A interferência partidária na Autoeuropa criar PDF versão para impressão
13-Ago-2008
Daniel BernardinoNo passado dia 31 de Julho, tive a oportunidade de ler um artigo no Jornal Avante (página sete) que tenta mostrar que o trabalho realizado pelo PCP nesta multinacional e no parque industrial tem vindo a crescer, em que se afirma que: "perder direitos não é normal". Ilustram o artigo com uma fotografia do plenário de trabalhadores, realizado no dia 5 de Junho no parque industrial desta multinacional (parque de autocarros).
Relativamente a este artigo gostaria de dizer o seguinte:

No parque industrial da Autoeuropa existem, constituídas, 7 (sete) Comissões de Trabalhadores (CTs) das cerca de 13 (treze) empresas. É um movimento que tem vindo a crescer nos órgãos dos trabalhadores, e é natural que venham a surgir mais nos próximos tempos, pela existência de problemas nas empresas onde não há CTs. Nas eleições que se realizaram nestas empresas os trabalhadores têm privilegiado manter as actuais CTs em prol de novas listas que têm surgido, demonstrando a credibilidade que estes órgãos dos trabalhadores têm junto dos seus trabalhadores.

As organizações dos representantes dos trabalhadores neste parque industrial, ligadas aos sindicatos, nunca tiveram um fulgor que seria necessário para o movimento sindical, isto está demonstrado nos dados estatísticos das eleições que se têm realizado para os sindicatos, e não me refiro apenas a um sindicato, mas vários. As adesões são da ordem dos 10 a 20% de participação nos actos eleitorais, enquanto para as Comissões de Trabalhadores são entre os 70 e 80% de participação. Ora, isto leva a questionar, o que estará errado!

O paradigma dos sindicatos afectos à CGTP, na sua maioria, estarem ligados ao Partido Comunista tem levado a que muitos trabalhadores, devido às interferências partidárias, optem pelo movimento, crescente, das Comissões de Trabalhadores, neste parque, independentes dos partidos políticos.

Assim, quando se afirma que "perder direitos não é normal", estamos perfeitamente de acordo! Mas questionamos e perder o emprego será normal? Pois, infelizmente, tem sido no nosso país.

Logo questionamos, porque nos temos esforçado para manter o máximo de postos de trabalho condignamente com direitos, se alguma vez se abdicaram de alguns? Pelo contrário, ganharam-se outros, como é o caso da flexibilidade existente com os dias de paragem que a Autoeuropa e mais empresas como a Faurecia, quando têm necessidade (mediante um acordo entre trabalhadores e empresa) realizam paralisações de produção, nas quais não existe qualquer perda de direitos dos trabalhadores, usufruindo dos dias sem trabalhar, a receberem o salário como se estivessem a trabalhar. Será isto perder direitos?

Apenas para terminar informo que a fotografia que faz parte do artigo do Jornal Avante foi do grandioso plenário que as Comissões de Trabalhadores organizaram, para o qual convidámos os sindicatos, que se fizeram representar, onde se concentraram cerca de 2500 trabalhadores apenas no turno da manhã. Na parte da tarde desse dia estava marcada uma manifestação para Lisboa.

São, estas, algumas formas diferentes de fazer trabalho, junto dos trabalhadores, abandonando a velha ideia que nos dias de manifestações os trabalhadores se mobilizam com um dia de greve, e está feito.

Foi assim que fizemos no dia 5 de Junho, uma forma diferente de mobilizar trabalhadores contra o Código de Trabalho e que, certamente, ajudou para somar aos mais de duzentos mil trabalhadores (200.000) que estiveram na manifestação a lutar para não perder direitos. Recordamos que foi o maior plenário jamais realizado no parque industrial da Autoeuropa, apenas num turno de produção.

Não aceitamos perder direitos, mas também não aceitamos que pelos direitos fiquemos desempregados!

Daniel Bernardino
Coordenador da Comissão de Trabalhadores da Faurecia
Dirigente Sindical do Sindicato dos Químicos - SINQUIFA
Parque Industrial da Autoeuropa

 
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