Não levamos ditaduras na desportiva criar PDF versão para impressão
08-Ago-2008
jorge_costa.jpgO PCP acaba de saudar a ditadura chinesa por, "com enorme esforço", ter conseguido preparar os Jogos Olímpicos "dentro da normalidade". O problema é mesmo a normalidade.  


Este entusiasmo do PCP com os jogos olímpicos do regime chinês é a expressão mais recente de um internacionalismo que carrega as piores tradições do século passado. Na orientação do PCP, estas tradições não são um pormenor.

1. O internacionalismo nunca foi um carro de assalto. O Iraque repete a velha lição que os impérios insistem em não aprender: ninguém é libertado à força. Sob as bandeiras de "libertadores", ocultam-se sempre interesses menos proclamáveis. Ora, a invasão militar também foi linguagem da tradição comunista do século XX: Hungria, Checoslováquia, Afeganistão. A esquerda tem que ter a casa arrumada para se opor às políticas da ingerência e da guerra.

2. O internacionalismo não obedece à razão de Estado. Esta é uma das maiores críticas dirigidas pela esquerda ao chavismo: a confusão entre diplomacia e solidariedade internacional. Nenhum projecto emancipatório parte das relações comerciais entre Estados (no caso venezuelano, com Ahmadinejad ou China). De igual modo, não há política internacionalista assente no pragmatismo - "inimigo do meu inimigo, meu amigo é". A saudade da divisão do mundo em "campos" submete a solidariedade internacionalista às distorções da leitura geo-estratégica.

3. O internacionalismo é a luta pelos direitos humanos. Há quase dez anos, quando o Bloco chegou ao parlamento, uma das suas primeiras iniciativas foi a proposta de um voto de solidariedade com o jornalista angolano Rafael Marques, então preso por críticas ao regime do MPLA. A proposta não passou. Contra ela, um muro de silêncio uniu PSD, PS e PCP. Pouco tempo depois, teve de ser fora do parlamento que deputados do Bloco e de outros partidos se encontraram com o Dalai Lama, que representa a luta pela auto-determinação do Tibete, ocupado pela China. Já para ouvir o líder parlamentar comunista referir-se ao totalitarismo da Coreia do Norte como um exemplo de democracia, não foi necessário sair da Assembleia da República.

4. O internacionalismo não abandona o campo dos trabalhadores. A solidariedade com o partido único chinês é o aspecto mais lamentável da política internacional do PCP. O Partido Comunista Chinês é a organização política da elite de um dos capitalismos mais selvagens do mundo. É um partido que negoceia com qualquer governo de qualquer país, mas interessa-se pelo apoio de alguns partidos de esquerda europeus porque quer ter boas relações nos meios sindicais do ocidente, ao mesmo tempo que proíbe o sindicalismo e a expressão livres na China.

Em muitos países, quem luta pela justiça e pelo socialismo põe em risco a própria vida. Como sabe o PCP por longa experiência própria, são comunistas muitos dos que caem ou são torturados pelo seu envolvimento em lutas laborais, em defesa das liberdades, dos direitos humanos ou da auto-determinação. A esquerda internacionalista deve-lhes, pelo menos, coerência.

Jorge Costa

 
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