O PCP entre as suas aspas criar PDF versão para impressão
04-Jul-2008
Jorge CostaA sessão pública Aqui, Agora, onde Manuel Alegre se juntou a militantes bloquistas e não só, teve dois resultados principais: produziu um alerta comum sobre os resultados da governação liberal e mostrou diálogo na esquerda. O primeiro resultado levou Vitalino Canas a dizer que a sessão era contra o PS. O segundo leva agora o Avante a declará-la contra o PCP.

O semanário comunista demorou um mês a reagir. Escolheu bem as palavras: não fazia "nenhum sentido a presença do PCP" na sessão do Teatro Trindade. Para o PCP, foi coisa de uma "esquerda" entre aspas, sem "a afirmação da ruptura com a politica de direita", dando "espaço a soluções inconsequentes que favorecem o PS e as suas cíclicas manobras de branqueamento". Então porque se realizou? Responde o Avante: "para apresentar o PCP como uma força sectária e hostil à convergência de sectores e forças democráticas" e assim criar "obstáculos à afirmação e ampliação da condição primeira para uma verdadeira alternativa de esquerda - o crescimento do PCP".

O PCP é um partido dedicado à conservação das suas posições e com medo da diferença. Na sua vida interna, estabelece e pune o delito de opinião. Com os movimentos sociais, cultiva a tutela: mais vale só meu e mais fraco que de muitos e mais forte. Quando não tem força para mandar assim, o PCP prefere criar pequenas organizações-satélite (por exemplo, no referendo do aborto) em vez de unir, em pé de igualdade, quem se coloca do mesmo lado da barricada. Esta noção proprietária da luta social leva o PCP a julgar-se sozinho (o Bloco, como escreve o Avante, tem uma "intervenção irrelevante na luta").

A este umbiguismo conservador, o PCP acrescenta um discurso sobre "a alternativa política", baseado numa ideia com pelo menos 20 anos de congressos partidários: o reforço eleitoral da CDU viraria o PS à esquerda. No mesmo dia em que saía o mencionado artigo no Avante, o histórico dirigente comunista Vítor Dias, depois de elencar dificuldades passadas e futuras para um entendimento do PCP com o PS, escrevia que "eventuais negociações entre partidos não se fazem numa campanha eleitoral, (...) fazem-se sim, uma vez apurados os resultados eleitorais, em negociações bilaterais sérias e responsáveis". 

É por isto que o PCP tem tanta dificuldade em lidar com iniciativas como a do Teatro da Trindade. Por cultura política: quem, na diferença, aceita convergir, recusa a auto-suficiência; e por fundo estratégico: o PCP não descola de um mirífico futuro de governo com o PS. O Bloco recusa esse velho filme. O país não terá "alternativa política" sem um novo mapa à esquerda em que o Partido Socialista tenha perdido a sua actual hegemonia. Esse mapa é, portanto, muito mais que uma nova arrumação parlamentar. Ele não depende exclusivamente de nenhum partido, mas sim de grandes deslocações na relação de forças social e de uma refundação política da esquerda. Para testar essa hipótese, uma esquerda pelo socialismo deve dar cada passo que puder dar. Sabendo que não se basta a si própria.

A sessão do Teatro da Trindade foi um desses pequenos passos. Manuel Alegre não é um dirigente de "esquerda" entre aspas, como escreve o Avante. É um homem com uma história e também com um percurso no PS de diferenciação perante o social-liberalismo de Sócrates. O Bloco valoriza essa diferenciação. Perante a situação social, seria irresponsável virar costas a socialistas e independentes que não embarcam no consenso liberal e que apresentam ao governo um diagnóstico profundamente crítico.

Jorge Costa

 
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