Bulgária, a União Soviética, entraram cada um por seu lado!" Ficámos meio-atordoados! Seria possível? A União Soviética, a Pátria do Socialismo, como era costume chamar-lhe - e como quase oito dias depois certas emissoras facciosas continuavam a chamar-lhe - invadia um país amigo...? Seria crível, depois da Conferência de Bratislava, de que tudo partira satisfeito como pareciam mostrá-lo as imagens da TV? Ficámos todos atordoados; continuámos todos atordoados com o que estávamos ouvindo. Fomos imediatamente para o Centro, onde a batalha rugia. Centenas de tanques rolavam barulhentamente, pesadamente, pelas ruas calcetadas de Praga. Não se viam homens, não se viam soldados, naquela manhã em que atravessámos a cidade de autocarro: tanques, tanques e somente tanques; carros blindados e metralhadoras; canhões compridíssimos dum verde cinzento, tudo num verde cinzento. Os transportes não existiam; eu voltei a casa à tarde a pé: 14 quilómetros.

'Não sei se estou sonhando', dizia um amigo. 'Não cheguei a terminar as férias; estávamos naquela cidadezita de que lhe escrevi; num hotel junto da fronteira da Alemanha Democrática. Tinha levado comigo alguns jornais alemães e russos para me pôr em dia com os acontecimentos e ver o que pensavam os nossos vizinhos acerca dos acordos da conferência. E foi na noite de 20 para 21, lá pelas 12 horas, quando começámos a sentir um barulho estranho, um ruído ensurdecedor. Os empregados logo nos avisaram de que carros e mais carros entraram pela fronteira e atravessavam as ruas da cidade'. E respirava fundo, o meu amigo. Depois continuou, sem parar: 'Decidimos logo vir imediatamente para Praga. E na manhã seguinte metemo-nos ao caminho. E para fugir ao movimento que prevíamos intenso pela estrada fora, pusemos a desviar-nos para as estradas não principais: os tanques rolariam pelas mais largas e em melhor estado. Mas enganámo-nos'. E dizia isto ainda emocionado e com a voz embargada: 'Todas as estradas que tentámos vinham pejadas de uma variedade inumerável de veículos motorizados; e as estradas eram tão estreitas para aqueles mastodontes que por vezes corremos riscos de sermos cilindrados. Por vezes tivemos que descer para a margem da estrada e mesmo para a valeta para dar passagem. E nunca viemos senão com um tanque pela frente e outro por detrás! E isto durante duzentos quilómetros; isto durante 6 horas, tanto quanto durou a viagem. Minha mulher ficou doente, e está ainda doente. Foi ela que conduziu sempre!' (...).

Os carros - tanques e outros - foram assaltados no primeiro dia, somente no primeiro dia, pela juventude - eu vi com os meus olhos, rapazes e raparigas empunhando bandeiras, falando com os pobres soldados, os soldados soviéticos que muito se parecem, na atitude, com os parolitos portugueses (eu imaginava-os de outra forma): explicavam-lhes que a Checoslováquia era um país livre que estava tentando uma nova experiência socialista, uma experiência em novos moldes: socialismo sem ditadura; socialismo com democracia, com minorias; socialismo sem censura à imprensa; socialismo e liberalismo; sobretudo socialismo sem corrupção, sem mentira, sem falsas estatísticas, sem criminosos, sem lançamentos da janela abaixo; sem espionagem interna.

Mas eles, os pobrezitos dos soldados, respondiam: 'Vocês estavam fazendo a contra-revolução!'.

- 'Mas onde vêem vocês a contra-revolução? Onde estão os contra-revolucionários?'.
 

- 'Nossos Dirigentes disseram-nos que lavrava aqui a contra-revolução, é porque é verdade!

É espantoso tudo isto; é esmagadora esta resposta! Tinham recebido educação socialista os que assim falavam?

Na noite desse primeiro dia de ocupação, de 21 para 22, ouviu-se o matraquear das metralhadoras e o estoiro do canhão. Ordem de recolha às 10 horas: 'Cuidado que eles fazem fogo sem prevenir'.

Na manhã seguinte, a entrada de muitas ruas estava tomada; entre elas, aquelas em que estava a Agência de Notícias, a do Correio Central e a da Rádio. Nessa mesma manhã começou o combate pela posse da Rádio, o combate do aço contra os corpos sem armas, sem uma única arma. À noite ainda resistiam, sem dar um tiro para fora. O povo - louco, enfurecido por horas - atacava os tanques; com que armas? Uma ou outra garrafa Molotov! Diz-se que alguns soldados morreram queimados dentro deles. O que se sabe é que começaram a cair os checos. Entre eles um heróizito de 15 anos que foi espatifado junto da estátua que se encontrava ao cimo da Praça Venceslau: nos dias seguintes as calças ensanguentadas do primeiro mártir da liberdade estavam penduradas no pedestal; e de então para diante não acabou a romagem da juventude ao túmulo de flores - simbólico túmulo na base da estátua! - que ali são sempre renovadas. E quem passa vê sempre uma pequena multidão e duas guardas imobilizadas - à maneira checa - de bandeira em punho: emocionante aquele pequeno herói, que passará a ser um "santo" da Liberdade. As lágrimas de homens e mulheres caem sobre as flores.

É incrível que aqueles barbudos, aqueles cabeludos que tinham até aí causado a irritação, a troça, a crítica do homem vulgar entregassem suas vidas pela Pátria com a mesma facilidade com que se negavam a cortar o cabelo: na Praça da Velha Cidade, junto do monumento em que João Huss fala ao povo, foram alguns fuzilados depois de uma troca de palavras que não chegou a meio minuto! Fuzilados como quem atira a coelhos! Soldados socialistas fuzilaram jovens socialistas porque, na sua opinião - na opinião de Breznev - estava-se aqui desenvolvendo a contra-revolução. (...)

Onde os canhões foram mais raivosos foi naqueles 200 metros em frente da Rádio: tanques, canhões, metralhadoras dum lado; árvores, eléctricos, automóveis, pessoas desarmadas, do outro. Dum lado, portas fechadas do edifício e emissões em todas as línguas durante o dia e noite sem descanso; do outro, uma tentativa de domínio que cada vez encontrava menos resistência. Durante horas, algumas casas, no outro lado da rua, ardiam. Eu vi o destroço na altura em que ainda se não podia passar de um lado para o outro da rua mas em que - serenados os ânimos - os checos olhavam silenciosos para aquela parte da cidade. E foi aí que vi pela primeira vez a Cruz Suástica, a cruz hitleriana, desenhada no bidon de gasolina dum carro soviético invasor - um tanque socialista! O símbolo nazi num tanque socialista. E daí em diante várias vezes vi, com os olhos que não queriam acreditar no que viam, a 'foice e o martelo' cruzadas pela cruz suástica! Um jovem, ao escutar o fogo das metralhadoras ao longe, no caminho para Kacherov, perguntava-me: 'Socialismo ou fascismo?'. Um velhote, apontando para um tanque soviético que 'defendia' uma ponte de caminho-de-ferro, junto de Krc, dizia: 'Socialismo, socialismo...'. (...)

Transcrito do livro "Flausino Torres, Documentos e Fragmentos Biográficos de um Intelectual Antifascista", de Paulo Torres Bento editado pela Afrontamento

 

O livro "Diário de Praga" , de Flausino Torres, já foi publicado pela Afrontamento.

 
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