Tudo calmo na frente de Gaza criar PDF versão para impressão
29-Jun-2008
Uri AvneryE de repente, silêncio. Nenhum Qassam. Nada de morteiros. Nenhum tanque nas ruas. Nenhum bombardeiro nos céus.
Em Sderot, há suspiros de alívio. As crianças começam a voltar às calçadas. Os que se protegeram noutras cidades voltam para casa.
E a reacção? Nenhum júbilo? Nenhuma festa? Ninguém dança nas ruas? Ninguém comemora que o primeiro-ministro e o ministro da Defesa de Israel tenham afinal recobrado o bom-senso?

Nada. Absolutamente nada. Nos rostos, em Israel, só se vê uma careta de frustração e desgosto. O que é isto? Que fim levou o invencível exército de Israel?

Em Sderot, os moradores estão, sim, muito irritados. OK, acabaram-se os foguetes Qassams. Mas... e por que o exército de Israel ainda não entrou em Gaza e varreu do mundo a cidade?

O jornal Haaretz publicou uma mentira, na manchete de primeira página: "Israel oferece acções em troca de promessas".

"A trégua é frágil", Ehud Olmert rosna, "pode acabar a qualquer momento." E o outro Ehud, o Barak, que foi pressionado a aceitar o cessar-fogo, pensa em desculpas: temos de fazer o que estamos a fazer, antes de iniciar a Grande Operação em Gaza. Temos de pensar na opinião pública israelita e internacional.

Facto é que, até agora, ninguém disse "Graças a Deus! A matança parou!"

Porquê? O que está a provocar esta reacção de desapontamento quase unânime? Por que a trégua provoca em Israel uma impressão de humilhação, de quase derrota?

Porque o ego israelita está ferido. Quão maravilhoso teria sido que o exército de Israel invadisse Gaza e destruísse o Hamas - além da cidade inteira! Mas, em vez de uma vitória arrasadora, temos algo que cheira a retirada. E, isto, apesar do que dizem os que ainda esperam ocupar a qualquer momento a Faixa de Gaza; que ainda dizem que a qualquer instante, com mais um pouco de sítio e fome, a população entregará os pontos e rebelar-se-á contra o Hamas.

Do ponto de vista militar, um ano de guerra na Faixa de Gaza acabou em empate: exército de Israel versus Hamas foi 1 x 1. Mas o exército de Israel e o Hamas não são equipas comparáveis, não jogam na mesma liga. O Hamas é um movimento político-religioso armado, que o jargão ocidentalizante descreve como "organização terrorista". Quando um movimento como o Hamas consegue um empate contra um dos mais poderosos exércitos do planeta... é claro que pode comemorar uma vitória. É uma vitória.

O objectivo da guerra de Olmert era derrubar o governo do Hamas na Faixa de Gaza e destruir a organização. Não conseguiu. Ao contrário: segundo relatórios actualizados, o Hamas está mais forte do que nunca e mantém controle total sobre a Faixa. Todos sabem disto, até em Israel.

Por um ano, o governo de Israel manteve a Faixa de Gaza sob bloqueio total, por terra, por mar e por ar. Recebeu o apoio inqualificável da Europa, que ajudou Israel a torturar, pela fome, pela sede e pelo frio, uma população de 1,5 milhão de homens, mulheres, crianças, velhos e doentes. E os EUA, é claro, foram parceiros nessa empreitada sem glória. Hosni Mubarak, do Egito, dependente dos EUA, também colaborou, talvez contra sua vontade. Mas colaborou.

Pois nem todos estes bastaram para derrotar e submeter a multidão pobre que resiste em Gaza, uma estreita faixa de terra de 35 km de comprimento por 10 km de largura. Os foguetes não pararam. Ao contrário: aprimoraram-se, ganharam alcance. Fizeram poucas vítimas, qualquer criança sabe contar aquelas poucas vítimas. Mas tiveram impacto imenso, porque mantiveram alta a moral dos palestinianos.

