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10-Jul-2008
Uri AvneryAté agora, Olmert está a sobreviver. As primárias do partido Kadima só acontecerão em Setembro - partido fictício, que vive em estado semelhante ao do seu fundador, Ariel Sharon, mantido vivo com respiração artificial e sem poder mover-se.
Até quando? Setembro? Maio de 2009? Novembro de 2010? Ninguém sabe. Mas uma coisa é certa: o governo de Olmert não pode fazer coisa alguma, nada.

O que excitou tanto os israelitas esta semana? O que os pôs grudados à televisão, de ouvido no rádio? O que os fez correr às bancas, para comprar jornais?

O drama no Parlamento onde, a certa altura, parecia que todos contrariariam todas as leis da natureza e aprovariam a demissão deles mesmos? As violações do cessar-fogo, da Tahdiyeh, nos arredores da Faixa de Gaza, depois da execução de militantes da Jihad em Nablus? As negociações de paz com a Síria? A discussão sobre a troca de prisioneiros com o Hezbollah no norte e com o Hamas no sul?

Não sejamos ridículos! O evento que mobilizou todas as emoções mais tumultuadas em Israel, esta semana, foi o campeonato europeu de futebol, Alemanha versus Turquia, Espanha contra Rússia! Que partidas! Que golos! Uau!

Comparados a estes, os jogos disputados na arena política não passaram de ‘show do intervalo'. Por exemplo: o jogo "será que sobreviverei?", que Ehud Olmert está a jogar.

Desde que ficou provado sem sombra de dúvida que Olmert é corrupto, o seu governo perdeu o mais valioso item do património de qualquer governo em sociedade democrática: a confiança dos cidadãos.

Ninguém mais acredita no que o actual governo diga. Desconfia-se de tudo o que o governo diga. Todas as decisões são suspeitas a priori - nenhuma das decisões é tomada com vistas a qualquer objectivo público; tudo é feito exclusivamente para que o governo ganhe mais um mês, uma semana, um dia de vida. O governo já não governa.

Lembra-me uma cena de um filme antigo, adaptado de "Volta ao mundo em 80 dias", romance de Júlio Verne. Para ganhar uma aposta, o herói tem de atravessar o continente americano, de comboio, na velocidade máxima. Quando a locomotiva fica sem carvão, os vagões são desmontados um a um e toda a madeira é posta para queimar. Depois, o herói começa a queimar a própria locomotiva, até que só reste a máquina, a caldeira e as rodas.

O governo de Israel está como aquele comboio. Para sobreviver, está a ter de se lançar na fogueira, ele mesmo.

Ehud Barak impôs um ultimato: se Olmert não fosse substituído, ele, Barak, poria fim à coligação. Mas, quando o prazo já se esgotava, Barak entendeu que Olmert o arrastaria com ele, na direcção de um abismo terrível chamado "eleições". Todas as sondagens mostraram que, se houver eleições, o Likud voltará ao poder. Os dois Ehuds puseram-se freneticamente a procurar um modo de escaparem, ambos, da mesma cilada. Agora estão lá, como dois boxeurs exaustos, apoiados um no outro para não desabarem.

Até agora, Olmert está a sobreviver. As primárias do partido Kadima só acontecerão em Setembro - partido fictício, que vive em estado semelhante ao do seu fundador, Ariel Sharon, mantido vivo com respiração artificial e sem poder mover-se.

Até quando? Setembro? Maio de 2009? Novembro de 2010? Ninguém sabe. Mas uma coisa é certa: o governo de Olmert não pode fazer coisa alguma, nada.

Exemplo nº 1: Tahdiyeh.

O exército queria o cessar-fogo, porque não tem meios para deter os mísseis lançados da Faixa de Gaza, e faria qualquer coisa para não ter de reocupar a Faixa - operação cara, perigosa, arriscadíssima. Queria o cessar-fogo e ao mesmo tempo não queria: queria logicamente; não queria emocionalmente.

Semana passada, escrevi que seria muito fácil violar o cessar-fogo: "O exército mata meia dúzia de militantes da Jihad Islâmica na Cisjordânia. E a organização responde com uma salva de Qassams em Sderot. O exército declara que o cessar-fogo foi violado e responde com uma incursão na Faixa de Gaza." Mas eu não esperava que acontecesse tão imediatamente. E já aconteceu: o exército israelita executou dois militantes da Jihad Islâmica na Cisjordânia, a Jihad Islâmica respondeu com foguetes Qassams, o exército impôs de novo o bloqueio...

