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02-Jul-2008
Alice BritoGoebbels dizia que quando lhe falavam de cultura, levava logo a mão ao revólver.
Salvas as devidas distâncias é isso que acontece a Miguel Sousa Tavares quando lhe falam de feminismo. A provocação surge mecânica e metódica.

Sob o título - Minhas Senhoras - mais uma vez Miguel Sousa Tavares investe contra o feminismo.

Em artigo no Expresso, começa por considerar que o 3º Congresso Feminista Português, que ocorreu na passada semana, não teria qualquer justificação.

E explica. Em primeiro lugar porque "a situação das mulheres no mundo", razão primeira do Congresso, não contém nenhum tema feminino ou feminista. "A lapidação, a excisão, a pobreza extrema, o tráfico da mulheres, o aborto", seriam na óptica larga de Miguel Sousa Tavares, questões que remetem meramente para direitos humanos.

O articulista, tenta assim fazer-nos passar a todos e a todas por débeis mentais, assexuando questões sexuais e neutralizando sob ponto de vista do género as sociais e políticas.

As fórmulas vagas, os chapéus semânticos, o pensamento pasteurizado, as análises estreitas, são, deste modo, os métodos propostos pelo autor para a ultrapassagem daqueles problemas.

Continuando por aí adiante o jornalista, refere também que a segunda razão justificativa da ocorrência do Congresso, seria igualmente inexistente.

Diz-nos o Autor que a "estafada queixa" do "triplo papel da mulher, como mãe, trabalhadora e dona-de-casa, uma espécie de disco encravado", carece de total legitimidade uma vez que o "padrão dominante " do "homem que chega a casa e se senta no sofá" já não existe, ou se existe," é residual".

Mas diz mais ainda. Se estes homens existem "é porque ainda há mulheres que os toleram".

Desconheço em que país vive Miguel Sousa Tavares.

Presumo, porém, que o pequeníssimo mundo elitista e mimado em que se enconcha lhe serve de medida para todas as coisas, aí havendo uma espécie de autismo de percepção do quotidiano da quase totalidade das pessoas que habitam neste Portugal, supostamente socialista, de 2008.

Há meses, uma reportagem televisiva referia, que a maior parte das mulheres das zonas suburbanas das grandes cidades se levantava às 5 horas da manhã, para tratar das crianças, vesti-las, dar-lhes o pequeno-almoço, levá-las ao infantário, voar para o trabalho, onde maioritariamente deverá aterrar às 8 horas.

Ninguém é obrigado a falar do que não sabe. Muito menos quem é festejado como articulista, quem tem opiniões brilhantes sobre tudo e todas as coisas desde o fabrico das cabeças de alfinete, à crise do petróleo.

Quanto à acusação de que só há homens que não partilham o trabalho doméstico, porque há mulheres que os toleram, é absolutamente verdadeira. Também só há pobres, porque há ricos, só há racistas porque as vítimas do racismo não os eliminam, só há ditaduras porque os povos sujeitos a elas não se sublevam.

O artigo prossegue, versado e versátil, referindo-se agora às quotas e à sua desnecessidade.

Dada a insuportável e imperdoável visibilidade que as mulheres vão tendo nos tempos que correm, representando quase o dobro das licenciaturas e invadindo todas as profissões, Miguel Sousa Tavares refere que as mulheres já não discutem as carreiras, mas os lugares de direcção - o poder, onde continuam em minoria.

Refere o articulista relativamente a esta questão que "o tempo se encarregará de a resolver", afirmando ainda que no específico campo empresarial, há uma fórmula óptima de ultrapassar o problema: Basta às mulheres "criar a sua própria empresa, ou adquirir a maioria numa". Sem comentários.

Miguel Sousa Tavares mais à frente concede que na política as coisas são mais difíceis e que as quotas, nalguns casos, até resultaram.

Contudo, há uma questão inicial, que o jornalista não compreende. Porque é que há-de haver quotas para mulheres e não para outros "segmentos da sociedade" "onde a discriminação é muito mais efectiva e não dispõe de lóbi nem voz activa".

As mulheres não são segmentos da sociedade.

As mulheres são a própria sociedade.

A humanidade não se divide nem por cores, nem por orientação sexual, nem por território de origem, nem por eficiência ou deficiência.

Toda essa pluralidade de tons, sons, linguajares, gramáticas de vida e geografias físicas e íntimas, são a própria vida.

A Humanidade divide-se cromossómica e genética em géneros, mais ou menos metade para cada lado.

E assim sendo a representação de cada género deve ser assegurada, discriminando-se positivamente qualquer deles, que por ardis variados e invisíveis seja sistematicamente posto à margem.

As quotas, no entanto, doem como setas afiadas por uma única e simples razão: Se entrarem mulheres para lugares de poder, terão necessariamente que sair homens.

E é nessas alturas, que os discursos à Sousa Tavares emergem, eivados de desculpas moles, esdrúxulos, sexistas, felinos, apelando à inércia, prometendo que o tempo há-de resolver todas as coisas, fórmula mágica para que não se resolva coisa nenhuma.

Mas a pérola final estaria para vir.

Na harmonia da página cabia, é claro, a narração de um episódio, supostamente protagonizado por uma mulher emancipada, em que esta referia ter dormido com o filho adolescente de uma amiga.

Refere o articulista, que se aquele confissão tivesse sido feita por um homem, o que não lhe chamariam...

A gabarolice de cama é dada como o paradigma da emancipação feminina.

O exemplo é aviltante, e nele se armazena toda a intensa carga de má fé despejada linha a linha no espaço ideológico do artigo.

Quem esteve no 3º Congresso Feminista foi testemunha de um debate profundo, sério e rigoroso, sobre as diversas temáticas apresentadas por estudiosos e estudiosas do feminismo, vindos dos quatro cantos de Portugal e do mundo.

Foi um encontro de ideias, de ideais, uma partilha de conhecimentos e de investigações, um contributo assinalável para o património teórico da luta emancipatória das mulheres portuguesas.

Sousa Tavares escreveu sobre um tema que desconhece.

Com a leveza da ignorância e contíguo atrevimento, mais não fez, que esgrimir contra fantasmas que o tempo envelheceu, habitantes do mais recuado imaginário sexista.

Alice Brito

 
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