A insegurança da esquerda criar PDF versão para impressão
25-Ago-2008
João Teixeira LopesA esquerda tem de ter soluções de curto e médio prazo, tanto para a violência social do Governo como para a violência social da delinquência, sem nunca esquecer como esta se produz e reproduz. As suas propostas, por serem alternativas, jamais aumentarão o Estado repressivo, mas terão de ajudar os cidadãos e cidadãs afectados (geralmente os mais pobres).

Quando existe insegurança a esquerda deve denunciar a raiz do fenómeno, desocultar as suas múltiplas causas (insegurança social e pessoal, políticas económicas, sociais e habitacionais; desemprego e precariedade; violência social...), desmistificando a gestão política dos medos que serve à direita populista para obrigar o Partido Socialista a investir no «mais Estado repressivo», mas, ao mesmo tempo, encarar o epifenómeno, o acontecimento, o que vem à superfície e fere as pessoas, causando efeitos objectivos.

Bem sei que o formato tablóide dos telejornais obriga a que registem, divulguem, comentem, adjectivem e ampliem qualquer evento de roubo, insegurança, violência, criando, inclusivamente, um sistema de classificações que manipula e deturpa. Mil olhos estão atentos e muito do que passaria despercebido noutro momento tem agora a atenção redobrada das redacções e das audiências. Estas, convenhamos, não são, no entanto, receptáculos em estado bruto: filtram, interpretam, atribuem significado. Não há inocentes.

O que dizer de um senhor, cuja voz (a figura aparecia em sombra, mas o timbre indicava ser ainda novo) lamentava, quase em lágrimas, o estado de sucata em que o seu carro ficou, depois de roubado por três jovens (entre os 18 e os 20 anos) que aproveitaram a viatura para digressões alcoólicas em tascas da região, polvilhadas de tumultos, para acabarem mortos, pouco tempo após, trucidados nesses ferros do carro em ruínas? Para o dono do carro, nem uma palavra sobre os mortos. Eram delinquentes, ponto. Roubaram-lhe e espatifaram-lhe o carro, ponto final. Eis que a viatura vale mais do que a vida. Poderia este jovem ser um operário qualificado de uma grande empresa da região que se endivida para comprar um carro, símbolo de mobilidade (geográfica e social), de autonomia e de prestígio (valor de signo)? Claro que poderia. E votar à esquerda? Eventualmente. E estar socialmente vulnerável, uma vez que a situação económica da sua empresa é frágil e paira a ameaça de deslocalização? Perfeitamente possível.

A esquerda tem de ter soluções de curto e médio prazo, tanto para a violência social do Governo como para a violência social da delinquência, sem nunca esquecer como esta se produz e reproduz. As suas propostas, por serem alternativas, jamais aumentarão o Estado repressivo, mas terão de ajudar os cidadãos e cidadãs afectados (geralmente os mais pobres). E espanta que pouco ou nenhum pensamento tenhamos sobre a matéria. A não ser que a polícia é um instrumento repressivo do Estado. Mas essa, convenhamos, apesar de verdadeira, é uma velha e estafada desculpa para não pensarmos nada, oferecendo de bandeja à direita o terreno do medo.

João Teixeira Lopes

 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >
© 2018 Esquerda.Net
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.