Quem tomou a iniciativa da provocação? Olmert? Barak? O Comandante do Exército? O subcomandante? Ninguém diz coisa alguma. Certo, sem dúvida alguma, é que não há governo... portanto, não há quem diga coisa alguma.

Exemplo nº 2: A troca de prisioneiros.

O negociador alemão tenta, há muito tempo, fazer algum acordo para trocar dois prisioneiros israelitas presos pelo Hezbollah, por prisioneiros libaneses. Acredita-se que os israelitas tenham sido gravemente feridos no momento em que foram capturados e morreram há muito tempo. Sem confirmação, porque o Hezbollah não fala.

Na religião dos judeus, o "resgate de prisioneiros" é obrigação sagrada. Na Idade Média, quando um judeu londrino foi capturado por piratas turcos, os judeus de Istambul tiveram de pagar o preço do resgate. No exército de Israel, o resgate de prisioneiros é missão considerada prioritária: assim como não se abandona um soldado ferido em combate, assim também não se abandona um soldado que fique prisioneiro do inimigo. Por mais de uma vez, centenas de prisioneiros palestinos foram trocados por um único soldado de Israel.

Pelo menos oficialmente, o objectivo da II Guerra do Líbano foi libertar, sem troca, os mesmos dois soldados cuja libertação ainda está a ser negociada. Por isto se sacrificaram as vidas de 150 soldados e civis israelitas e de mais de mil combatentes e civis libaneses. E deu em nada. Sendo assim, quem se negaria a libertar cinco prisioneiros libaneses, em troca dos dois soldados israelitas?

A dificuldade é que há um conflito mítico. Um dos cinco prisioneiros a serem libertados é Samir Kuntar, o qual, com o seu grupo, é responsável por um ataque especialmente brutal, em Israel. "Kuntar, o assassino" (como é chamado pela média israelita) está gravado na memória nacional como um monstro, que matou toda a família Haran de modo particularmente horrendo. No Líbano, claro, é considerado herói nacional, que recebeu a missão de executar e executou uma missão perigosa, muito profundamente infiltrado em território inimigo.

De um lado, o dever mítico de "resgatar os prisioneiros"; de outro, a recusa a libertar um "monstro". Alguém tem de decidir, Olmert decidiu. No dia seguinte, decidiu o contrário. Mais dois dias, voltou à primeira decisão. Outros dois dias, reverteu a reversão. Em todos os casos, o problema foi sempre o mesmo: o que mais o ajudará a sobreviver? Que decisão será mais popular?

O mesmo se aplica ao caso do soldado Gilad Shalit, prisioneiro do Hamas na Faixa de Gaza. Este, pelo menos, sabemos que está vivo. O Hamas permite que envie uma mensagem, de tempos a tempos.

Aqui, o mito é outro: são prisioneiros que têm "sangue nas mãos". E não qualquer sangue, mas "sangue judeu", como os redactores de discursos jamais se esquecem de repetir. O Hamas exige, em troca deste soldado, que se libertem centenas dos seus combatentes, que participaram de ataques a Israel. E aí, outra vez, aparece o dilema: ou esquecer o "resgate dos prisioneiros" ou esquecer o "sangue judeu".

Tudo isto é ridículo. Na guerra, o sangue jorra e respinga. Todos nós temos "sangue nas mãos". Eu tenho. Não há dúvidas de que Ehud Barak também tem.
"A morte e a vida estão em poder da língua", lembra-nos a Bíblia (Provérbios 18:21) - o que inclui a língua escrita. Basta dizer e escrever "soldado capturado", em vez de "soldado sequestrado"; "prisioneiros de guerra palestinianos", em vez de "criminosos palestinianos"; "combatentes inimigos" em vez de "assassinos com sangue judeu nas mãos"... e tudo fica mais simples. Mas a média vociferante, sempre em busca de leitores, ajuda a pôr fogo no palheiro, pela simples escolha das palavras.