O exército de Israel foi contido e rechaçado por aquele tipo primitivo de armamento, feito em casa, baratíssimo. E o exército de Israel matava a grosso e a retalho, em terra e por ar, com mísseis, tanques, armas de infantaria. E nada conseguiu.

O Hamas resistiu e sobreviveu, embora, sim, tampouco tenha conseguido alcançar o seu objectivo. O bloqueio continuou. Só a pressão da opinião pública internacional (e o trabalho das forças da paz em Israel) evitaram a fome mais total; mas ainda falta tudo, na Faixa de Gaza. O desemprego cresce, a desnutrição - em muitos casos a fome - ainda faz muitas vítimas.

Assim são os empates: nenhum dos dois lados consegue forçar uma decisão e impor o seu desejo ao oponente.

O cessar-fogo só acontece quando interessa aos dois lados. (Sim, é verdade que Carl von Clausewitz, militar e filósofo prussiano, disse que, na guerra, nenhuma situação pode beneficiar igualmente os dois lados ao mesmo tempo; que o que é bom para uns é necessariamente mau para outros. Mas nas guerras reais as coisas não são bem assim.)

A verdade é que o exército de Israel precisava do cessar-fogo tanto quanto o Hamas; estava bem claro, nos comentários dos "correspondentes militares" que, quase todos, são mal disfarçados porta-vozes do Exército. Se o exército se posicionasse contra, nenhum dos membros do Gabinete jamais aceitaria o cessar-fogo.

O exército sempre quer mais acção, mais uma operação, mais uma guerra. Os falcões ter-se-iam convertido em pombas? Não, claro que não. Aconteceu apenas que os comandantes militares israelitas sabem que só tinham duas escolhas, cada uma ‘pior' que a outra: ou o cessar-fogo, ou a "Grande Operação" para reconquistar toda a Faixa de Gaza.

Os comandantes militares não gostam da primeira escolha - e isto é óbvio. Aceitar um cessar-fogo, no caso deles, é admitir a derrota. Mas os comandantes militares gostam muito menos, muito, da segunda escolha. Esta eles não querem. Não. Não querem, de modo algum.

A Grande Operação - pela qual em boa parte clama a opinião pública israelita, e que a imprensa exige em altos brados - é muito mais problemática do que parece. O Hamas teve muito tempo para se preparar e está preparado para enfrentá-la. Não há exército regular que não tema combater contra uma população resistente, em área urbana e populosa. Cada esquina, cada porta, esconde um perigo. Cada homem, cada mulher é uma bomba potencial. Ainda que o exército israelita conseguisse avançar e ocupar a Faixa de Gaza, com número de baixas que se pudesse considerar ‘tolerável', a ocupação seria apenas o início das dificuldades. Não passaria um dia sem soldados mortos. A matança seria diária e sem fim. Quem duvidar veja o que está a acontecer hoje no Iraque.

A opinião pública é volátil e caprichosa. Cada foto de soldado israelita morto que a televisão exiba fará aumentar a pressão pela retirada. Mais cedo ou mais tarde o exército será obrigado a sair de Gaza - e a situação reverterá. E voltaremos à situação de hoje, bastante piorada.

Os chefes militares israelitas sabem disto. Olmert e Barak também sabem. Ainda não esqueceram a lição que aprenderam na II Guerra do Líbano. Eles não querem guerra.

O cessar-fogo tem implicações políticas de longo alcance. Muda o mapa da Palestina - e talvez mude todo o mapa da região.

Podem continuar a reclamar, de hoje até o Juízo Final; subam ao telhado e gritem que "não negociaremos com o Hamas" e "não faremos acordos com o Hamas"; e de nada adiantará. Qualquer criança em Israel já sabe que Israel tem de negociar com o Hamas e que, de fato, Israel já está a negociar com o Hamas.

Já há um acordo entre o governo de Israel e as autoridades de Gaza. O governo do Hamas já está reconhecido de facto. Em Gaza até as crianças já entenderam que o governo de Israel foi obrigado a negociar, porque não conseguiu, pela força, derrotar o Hamas.

Aos olhos dos palestinianos, o quadro é claro: Mahmoud Abbas nada obteve dos israelitas, em Ramallah. O Hamas obteve o que quis.

