Não é o homem é o movimento criar PDF versão para impressão
08-Jul-2008
amy_goodman.jpgEsta semana, estava num painel no Festival de Ideias de Aspen, no Colorado, quando o jornalista da Newsweek Jonathan Alter me perguntou: "Obama deixou-se comprar?" A questão não é se ele se deixou comprar ou não - é quais as exigências postas pelas bases de apoio àqueles que as representam. A questão é: a quem é que os candidatos respondem, a quem se dirigem?

A estratégia de campanha de Richard Nixon era pender para a direita nas primárias e deslocar-se para o centro nas gerais. A estratégia de Bill Clinton chamava-se "triangulação", navegando para uma "Terceira Via" política, para agradar a moderados e indecisos. Na semana passada, Barack Obama deu alguns sinais de mudanças políticas que sugerem poder estar a fazer o mesmo. Irá resultar no caso dele?

Vejamos o Foreign Intelligence Surveillance Act (FISA)[1], por exemplo. Um comunicado de imprensa do gabinete do senado de Obama, datado de 17 de Dezembro de 2007 rezava assim: "O Senador Obama opõe-se inequivocamente a conceder imunidade retroactiva às empresas de telecomunicações e co-patrocinou os esforços do Senador Dodd no sentido de retirar essa provisão da lei FISA. A concessão de tal imunidade enfraquece as protecções constitucionais cuja defesa os americanos confiam ao Congresso. O Senador Obama apoia a obstrução a esta lei e aconselha vivamente a que outros façam o mesmo." Seis meses mais tarde, ei-lo que subscreve a concessão de imunidade às companhias que espiaram os americanos.

Questionei o Senador Russ Feingold, do Wisconsin, relativamente à posição de Obama sobre a lei FISA. Disse-me: "Voto errado. Infelizmente. Muitos democratas vão fazer o mesmo. Devíamos estar a defender a Constituição. Quando o Senador Obama for presidente, irá sem dúvida trabalhar para remediar isto em parte, mas seria mais fácil impedi-lo agora do que tentar remediá-lo mais tarde."

Feingold e o senador Christopher Dodd, do Connecticut, estão a planear levantar uma obstrução à lei. Será preciso o voto de 60 senadores para anular a sua obstrução. Parece que Obama será um deles. Os seus colegas de Senado não são os únicos a ter ficado desapontados com a posição de Obama. No próprio sítio web da campanha de Obama, os bloggers fazem ouvir uma oposição estridente à sua posição em relação à FISA. Na altura em que este artigo foi redigido, um grupo online no sítio web da campanha de Obama tinha mais de 10 mil membros e estava a crescer rapidamente. O perfil do grupo diz o seguinte: "Senador Obama, somos um grupo de pessoas, orgulhosas de ser seus apoiantes, que acreditam no seu apelo à esperança e a um novo tipo de política. Por favor, rejeite a política de medo pela nossa segurança nacional, vote contra esta lei e motive outros democratas para que façam o mesmo!"

E depois, houve ainda as recentes decisões do Supremo Tribunal de Justiça acerca do controle de armas de defesa pessoal e da pena de morte. Obama apoiou o tribunal na revogação da proibição de porte de arma na capital da nação, assolada por actos de violência. Trata-se da mais importante decisão do tribunal sobre a Segunda Emenda em mais de 70 anos. E um golpe para os opositores da pena de morte. Obama discordou da decisão do tribunal superior de proibir a execução dos considerados culpados de terem violado crianças.

A 21 de Janeiro de 2008, num debate das primárias, Obama disse que o Acordo de Comércio Livre Norte Americano (NAFTA) era um "erro" e "um enorme problema". Recentemente disse à revista Fortune: "Às vezes, durante as campanhas a retórica aquece e excede-se... a minha posição base mantêm-se a mesma... Sempre fui um defensor do comércio livre." Isto depois do escândalo das primárias relativo ao alegado encontro entre o consultor económico de Obama, Austan Goolsbee, e de um membro do consulado canadiano. Um memorando canadiano a descrever o encontro sugeria que, em linhas gerais, Obama estava satisfeito com o NAFTA. Goolsbee descreveu o relato como incorrecto. Agora as pessoas questionam a genuinidade da oposição de Obama ao NAFTA e ao "comércio livre".

Depois, vem a flutuação de potenciais candidatos à vice presidência. Jonathan Capehart, do Washington Post, esteve no painel de Aspen e referiu que tem estado a receber e-mails de homens homossexuais que se opôem veementemente ao antigo Senador Sam Nunn enquanto candidato à vice-presidência com Obama. Não podem esquecer o contributo de Nunn para o "Não perguntem, não assumam." Que proibia os gays e as lésbicas de prestarem serviço militar se assumissem abertamente as suas opções sexuais. Começaram a jorrar e-mails, levando Capehart a escrever a famosa coluna: "Não perguntem a Nunn."

Pode ser estratégia de campanha de Obama posicionar-se ao centro para atrair os independentes e os indecisos. Mas ele deveria estudar com atenção as lições da campanha de Kerry de 2004. John Kerry fez cálculos semelhantes, por não querer mostrar-se fraco em relação à guerra do Iraque. Desinspiradas, as pessoas ficaram em casa em vez de irem votar. Há milhões que se preocupam com os assuntos de que Obama se está a distanciar, do FISA ao controlo das armas nas mãos dos particulares, dos direitos dos homessexuais ao comércio livre e à pena de morte. Em vez de ficarem em casa, deviam lembrar-se das palavras de Frederick Douglass[2]: "O poder não concede nada que não lhe seja exigido."

Traduzido por Maria José Simas

 



[1] Lei federal americana prescrevendo formas de actuar na vigilância física e electrónica e recolha de "informação secreta" entre "potências estrangeiras" e "agentes de potências estrangeiras" (podendo incluir cidadãos americanos e residentes permanentes envolvidos em actos de espionagem e violação da lei §1801(b)(2)(B)) em território sob a égide dos Estados Unidos. (N.da T.)

[2] Frederick Douglass (1818 -1895) foi um abolicionista, editor, orador, autor, estadista e reformador americano. Chamado "O Sábio de Anacostia" e "O Leão de Anacostia",  Douglass é uma das figuras mais ilustres da história afro-americana e da história dos Estados Unidos. Em 1872 foi nomeado candidato à vice presidência pelo Partido da Igualdade de Direitos, juntamente com Victoria Woodhull, a primeira mulher a candidatar-se à presidência dos Estados Unidos. Gostava de dizer"Era capaz de me unir a qualquer um para fazer o bem e a ninguém para fazer o mal." (N. da T.)

 

 
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