O estranho segredo do «envelope 9» criar PDF versão para impressão
06-Out-2006

João Teixeira LopesQue há formas distintas de fazer política, sabemo-lo bem. Que essas diferenças radicam, bem fundo, em concepções do mundo, da ética e das relações humanas também não constitui novidade. Que o Bloco de Esquerda nasceu para romper com a hegemonia dessas práticas, é algo que todos os dias reafirmamos no ideário e na acção.
O segredo, para nós, é a antítese da política moderna. Os golpes palacianos apenas contribuem para a desconfiança e a distância que cidadãos e cidadãs sentem face ao poder (e Portugal é, precisamente, segundo os estudos do European Social Survey um dos países da Europa a 25 onde tal distância se faz sentir de forma mais aguda).

Ora, a posição que o PS tomou a propósito da proposta do Grupo Parlamentar do BE para a constituição de uma comissão de inquérito parlamentar ao caso do «envelope 9» é um brinco de hipocrisia política.

O PS, recorde-se, juntamente com o PSD (como estão amarrados, no essencial, os dois companheiros do Bloco Central que nos (des)governa!), votou contra tal proposta, ao mesmo tempo que desferia duros golpes verbais na pessoa de Souto Moura, o cessante Procurador-Geral da República. Haverá pior maneira de fazer política? O BE, uma vez mais reafirma, foi o único partido a pedir a demissão do antigo Procurador-Geral. Mas por questões que ultrapassam - e muito - o foro pessoal.

De nada nos serve o medíocre gosto de uma pequena vingança verbal se o essencial permanece oculto. E o essencial, relembre-se, passa por questões como: quem ordenou e com que objectivos as escutas telefónicas?; como é possível que a PT ceda uma lista de 80 mil números de telefone, incluindo o do Presidente da República?; qual a relação e relevância de todos estes procedimentos face ao processo Casa Pia?; por que razão o bode expiatório foi o mensageiro, neste caso o jornal 24 horas?

Estas e outras questões são o cerne do problema. E o espaço público parlamentar é o lugar próprio para serem averiguadas e discutidas. Caso contrário, somar-se-á mais um segredo ao extenso rol de impunidades e crimes por averiguar da nossa democracia de trinta anos, segredos, crimes e impunidades que mais não são do que firmes alicerces dos poderes que nos governam, tantas vezes sem controlo democrático e à margem da lei que é suposto servirem.

PS: Cavaco Silva dedicou o seu discurso do 5 de Outubro ao combate contra a corrupção. Não nos esqueçamos nunca quão florescente ela foi durante os Governos do actual Presidente da República...

 
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