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20-Ago-2008
tiago_gillot.jpgNão há nada que enganar: a PT conseguiu mais um generoso patrocínio do Governo para recrutar precários, numa zona do país onde a chantagem do desemprego aumenta o desespero e diminui os salários e as expectativas.  

O primeiro-ministro voltou de férias. E, já se sabe, esses são sempre grandes momentos para o país. Sócrates - homem muito atento e empenhado na comunicação - vive obcecado em tirar coelhos da sua cartola e desta vez não podia ser diferente. Em Santo Tirso, como já vem sendo habitual, não hesitou em tentar vender-nos gato por lebre.

Apoiado no tratamento que mandou fazer das estatísticas dos dias anteriores, Sócrates imaginou o anúncio da instalação dum mega-call-center, com vaga para 1200 precários e a começar actividade apenas daqui a um ano, como o cenário ideal para celebrar o cumprimento da (afinal) promessa dos 150 mil novos empregos. Focado no delírio da propaganda, ficou mal na fotografia.

Esta iniciativa revela uma continuidade degradante: Sócrates define a sua agenda em função das oportunidades que vai tendo de atafulhar a política nacional com soundbytes ruidosos, insistindo numa agressiva linha de comunicação pretensamente apoiada em "exemplos". Desta vez: "1200 postos de trabalho", "acabar com 25% do desemprego em Santo Tirso", "estamos perto do objectivo [dos 150 mil empregos]". O que interessa é a frase-choque que ecoa em horários nobres. Nada mais.

Mas à margem destas iniciativas há sempre frases e factos que, apesar de menos sonoros, merecem toda a atenção. Desde logo, com esta operação, a tribo PT arrecadou mais uns milhões de euros em terrenos valiosos, cedidos pela Câmara, bem no centro da cidade. É a força dos grandes, que em Portugal nunca estiveram habituados a outra coisa que não sejam facilidades e privilégios.

Para o que interessa, para as perguntas difíceis, Sócrates deixou o Secretário de Estado da Segurança Social, Pedro Marques, a dizer o que já sabíamos: não há garantias sobre os tipos de contratos ou os salários dos futuros trabalhadores daquele "centro de atendimento". Nós respondemos: contratos a prazo, através de empresas de trabalho temporário (ETT), certamente subsidiárias da PT, que capturam uma parte de leão dos magros salários destas pessoas, enquanto dispensam a PT-a-sério de "chatices" como despedir ou aumentar os seus quadros de pessoal. Pedro Marques adiantou ainda que o Instituto de Emprego e Formação Profissional acompanhará o recrutamento e encaminhará os seus inscritos para esta nova estrutura, assegurando a "formação profissional" (?) e privilegiando desempregados de longa duração e estagiários. Estamos esclarecidos.

Não há nada que enganar: a PT conseguiu mais um generoso patrocínio do Governo para recrutar precários numa zona do país onde a chantagem do desemprego aumenta o desespero e diminui os salários e as expectativas. A confirmá-lo estão as denúncias dos sindicatos que, nos últimos dias, já avisaram que este novo call-center corresponde apenas a uma deslocalização de serviços: muito provavelmente, a estes "novos" 1200 precários da PT em Santo Tirso corresponderão 1200 despedimentos no resto do país. Não espanta, porque a PT, apenas desde que Sócrates é nome de primeiro-ministro, já despediu 3400 pessoas com contratos a sério.

Vivemos num país onde o desemprego é a brutal chantagem que organiza a precariedade e os baixos salários. Problemas essenciais, que qualquer Governo de esquerda tinha que resolver, mas que este, com fama (já um pouco estafada) de corajoso nem se atreveu a tocar - Sócrates e os seus não mudam uma vírgula ao plano eterno da governação em Portugal: distribuir vantagens, à vez, à meia dúzia de poderosos ociosos que têm o país na mão. A rentrée do primeiro-ministro é, portanto, uma deprimente caricatura da violência irresponsável da política deste Governo. Sócrates, enquanto engorda as acumulações que explicam a "crise", renova a sua aposta de sempre no sub-emprego e na precariedade, recentemente sublinhada no "acordo" que obteve, com os suspeitos do costume, para a revisão do Código do Trabalho, mas agora com uma frontalidade sem precedentes: é preciso estar muito convencido de que as nossas expectativas são muito baixas para escolher o símbolo da precariedade em Portugal para falar em emprego. Os call-centers - destino cada vez mais frequente para quem tenta desesperadamente fugir ao desemprego - são depósitos de vidas exploradas e adiadas, contratadas eternamente por ETT, com salários muito baixos e nenhumas condições para a organização ou capacidade reivindicativa dos trabalhadores.

O que mais choca nesta operação é o descaramento, que pode fazer muito pela legitimação destes campos de concentração de precários. Sócrates, na passada 2ª feira, sabia que estava a celebrar a edificação de mais uma catedral da precariedade, uma prisão de alta segurança dos direitos dos trabalhadores. Não foi um equívoco. Embora pareça tosco associar os call-centers à "modernização da economia" ou ao "combate ao desemprego", a verdade é que o homem está convencido que o nosso desespero já não nos permite esperar melhor do que isso. O desafio talvez seja mostrar-lhe que queremos tudo o resto.

Tiago Gillot

 
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