Mercado europeu de educação em debate no Socialismo 2008 criar PDF versão para impressão
19-Ago-2008
“Universidade Pública: morta em 2010 pelo banco Santander”, protesto dos estudantes espanhóis contra o processo de Bolonha"Processo de Bolonha e o mercado europeu de ensino" é o tema da conferência de Fátima Antunes, mestre em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia da Universidade do Porto, no Fórum de Ideias Socialismo 2008. Para onde caminha a educação no espaço europeu? Será possível resistir à mercadorização do conhecimento? Como potenciar o intercâmbio cultural entre estudantes e professores no espaço europeu? Estas são algumas das polémicas lançadas pela conferencista.  

O Esquerda.net disponibiliza um curto excerto do texto que servirá de base à intervenção de Fátima Antunes no Fórum de Ideias Socialismo 2008:

"Para o ensino superior, a adopção de um sistema de graus em três ciclos (3+2+3 anos de estudos) favorece a generalização e expansão de um 1º ciclo profissionalizante, mas torna mais cara e selectiva a frequência do 2º ciclo. Novamente, as implicações podem bem ser ambivalentes: ampliação do acesso à educação e aos diplomas de ensino superior acompanhada da restrição, designadamente económica, do acesso ao seu prolongamento.

Implementa-se, assim, um quadro de regulação dos sistemas de ensino e formação profissional e do ensino superior mais próximo da forma de regulação dos mercados, com o Estado a delegar a intervenção directa nos sistemas em entidades independentes (no sentido de que não financiam, nem fornecem eles próprios os serviços que regulam) como as agências de garantia de qualidade e de acreditação.

Por esta via o sistema de educação, nos dois sectores em questão, aproxima-se do processo de produção e distribuição de um qualquer outro bem de consumo e distancia-se de um sistema que garante um direito humano e social básico e um bem individual e colectivo envolvido com a formação, coesão e desenvolvimento das comunidades humanas.

Ora, os processos de Bolonha e Copenhaga e os instrumentos técnico-políticos que têm produzido (o Quadro Europeu de Qualificações; o sistema de graus do ensino superior em 3 ciclos, os sistemas de transferência de créditos, de garantia de qualidade e de acreditação, o Europass, um registo individual de qualificações e competências) têm como horizonte a mobilidade dos indivíduos, a flexibilidade dos seus percursos e a conectividade e interactividade das instituições e contextos de aprendizagem, numa palavra, a intensificação das trocas à volta da educação. Para além do tipo de instrumentos técnico-políticos e instituições que se desenvolvem serem orientados para a criação de relações de troca mercantis à volta da educação, a padronização que a acompanha é ela mesma indicativa da preponderância da preparação de trocas comerciais em desfavor das de natureza cultural: estas alimentam-se das diferenças e complementaridades enquanto as de natureza comercial necessitam de parâmetros comuns que consolidem uma espécie de moeda que possa circular e ser acumulada: é a forma comercial de conhecimento, sob a forma de bits de informação, que desliza pelo indivíduo sem chegar a afectá-lo e a que é atribuído um valor performativo (o que se é capaz de fazer?) mais do que formativo (o que é que esse conhecimento ‘faz' ao sujeito?).

No entanto, a dimensão cosmopolita destes processos, sobretudo o de Bolonha e para o ensino superior, está presente e tem sido aproveitada por estudantes e instituições para intensificarem trocas culturais, às vezes no quadro de projectos individuais e/ou institucionais, como ocorre com o programa Erasmus. Julgo que esta dimensão do EEE como espaço cosmopolita, ainda que menorizada, representa um interessante campo de acção a ser investido e seguido com atenção por todos aqueles que pensam a UE e a Europa como espaço de diálogo cultural e activismo social. Tenho aliás a convicção de que não temos - eu incluída, bem como as instituições a que estou ligada - aproveitado tanto quanto seria possível e desejável os programas, os projectos, as redes, as linhas de intervenção e investigação disponíveis na UE e na Europa, para construir laços e redes de investigação, ensino e acção. E este não é um efeito menor do atordoamento e alienação em que vamos vivendo quotidianos esmagados por tarefas institucionais cada vez em maior número e mais absorventes."

O Socialismo 2008 é um Fórum de Ideias de iniciativa do Bloco de Esquerda que se realiza no Porto, entre os dias 29 e 31 de Agosto. Saiba mais no blogue do Socialismo 2008.

 
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