Identidade, Arte e quotidiano criar PDF versão para impressão
09-Set-2008
As questões da Cultura e da Arte marcaram presença no Socialismo 2008No Fórum de Ideias Socialismo 2008, Catarina Martins, actriz e encenadora, apresentou o tema "Construir o impossível - Identidade, Arte e quotidiano". Como ponto de partida para a sua intervenção, assinalou um estudo recente que revela a preocupante falta de hábitos culturais dos portugueses: 90% não tinha visto ópera, ballet ou dança, 81% não tinha ido uma única vez ao teatro, 76% não assistira a qualquer concerto, ou visitara qualquer museu ou galeria, 75% não tinha entrado numa biblioteca.  

Texto de Catarina Martins: 

Há cerca de um ano - em Setembro de 2007 - foi divulgado pela Comissão Europeia um Eurobarómetro especial sobre os valores culturais da Europa. Esse estudo revelou dados preocupantes sobre Portugal. Mas teve algum efeito?

Mais de metade dos Europeus considera a Europa como "o continente da cultura". Os portugueses são dos mais entusiastas desta definição da Europa: não só 82% dos inquiridos consideram a Europa como o continente da cultura como 80% consideram que a sua grande riqueza se deve à sua diversidade. E 74% consideram a cultura importante para a sua vida.

A cultura é algo de muito vasto, mas parece indubitavelmente ligada à arte: 25% quando pensa em cultura pensa em artes performativas e visuais, literatura, educação e ciência (respostas como civilização, modo de vida, tempos livres, crenças ou valores foram dadas por menos de 15% dos inquiridos portugueses).

Paradoxalmente, nos 12 meses que antecederam o inquérito, 90% não tinha visto ópera, ballet ou dança, 81% não tinha ido uma única vez ao teatro, 76% não assistira a qualquer concerto, ou visitara qualquer museu ou galeria, 75% não tinha entrado numa biblioteca. E 73% dos inquiridos portugueses declararam ainda não ter participado em qualquer tipo de organização, associação ou grupo informal em que pudesse tocar um instrumento, cantar, dançar, escrever, pintar, esculpir, fotografar, filmar, ou mesmo fazer qualquer tipo de artesanato, decoração, jardinagem, etc...

Quando inquiridos sobre os obstáculos no acesso e participação em actividades culturais, as respostas dividem-se: falta de interesse, falta de tempo, falta de dinheiro, falta de informação. Que faltas são estas? Que perguntas temos de fazer à nossa "vida cultural"?

A programação cultural tem ou não interesse para as pessoas que é suposto servir? Consegue atraí-las de alguma forma? É tão diversificada, cultural, social e geracionalmente, como a população portuguesa? Existe formação de públicos? O que é um serviço educativo? Para que servem os programadores?

Qual é a importância das instituições culturais no desenho das nossas cidades? Os equipamentos culturais são fáceis de encontrar? São bem servidos por transportes públicos? Qual é a sua visibilidade, e a da sua programação, na vida quotidiana?

E quem paga a arte? Pode ser sem custos para o utilizador? Ou só para alguns? Ou só nalguns dias? Quão fácil é saber em que dia se pode ir ao museu mais perto de casa sem pagar? Ou se uma família pode ir ao teatro a preços reduzidos? Quanto tempo é preciso gastar para se perceber como aceder a arte sem gastar muito?

E quando um evento cultural bate records de público? Ficamos tão contentes que o quotidiano deixa de ser um problema?

                                                                                                         I

A programação cultural tem ou não interesse para as pessoas que é suposto servir? Consegue atraí-las de alguma forma? É tão diversificada, cultural, social e geracionalmente, como a população portuguesa? Existe formação de públicos? O que é um serviço educativo? Para que servem os programadores?

A realidade não é uniforme e as generalizações não são aconselháveis. Ainda assim, arrisco:

1. De uma maneira geral a programação cultural é muito compartimentada. Criação contemporânea e património, erudito e popular, amador e profissional raramente se cruzam num mesmo palco, num mesmo espaço. Impera a ideia de público-alvo sem mobilidade. E a ideia de identidade do espaço ou da programação como um bem em si mesmo e que se define pelo monocromatismo. Espartilhados os espaços servem grupos muito específicos e poucas são as pessoas que os sentem como seus - condição primeira para os quererem ocupar como público.

Acredito sinceramente que as experiências bem sucedidas de criação e formação de público local (os habitantes da localidade onde está o equipamento têm de ser o primeiro público-alvo da sua programação) se devem a uma oferta muito diversificada que dá a todos razões para se sentirem donos do espaço: porque foi lá que se viu o espectáculo sobre a sua rua e aquele do actor conhecido, porque no mesmo mês se pode ver dança contemporânea e assistir à comemoração do centenário da banda filarmónica da terra, porque na sala ao lado da exposição com o quadro da prima estava a acontecer um concerto de música electrónica,...

