Exposição: 40 anos depois, checos revivem repressão da Primavera de Praga criar PDF versão para impressão
22-Ago-2008
Fotografia da exposiçãoUma selecção de histórias e objectos da colecção de Palach integram a exposição que o Museu Nacional da República Checa inaugurou esta semana. Num "flashback" da invasão, a exposição inclui um tanque de guerra T-54 soviético na frente de um imponente edifício, ainda equipadas com as metralhadoras de 1968.
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A mala preta com dois grampos metálicos podia ser de qualquer pessoa: pentes de plástico coloridos de marfim , uma carteira de couro, uma caneta turquesa de plástico, livros em latim e alemão, uma manta de lã, uma boina negra, outra carteira recheada de documentos.

"Quando se passa por estas coisas sentimos arrepios na espinha", diz a historiadora Marek Junek. Os objectos pertenciam a Jan Palach, estudante checoslovaco com 20 anos de idade, que se imolou pelo fogo para protestar contra a invasão soviética que esmagou a reforma comunista da Primavera de Praga, há 40 anos.

Neste aniversário, checos e eslovacos recordaram o conflito após as tropas do Pacto de Varsóvia invadirem o seu país nas primeiras horas de 21 de Agosto de 1968, matando 108 pessoas numa esmagadora demonstração de força.

Mais de 400 testemunhas partilharam as suas memórias, angustiantes e nostálgicas, com Junek, um curador do Museu Nacional, sentado no topo da Praça Venceslau, em Praga, onde decorreram os sangrentos combates.

Svetluse Zavorova tinha 30 anos e era médica de urgências, com o cabelo moreno e longo do fim dos anos 60. Pelas 7.30 da manhã, apressou-se a tratar os primeiros feridos do edifício da Rádio checoslovaca, um foco de resistência - principalmente por jovens chechoslovacos - contra os tanques soviéticos.

Um soldado soviético bloqueou o seu caminho. "Comecei a gritar em russo que sou médica", escreveu ela sete dias depois, numa carta que está agora em exposição, "e afastei a sua metralhadora".

As balas assobiavam em volta. Nenhuma das pessoas que tratou, vivos ou mortos, tinha mais de 28 anos. "As lágrimas caíam sobre os papéis do trabalho e eu não tinha tempo para os preencher", escreveu.

Frantiska Cokova era condutora do serviço postal de Praga em 1968. Saiu para a rua para convencer os soldados soviéticos que sua missão não tinha fundamento. "Só me diziam que havia uma contra-revolução aqui", escreveu a Junek. "Foi inútil conversar com eles".

As cartas dão uma visão mais humana duma crise que abalou o mundo.

O desafio começou a partir do início de 1968, quando uma nova geração de líderes comunistas impulsionou a reforma de uma economia em declínio e libertou a asfixia do partido sobre a vida civil. Mesmo que os tanques rolassem, os chechoslovacos sentiam-se unidos na luta por uma causa nobre.

"Nunca esquecerei aquele sentimento bonito quando a nação foi encantada pela liberdade", escreveu Cokova. "As pessoas mantinham-se unidas e comportavam-se gentilmente umas com as outras."

Para o aclamado fotógrafo Josef Koudelka, cujas imagens se encontram noutra zona da exposição, aquela unidade foi uma experiência única na vida. "Os ladrões emitiram uma declaração a dizer que não iriam roubar porque os polícias tinham coisas mais importantes para fazer", afirmou numa conferência.

Seguiram-se as represálias e a resistência enfraqueceu. Palach, um idealista, decepcionado estudante de história, foi o primeiro de vários jovens que deu a sua vida para tentar levantar novamente a nação. Ateou fogo em si próprio em 16 de Janeiro de 1969, na Praça Venceslau, e morreu três dias mais tarde, de queimaduras graves, tornando-se um mártir anti-soviético.

No seu escritório cheio de recordações da invasão, Junek abre a mala emprestada ao museu pelo irmão mais velho de Palach, Jiri. Enquanto arrancava as folhas esverdeadas dos cupões de refeição da cafetaria universitária - a de 16 de Janeiro foi a último a ser arrancada - o tempo parecia voar até 40 anos atrás.

Palach fala desde o leito de morte num CD em que a Rádio Checa compilou documentos sonoros recolhidos a partir de 1968. "Um homem deve lutar contra o mal que possa enfrentar no momento. E que aparentemente ainda não é possível", diz ele.

Tardaram mais duas décadas até à chegada da democracia à Checoslováquia, na Revolução de Veludo de 1989, e os soldados soviéticos partiram.

19 de Agosto de 2008

Tradução de João Romão

 
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