Bairros e engenharia social criar PDF versão para impressão
18-Jul-2008
João Teixeira LopesJamais poderemos conceber que uma sociedade de bairro reaja da mesma forma a soluções de engenharia social, como a tabula rasa de Rui Rio que quer demolir as torres do Aleixo, não porque se preocupe com os pobres mas porque a encosta de Lordelo tem umas ricas vistas e já está quase toda ocupada por condomínios de luxo.

Existem duas crenças com efeitos social e politicamente mortíferos entre quem trabalha com e nos «bairros sociais», também ditos «de habitação social», «perigosos», «ghettos», ou, exercendo maior ou menor dose de eufemismo, «difíceis»: a primeira crença postula que as estruturas espaciais exercem efeitos automáticos nos comportamentos humanos. Tal espaço, tais gentes. Degradação leva à degradação. E por aí fora. A outra, de sentido inverso, proclama que o espaço é sempre uma apropriação, logo, uma construção dos «praticantes do espaço», onde estes projectam percepções, avaliações, sonhos, projectos. Gostaria de propor, entre as duas visões, uma reflexão sobre a diferença que o espaço faz. Para tal, é necessário introduzir mediações entre o espaço (físico, material, arquitectónico) e as práticas e representações que nesse espaço se desenrolam. Modos de vida, estruturas familiares, identidades, modelações culturais, percursos de classe, relação com o mercado de trabalho e com a escola, organização das sociabilidades e dos grupos de pares, mecanismos de hetero e autoestigmatização; etc. Mas também mediações institucionais: quem está no terreno e com que perfil de actuação (preventivo, caritativo, emancipatório ou punitivo)?; que equipamentos existem e como são preservados e programados?; os destinatários são envolvidos na gestão dos equipamentos e na formulação dos seus programas?; exercem-se competências de mediação sociocultural (colocar as diferenças em interacção, para fazer emergir os conflitos e ser capaz de os apropriar relacionalmente como ponto de partida para novos compromissos na ocupação e apropriação do espaço, sem esquecer que nós somos sempre a diferença do outro)? Creio que, por isso mesmo, não podemos considerar o espaço como o fixo, o morto, ou algo que é mera construção social ou cognitiva, mas também não podemos considerar o espaço apenas no seu condicionante, no seu determinismo espacial. Penso que devemos, antes, ter em conta o espaço e as suas apropriações, o espaço e as suas representações, o espaço e as suas vivências, e a forma como mutuamente se fecundam.

Por isso jamais poderemos conceber que uma sociedade de bairro (heterogénea, embora composta por símbolos comummente partilhados, entre os quais certas leituras e práticas espaciais) reaja da mesma forma a soluções de engenharia social, como a tabula rasa de Rui Rio que quer demolir as torres do Aleixo, não porque se preocupe com os pobres mas porque a encosta de Lordelo tem umas ricas vistas e já está quase toda ocupada por condomínios de luxo, com excepção dessa «irredutível aldeia de gauleses» que se tornou símbolo da degradação humana e dos cenários mais violentos de tráfico de droga precisamente porque se construiu um facto consumado, de decadência tornada irreversível, de desinvestimento crónico, de ausência total de instituições e técnicos sociais no terreno, sem processos de auscultação e envolvimento das populações. Expulsas, há décadas, da Ribeira-Barredo, querem-lhes agora tirar a íntima relação com o rio Douro que sempre moldou práticas e imaginários num modo de vida próprio. E disseminá-las pela cidade - a umas quantas pessoas, não a todas, porque o edil decretou já ser impossível realojar cada um dos habitantes, até porque quer punir os traficantes de droga (receio bem que não sobre muita gente, dada aquela sociedade de bairro, por total falta de alternativas, rodar à volta dessa economia ilícita. Aliás, veja-se o que aconteceu com a demolição de São João de Deus: mais pobres viram-se obrigados a sair da cidade por absoluta falta de habitação e o tráfico deslocou-se para o Aleixo, como de novo se deslocará para outro lugar se não se construírem casas de chuto e implementarem políticas de redução de danos). De uma assentada purifica-se ainda mais a zona ocidental da cidade e a frente ribeirinha; de outra assentada, divide-se toda essa gente ou por casas recuperadas na baixa ou por habitação social (percebe-se agora por que Rio tem mantido dezenas de casas vazias nos bairros da cidade, com tanto povo a precisar de habitação e a ver-se obrigado ao exílio para os subúrbios), quebrando-se elos de vizinhança e solidariedade. Por que não começar pelo óbvio e humanamente justo - auscultar a população; perceber os diferentes projectos de vida; fazer o levantamento dos possíveis destinos? Quantas e quantos não poderiam ali ficar num novo bairro, construído de raiz, à pequena escala, muito mais entrosado na cidade por vias de comunicação e transporte e com os equipamentos e redes sociais necessários, ainda que ao lado existisse um segmento de casas de luxo? As vistas não são partilháveis? O espaço é apenas para uns quantos? É impossível a «mistura» social? A cidade apartheid é o inexorável futuro?

João Teixeira Lopes

 
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