2. A fruição da arte pressupõe a partilha de determinados códigos. Códigos culturais, uns mais universais do que outros, e que se podem aprender. Quantos mais códigos aprendemos, maior é a diversidade artística de que podemos usufruir. Mas para aprender um código é preciso algum ponto de apoio. Pessoas com origens culturais diversas precisam de pontos de apoio diversos.

O monocromatismo das programações não permite a partilha de códigos. E assim, independentemente do universalismo da criação, temos espectáculos, exposições, instalações, ou o que for, só para crianças, só para adultos, só para adolescentes, só para idosos, só para nascidos num canto da Europa, só para nascidos num outro canto, só para os que têm ligações a um pedaço de um outro continente, só para quem tem suspensórios às riscas, só para quem usa chapéu com abas...

3. A programação cultural não é criação artística. A programação é uma ponte entre a criação e o público. É, assim, um serviço público. E deste serviço público se espera que proporcione às pessoas que serve o contacto com a criação artística do seu tempo e do que a precedeu e com a criação artística local e do mundo na sua diversidade (o local, tal com o o mundo, é diverso). E que promova os mecanismos necessários para que o público que serve tenha as ferramentas - os códigos - para usufruir da oferta. Este é um serviço que ao cumprir-se serve o interesse público de construir a cada dia a identidade cultural local. É a partir do local que se constrói o global (pelo menos o global que tem que ver com a vida das pessoas - que é diverso e gosta de o ser).

Infelizmente muitas vezes confunde-se o serviço público de programar com lógicas internas de sobrevivência de instituições ou competição de visibilidade entre equipamentos ou cidades. E depois acontecem coisas terríveis: serviços educativos que são meros angariadores de público escolar, equipamentos municipais que os munícipes não conhecem, programadores que desconhecem o que os rodeia e inventam ciclos temáticos e outros que tais que impõem, com a chantagem dos meios, aos criadores, desvirtualizando assim completamente o serviço público que é suposto servirem.

(Sobre os programadores, a adaptação às artes do palco da figura do comissário das artes visuais, devo dizer que não estou convencida da sua utilidade. Acredito que a programação artística deve ser feita por artistas. Pelo menos nas artes do palco, o trabalho pluridisciplinar e em equipa dá aos artistas armas mais do que suficientes para cumprir a tarefa. É claro que nem todos os artistas serão capazes de programar. Como nem todos os professores serão capazes de gerir escolas. Ou médicos os hospitais. Mas, podendo e devendo trabalhar em equipas com valências várias, são estes, cada um na sua área, os melhores garantes de que o secundário não subalterniza o essencial.)

                                                                                                                    II

Qual é a importância das instituições culturais no desenho das nossas cidades? Os equipamentos culturais são fáceis de encontrar? São bem servidos por transportes públicos? Qual é a sua visibilidade, e a da sua programação, na vida quotidiana?

A cultura, e as artes, têm vindo a ganhar espaço no discurso político (o que, não é demais lembrar, não tem tido qualquer correspondência na importância dada à cultura, e às artes, nas políticas e orçamentos). Não há eleição autárquica em que não se fale da importância da cultura, e das artes - mesmo que, como no caso bizarro do Porto, seja para hostilizar as instituições culturais existentes - e, periodicamente, são divulgam estudos e relatórios, europeus e nacionais, sobre a importância da cultura na economia e desenvolvimento das cidades. Tudo isto poder-nos-ia levar a acreditar que os equipamentos culturais assumem um papel central na vida das cidades. Mas não é assim.

Inexplicavelmente, na grande maioria das cidades, encontrar um teatro municipal é tarefa árdua. Nas circulares e vias rápidas que cercam as nossas cidades é usual encontrar placas com a indicação "centro comercial", mas "centro cultural" nem por isso. E uma vez encontrado o teatro também não é certo que se perceba a sua programação; nem sempre há informação na fachada, nem sempre está aberto, nem sempre se percebe muito bem onde é a porta...

Também inexplicavelmente encontramos nas nossas caixas de correio informação sobre todas as promoções das superfícies comerciais mas nenhuma sobre a programação dos eventos culturais. Poder-se-á dizer que isso acontece porque as superfícies comerciais têm uma capacidade de investimento em publicidade que os equipamentos - ou/e as cidades - não têm, mas dificilmente se pode aceitar, acreditando nos discursos e nos estudos, que este seja um problema inultrapassável. O que dizer , por exemplo, das autarquias que encontram recursos para distribuir gratuitamente revistas luxuosas que tudo dizem sobre as iniciativas do sr. presidente e nada sobre a programação dos equipamentos culturais?