Abbas tentou a via pacífica. É o queridinho de norte-americanos e israelitas. Mas, desde o fiasco em Annapolis, Abbas não consegue arrancar qualquer concessão importante; não libertou um único prisioneiro. Pior: todas as noites os israelitas fazem novos prisioneiros; os colonatos só fazem aumentar e o governo de Israel anuncia novos prédios em Jerusalém Leste e em toda a Cisjordânia. E o governo de Israel nem pensa em considerar, que fosse, qualquer acordo de cessar-fogo na Cisjordânia.

Enquanto isto, o Hamas, sob fogo da imprensa em todo o mundo, perdendo soldados todos os dias, obteve uma importante vitória militar e política: artigos de primeira necessidade voltam a chegar à Faixa de Gaza, os carros voltam a poder circular pelas estradas, a passagem de Rafah - que separava a Faixa e o resto do mundo - será reaberta. Na próxima troca de prisioneiros, serão libertados centenas de prisioneiros palestinianos em troca de Gilad Shalit, o soldado israelita capturado.

Conclusão? Que cada um pergunte a si mesmo: se eu fosse palestiniano, a que conclusão chegaria?

O cessar-fogo afecta o equilíbrio do poder também entre os palestinianos. O Hamas provou que sabe e pode organizar e manter um governo. Agora, o Hamas está a provar que sabe e pode controlar também as organizações radicais.

A solução mais inteligente, para Mahmoud Abbas, é organizar um governo de unidade - que reúna o Hamas e a Fatah.

O cessar-fogo será duradouro? Dizem os correspondentes que ninguém espera que seja.

Olmert diz que o cessar-fogo é frágil e sabe do que fala.

Não há acordo escrito. Não se definiu qualquer mecanismo judicial para conciliar disputas que surjam. Não há árbitro que decida, sendo necessário, sobre quem responsabilizar no caso de o cessar-fogo ser violado.

Se alguém em Israel quiser violar o cessar-fogo, nada mais fácil: um soldado de fronteira que abra fogo contra palestinianos junto ao muro, porque desconfia de bomba; um helicóptero espião que desconfie de alguma coisa e lance um míssil. O chefe da inteligência do exército reclama que há contrabando de armas para a Faixa de Gaza.

E há também outros riscos. O exército mata meia dúzia de militantes da Jihad Islâmica na Cisjordânia. E a organização responde com uma salva de Qassams em Sderot. O exército declara que o cessar-fogo foi violado e responde com uma incursão na Faixa de Gaza. Nem estará formalmente errado... porque o cessar-fogo não inclui a Cisjordânia.

Um acordo só vale na medida em que os dois lados entendam que lhes interessa respeitar e fazer valer o acordo. Se um dos lados vacila, este lado quebrará o acordo (e usará, como pretexto, qualquer acto anterior do outro lado). Neste caso, Israel é ameaça maior, de facto, a todo o cessar-fogo.

O cessar-fogo não é a paz (salam). Não é sequer um armistício nem é a trégua (hudnah). É apenas um acordo entre combatentes, para suspender os tiros, por algum tempo.

É da natureza das coisas que cada lado use o cessar-fogo para preparar-se para o próximo round da luta. Para respirar fundo, para descansar, para treinar, para organizar-se, para rearmar-se com armas mais avançadas.

Mas o cessar-fogo pode ser mais do que isto. Pode levar à unidade na Palestina, pode ajudar Israel a repensar-se, pode ser passo importante na construção da paz. No mínimo, um dia de cessar-fogo é um dia sem mortos.

E, só até aqui, os dicionários de hebraico e de todas as línguas do mundo já aprenderam mais uma palavra árabe: Tahdiyeh. Calma.

Uri Avnery, 22/6/2008, "All Quiet on the Gaza Front", na internet, na página de Gush Shalom [Grupo de Paz], em http://zope.gush-shalom.org/home/en/channels/avnery/1213478639/

Tradução do blogue do Bourdoukan, adaptado para português de Portugal por Carlos Santos

 
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