Socialismo 2008: o mercado, a propriedade e o jazz criar PDF versão para impressão
01-Set-2008
Celso Cruzeiro participou no Socialismo 2008 e defendeu o aprofundamento da análise crítica do capitalismo actual. Foto André BejaNo segundo dia do "Socialismo 2008", Celso Cruzeiro defendeu a necessidade de pensar o marxismo à luz da ciência que existe hoje e José Castro Caldas recuou às referências fundadoras do liberalismo para discutir a propriedade privada, assunto banido dos cursos de economia em Portugal. As influências socialistas na história do jazz foi outro dos temas deste fórum de ideias, no debate conduzido por José Carlos Santos.

 

"Esquerda Política: Sair da Encruzilhada" foi o mote para Celso Cruzeiro apresentar uma parte das ideias expostas num livro a sair brevemente. O advogado chamou a atenção para a necessidade da esquerda compreender as implicações do predomínio do capital financeiro sobre a economia produtiva, para poder combater o discurso dos neoliberais de hoje.

Cruzeiro acusa a "terceira via" de Giddens de ser um "ajoelhamento face ao neoliberalismo" e defendeu o recuo da economia de mercado "à sua função de troca económica que teve tradicionalmente, antes de comandar a estrutura social e política da vida das pessoas". "A economia de mercado leva à sociedade de mercado, e aqui estou em desacordo com os socialistas", acrescentou. Celso Cruzeiro fez ainda questão de assinalar a importância crescente dum terceiro sector na economia mundial (formado por cooperativas de produção, consumo e crédito, associações mutualistas, etc.), que "deve ser bem estudada e analisada pela esquerda", concluiu.

Noutra das sessões da manhã de domingo, o convidado foi José Carlos Santos, director do festival Braga Jazz e divulgador deste género musical. A apresentação percorreu a história do jazz e dos movimentos e artistas que promoveram rupturas e se tornaram no ponto de encontro para experiências de organização e produção de música e espectáculos alternativas ao mercado.

A ligação entre o nascimento do movimento free-jazz nos anos 60 e o movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos, o romper com a cultura instalada da competição e individualismo nas formações das bandas em prol da constituição de novos colectivos identificados com a cultura do free-jazz, a presença espiritual de África na estética das bandas e concertos, e as histórias concretas de alguns projectos musicais, foram alguns dos caminhos comuns do jazz e socialismo apresentados por José Carlos Santos, que lembrou a influência deste movimento em França e em Portugal, após a Revolução.

Na tarde de domingo, uma das sessões mais concorridas do Socialismo 2008 procurava resposta para a questão "A propriedade é ou não um roubo?". O economista e investigador José Castro Caldas mostrou a forma como a legitimação da propriedade privada pela sociedade se fez ao longo dos séculos. Mas focou em especial o contributo de algumas figuras inspiradoras do liberalismo como John Locke e John Stuart Mill, para provar que as suas ideias sobre o uso e  restrições à propriedade privada nada têm a ver com o que defendem os liberais de hoje.

Mas se a propriedade privada é apresentada pelos liberais de hoje como um "direito de uso exclusivo e irrestrito", e José Castro Caldas constatou que "a discussão sobre a propriedade privada está afastada dos programas nos cursos de economia das universidades portuguesas". Opondo-se à cristalização do debate entre dois modelos "puros" de público e privado, o economista e blogger no "Ladrões de Bicicletas" defendeu que "a propriedade é uma paleta de cores, dependendo das instituições que a enquadram".

E assim procurou dar resposta à questão que desafiou o debate: tudo dependerá do tipo de propriedade e do efeito que provoca na sociedade onde se insere. Os prédios degradados nas zonas urbanas serviram de exemplo para ilustrar a necessidade de políticas firmes em defesa do bem comum sobre o dogma da propriedade privada. E para isso, provou Castro Caldas, os clássicos do liberalismo até dão uma ajuda.

 
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