As redes de transportes públicos também não ajudam; são normalmente planeadas numa lógica pendular casa/trabalho que exclui a fruição artística. E por isso não são raros os casos em que uma sala de espectáculos não é servida por nenhum transporte público à hora em que os espectáculos terminam. E por isso é raro encontrar na rede de transportes públicos indicações e ligações a equipamentos culturais. Tanto em Lisboa como no Porto há estações de metro ligadas directamente a centros comerciais mas quem está na estação dos Aliados no Porto não tem qualquer indicação que o teatro Rivoli - que já foi municipal e espere-se volte a ser - é logo ali ao lado.

É essencial pôr a vida cultural da cidade no quotidiano dos seus habitantes para que esta seja viva e vivida. Antes de depositar o dinheiro no banco X vi o seu nome em todos os outdoors da paragem de autocarro e vi os seus produtos financeiros anunciados em todas as suas montras. Antes de entrar na sala de espectáculos também preciso de ver o seu nome todos os dias, de passar todos os dias pelas placas que me asseguram que o encontro facilmente, de ver a sua programação e pensar muitas vezes "gostava de ver aquilo". É preciso que faça parte da minha vida mesmo antes de lá entrar. As necessidades, como todos sabemos, criam-se.

                                                                                                           III

E quem paga a arte? Pode ser sem custos para o utilizador? Ou só para alguns? Ou só nalguns dias? Quão fácil é saber em que dia se pode ir ao museu mais perto de casa sem pagar? Ou se uma família pode ir ao teatro a preços reduzidos? Quanto tempo é preciso gastar para se perceber como aceder a arte sem gastar muito?

Pensemos num casal com dois filhos menores em que os dois trabalham e ganham, cada um, um salário 840 euros mensais. São uma família normal, com salário médio, que paga impostos, casa, carro, seguros. E depois de pagarem as contas todas ficam com 600 euros para roupa, comida, escola, desporto, arte. Se forem os 4 uma vez por mês ver um espectáculo gastam 50 euros em bilhetes; mais de 8% do orçamento disponível para todo o mês. Se os filhos frequentarem aulas de uma qualquer disciplina artística (o que, regra geral, obriga a recorrer a instituições privadas), gastam em arte mais 100 euros por mês; quase 17% do orçamento disponível. É normal exigir a uma família com este tipo de rendimentos - o rendimento médio em Portugal - que, para ter direito a alguma participação na vida cultural do seu país, gaste um quarto do seu orçamento disponível?

É claro que este é um tema directamente relacionado com os paradigmas de educação artística e de financiamento das artes. Mas, seguindo o raciocínio dos gestos quotidianos e acreditando que não há já dúvidas sobre a importância do acesso à arte e da importância da participação na vida cultural, que mecanismos existem para facilitar o acesso à arte gratuito ou a preços reduzidos?

Os museus têm dias e/ou horários de acesso gratuito e muitas salas de espectáculo têm bilhetes mais baratos para grupos ou famílias. São programas tímidos demais, é certo. Mas, alguém sabe dizer exactamente quando e como é que isso funciona? Onde está anunciado?

Claro que uma pessoa esforçada, que navegue pelos sites todos, leia todos os programas e vá às bilheteiras perguntar, acaba por descobrir. Mas será normal? Uma pessoa que trabalha oito horas por dia, cuida dos filhos, trata das inevitáveis tarefas da casa, deveria saber quando ir ver uma exposição ou um espectáculo, por um preço que possa pagar, sem ter de perder horas a procurar. Ou mesmo, saber que no dia tal tem acesso livre e por isso planear ir, nunca o fazer, e, finalmente, num mês que até correu bem, ir num dia normal e pagar o seu bilhete. Porque o desejo alimenta-se.

                                                                                                    IV

E quando um evento cultural bate records de público? Ficamos tão contentes que o quotidiano deixa de ser um problema?

Nos últimos tempos têm-se multiplicado os eventos de sucesso. Enchentes em concertos, exposições noite dentro, records de público que caem uns após os outros. Como se de um concurso se tratasse.

E quando olhamos os números de sucesso podemos ver 100.000, 200.000 pessoas - 1 ou 2% dos habitantes de Portugal. Não é pouco? E será que cada evento teve os seus 1% ou há 1% que vai a tudo? Será que vieram pessoas doutros países?

Os eventos de sucesso não deixam de o ser por não poderem receber toda a população. São sucessos, pois claro. Mas o que é preciso compreender é que a vida cultural do país não se faz de eventos. Constrói-se quotidianamente.

Voltando ao início, 2006 e 2007 também tiveram eventos de sucesso. E mais de 75% dos portugueses não tinha assistido a qualquer espectáculo ou visto qualquer exposição. Quando é que os números e estudos começam a ter efeitos práticos?

Catarina Martins, 30 de Agosto de 2008

[publicado também em http://argolas.blogspot.com]

 

 
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