Tróia: Até ver criar PDF versão para impressão
25-Jul-2008
Alice BritoSe as tarifas de todos os barcos duplicarem no futuro, Tróia, aquela língua de areia, ali mesmo ao alcance dos olhos e das mãos, passará a ser um território tão distante como qualquer outra estância balnear naqueles paraísos improváveis, que a publicidade nos vende, longínquos e inacessíveis.

Na memória difusa desta cidade, de alma calejada por muitas e variadas malfeitorias, há um espaço de alegres afectos, espaço eleito, traçado a preceito pelo instinto do lazer - a praia.

Gerações sucessivas das suas gentes, durante os meses de muito verão, se encaminharam determinadas para os areais de sol de que a cidade era proprietária legítima.

Muita praia tem Setúbal a rendilhar-lhe a orla marítima em bilros líquidos e sedosos, desde a Arrábida, onde um mar de memórias esmeraldas descansa íntimo da serra, até à Figueirinha, cais onde atracam autocarros empanturrados de criançada de chapéu e balde, para não falar de Albarquel, ali à mão de semear, a dispensar transportes. E tantas outras. Galapos, Galapinhos, a Praia dos Coelhos, sucessões felizes de areia luminosa a deixar-se pisar pelos pés descalços dos habitantes da cidade.

Finalmente, Tróia, a península.

Quilométrica língua de areal branco, praia-pátria da cidade, tem entre si e Setúbal uma fronteira salgada e sadina, como se fosse uma passadeira tingida de azul.

Mal a primavera começa a arregaçar as mangas, a cidade inicia um olhar impaciente na espera desejosa de travessia.

Quando o calor finalmente entra nas casas e nos corpos e o Verão se abre em dias intermináveis num alvoroço de luz, a cidade encaminha-se solta, densa e convicta para os barcos, no propósito definitivo e formal de tomar posse da sua praia.

Às vezes só de manhã, às vezes só de tarde, e outras até muito tarde, a cidade desaperta-se, destapa-se e molha-se e passeia-se nas planícies de silêncio arenoso, aqui e ali pontuadas por dunas que o trabalho do vento vai arrimando.

De vez em quando, naquelas alturas em que o rio preguiça e se espreguiça em ondas suaves, já tarde, com o sol num braço de ferro com o dia, em galhardias de causas perdidas, a cidade de férias regressa já noite a casa, cansada, salgada e faminta, o prazer cumprido, a coragem renovada.

Sempre foi assim, mas é legítimo questionar se sempre assim será.

A Atlantic Ferries é agora, e durante os próximos quinze anos, a concessionária das ligações fluviais entre Setúbal e Tróia.

Os novos ferries, que começaram a galgar o rio no início do mês, custam quase o dobro.

Garantem-nos que os velhos barcos continuarão a travessia só para passageiros, com o mesmo preço, pelo menos até ao fim deste ano.

Mas em 2005, Carlos Beato, Presidente da Câmara de Grândola, tinha também garantido que as tarifas das novas embarcações " mais modernas e mais apelativas" seriam " praticamente as mesmas".

Sabe-se que há penhoras sobre os ferries que até agora trabalharam. Sabe-se que há catamarãs na forja. A que preço?

Há muitas formas, explícitas e implícitas, de interditar um espaço a uma população.

Se as tarifas de todos os barcos duplicarem no futuro, Tróia, aquela língua de areia, ali mesmo ao alcance dos olhos e das mãos, passará a ser um território tão distante como qualquer outra estância balnear naqueles paraísos improváveis, que a publicidade nos vende, longínquos e inacessíveis.

Dizem-nos que todos lucraremos com os investimentos em Tróia. Na habitual linguagem mansa dos negócios, zumbido de vespa antes do ataque, garantem-nos a continuidade do acesso àquela praia para toda a população.

Até ver.

Alice Brito

 
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