E Olmert não se decide. O que será mais popular? Libertar o soldado que já passou dois anos numa cela escura e cuja vida continua em perigo, ou libertar "assassinos" com "sangue nas mãos"? Não param de encomendar pesquisas secretas de opinião, e nem assim conseguem decidir.

Exemplo nº 3: Síria.

Parece que há negociações. Parece que falam de paz. Os turcos convidam negociadores de Israel e da Síria para um encontro num hotel e pulam de quarto em quarto em negociações "indirectas".

É só teatro. Bebem vinho em taças vazias. Ninguém acredita seriamente em paz, se as colónias israelitas não forem removidas do Golan. Só que, enquanto negociam, constroem-se mais prédios nas colónias.

A ideia de que Olmert teria força moral e política para liquidar aquelas colónias é cómica. Ele nem sonha com o fim das colónias. De facto, ele não faz, sequer, qualquer esforço para preparar a opinião pública para tal eventualidade. Na melhor das hipóteses, o fim daquelas colónias só seria possível depois de longo, firme e persistente esforço de persuasão, que teria de ser empreendido sob forte comoção na opinião pública.

Então... para que tanta encenação? Cada grupo tem os seus motivos:

Bashar al-Assad explora com grande talento as "negociações" para escapar do "eixo do mal" e evitar um ataque militar dos EUA (cada dia menos provável) e para escapar do isolamento.

O governo turco, sob ameaça de inimigos domésticos (o exército e os tribunais), vai ganhando prestígio e anda firmemente na direcção da sua grande ambição: ser admitido na União Europeia.

Até o atlético Nicolas Sarkozy fareja uma oportunidade. Depois de ter passado por Israel, em viagem de bajulação, assessorado por sua estonteante esposa (e a média em Israel praticamente ignorou a crítica que ele fez às colónias), ele agora quer receber Olmert e Assad em Paris, em grande show, à volta da mesma mesa (mas sem apertos de mão). Quem recusará um convite de um homem que está próximo de assumir a presidência rotativa da União Europeia e aspira a ser coroado Napoleão IV?!

Olmert é, claro, quem mais tem a ganhar. Esta semana, da tribuna do parlamento, ele vociferou, em resposta aos membros do Likud que o vaiavam: "Vocês não querem a paz!"

Então, lá está ele: não Olmert o corrupto; não Olmert o fracassado, mas Olmert o valente, o bravo, auto-imolado no altar da paz, ele, aquele que realizará todos os sonhos de tantas gerações... desde que o deixem no poder.

Exemplo nº 4: A Palestina.

Tudo o que se lê acima se aplica ainda mais claramente às relações com a Palestina. Eles reúnem-se. Abraçam-se. Trocam promessas. Há uma legião de mediadores, cada um deles interessado em abocanhar o seu naco.

Esta semana, aconteceu outra cena das mais lamentáveis, sob os auspícios de Angelika Merkel, que também honrou Israel, recentemente, também em peregrinação de obediência. Foi uma conferência "pelos palestinianos". Para discutir o quê? A ocupação. As colónias. O Muro. Os milhares de palestinianos que estão presos em Israel. E a limpeza étnica que prossegue em Jerusalém.

Sobre o que falaram? Sobre treinar a polícia palestiniana, que garantirá a segurança da ocupação. Sobre construir prisões na Palestina, para encarcerar membros do Hamas. Só pensam em Lei & Ordem - a lei e a ordem da ocupação.

Que estrelas brilharam lá? As de sempre: o inevitável Tony Blair. A tragicómica Condoleezza Rice. E, é claro, Tzipi Livni (que, no mesmo dia, exigiu que o exército de Israel invada Gaza). Todos, todos, a trabalhar pela paz.

Era uma vez... quando os israelitas jogavam futebol e jogos políticos. O envolvimento emocional era profundo. Hoje, só o futebol sobreviveu, jogo jogado por regras claras, transparentes. O que se vê é o que é. Pode-se assistir sem náusea. O jogo político hoje horroriza, escandaliza, enoja. É o preço que Israel está a pagar pela sobrevivência de Olmert.

Uri Avnery, 28/6/2008, ""Ole - Ole, Ole, Ole"", na internet, na página de Gush Shalom [Grupo de Paz], em http://zope.gush-shalom.org/home/en/channels/avnery/1214084739/

Tradução do blogue do Bourdoukan, adaptado para português de Portugal por Carlos Santos

 
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