É hoje. Sobre o lugar das palavras criar PDF versão para impressão
04-Jul-2008
Miguel PortasO 1001 culturas não é exactamente uma festa nem exactamente um colóquio. Foi concebido como espaço de encontro entre públicos, artistas e técnicos e programadores e produtores. Não há muitos encontros assim, com este tipo de informalidade, com tempo para a palavra, a conversa e o debate sobre o "estado da arte". De algum modo, é como visitar a vida por detrás dos palcos.

 


Primeiro, o lugar: a Fábrica do Braço de Prata. Há um ano a provar, num canto de Lisboa, que é possível oferecer alternativas sem apoio do Estado e sem mecenas. Há outros exemplos pelo país, mas não são muitos. Acarinhem-se, portanto, os que existem.

Ontem mesmo, o primeiro aniversário de Berardo no CCB teve honra de directos em todos os telejornais. O comendador, de coração na lapela, que uma das jornalistas, embevecida, ainda acariciou, explicava ao povo ignaro "venham ao museu, que é agradável e intelectual". Assim mesmo, naquele seu engraçado modo de falar. Não é obra, garanto-vos. Berardo, que é podre de rico, tem todos os apoios, exactamente porque é podre de rico. Recebeu do Estado lugar para mostrar as suas peças e ainda 3 milhões de euros, só no primeiro ano. Quem pode, pode, dirá quem desistiu de pensar. Eu prefiro sustentar que isto é o mundo de pernas para o ar. E lembrar que dois são os milhões com que o Estado presenteia todos os projectos culturais de natureza pontual que se candidatam a subsídios. Se alguém quiser perceber porque é tão grande a precariedade nos meios artísticos e porque é tão difícil a renovação geracional, encontra na crueza destes números boa parte das explicações.

Também umas palavras sobre o programa: o 1001 culturas não é exactamente uma festa nem exactamente um colóquio. Foi concebido como espaço de encontro entre públicos, artistas e técnicos e programadores e produtores. Não há muitos encontros assim, com este tipo de informalidade, com tempo para a palavra, a conversa e o debate sobre o "estado da arte". De algum modo, é como visitar a vida por detrás dos palcos.

Há, também, algo pela frente. As propostas de exposições e espectáculos adequam-se ao próprio tema do encontro: Esquerda e Cultura, o futuro já não é o que era. Trocando por miúdos: ouvir Mário Laginha e Bernardo Sassetti, só pode fazer bem a quem goste de música. Mas propor, especificamente, o concerto Grândolas, já decorre de uma opção que intersecta directamente o próprio tema do 1001 culturas. O mesmo se pode dizer das propostas de teatro de Vítor Hugo Pontes e Cláudia Andrade ou das quatro mostras previstas. As peças e fotografias de Tatiana Macedo e Mónica de Miranda interpelam as temáticas identitárias; os quadros de Margarida Dias Coelho e Miguel Mira suscitam leituras polémicas sobre os tempos em que a Esquerda era, também, um gosto e uma política oficial.

Ainda uma observação sobre os jantares. Eles celebram a tradição, óh horror! A tradição de um tempo onde comer e conversar eram faces da mesma moeda, sem necessidade de intermediações televisivas. Não se leia na observação, um remoque aos media, nem se descubra nela a velha esquerda anti-televisiva. Apenas me inclino para acreditar que, uma vez por outra, é interessante descobrir que se pode conversar sem ajuda externa. Sou, portanto, dos que pensam que nem todo o progresso sempre se aconselha e nem todo o passado é de deitar fora.

Sugiro-vos a visita. Não porque seja "intelectual". Mas porque a condição intelectual ainda se não encontra à venda e muito menos em saldos. Creio ser isso mesmo que Slavoj Zizek nos irá dizer quando as portas abrirem, hoje, a partir das 17 horas.

Veja o programa actualizado

Miguel Portas, artigo publicado no blogue Sem Muros  

 
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