Afeganistão: bancos de areia na rota do presidente Obama criar PDF versão para impressão
29-Ago-2008
Immanuel Wallerstein Obama baseou a sua campanha e atraiu os eleitores americanos em grande parte devido à sua posição sobre a guerra do Iraque. Opôs-se-lhe publicamente desde 2002. Chamou-lhe uma guerra "parva". Votou contra o "surge" (o reforço de tropas). Chamou a uma retirada de todas as tropas de combate em 16 meses. Recusou-se a aceitar que era errado opor-se ao "surge". Ao mesmo tempo que fazia tudo isso, sempre argumentou que os Estados Unidos deviam fazer mais no Afeganistão. Isto inclui explicitamente enviar mais 10 mil soldados, e o mais cedo possível. Não parece pensar que a guerra lá também é, de certa forma, parva. Parece pensar que os Estados Unidos podem "vencer" essa guerra - com mais tropas e mais assistência da Nato. Quando for presidente, pode ter aí uma desagradável surpresa.

Obama faria bem em reflectir sobre a recente entrevista dada ao Le Monde por Gérard Chaliand. Chaliand é um importante geoestratega, especialista nas chamadas guerras irregulares. Conhece muitíssimo bem o Afeganistão, tendo estado lá muitas vezes nos últimos 30 anos. Passou muito tempo com os mujahedin durante a luta contra as tropas soviéticas nos anos 80. Passa actualmente muitos meses por ano em Cabul, no Centro para Estudos sobre Conflitos e Paz, do qual foi um dos fundadores.

Ele é muito claro sobre a situação militar. "É impossível a vitória no Afeganistão... Hoje, é preciso tentar negociar. Não há outra solução." Porquê? Porque os Taliban controlam os poderes locais em todo o Leste e Sul do país, onde prevalecem as populações pashtun. Duplicar o número de militares ocidentais, duplicar o tamanho do Exército governamental e gastar muito mais que os actuais 10% da ajuda económica externa pode mudar a situação. Mas Chaliand duvida, e eu também, que os Estados Unidos e a Nato estejam politicamente propensos a isso. O ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha já advertiu Obama para que não pressione o seu país a enviar mais tropas para combater os Taliban. Não que os Taliban possam vencer, diz Chaliand. O que existe, na verdade, é um "impasse militar". Os Taliban, que são politicamente astutos, estão pacientemente à espera até que o Ocidente "se canse de uma guerra que se arrasta".

Para vermos como os Estados Unidos se meteram neste beco sem saída, temos que regressar um pouco na história. Desde o século XIX, o Afeganistão tem sido o ponto focal do "grande jogo" entre a Rússia e a Grã-Bretanha (hoje sucedida pelos Estados Unidos). Ninguém jamais ganhou o controlo, a longo prazo, desta zona de trânsito crucial.

Hoje, o Afeganistão tem na sua fronteira um estado chamado Paquistão, com uma grande população pashtun precisamente na fronteira. O primeiro interesse geopolítico do Paquistão é ter um Afeganistão amigável, para que a Índia - e também a Rússia, os Estados Unidos e/ou o Irão - não o venham a dominar. O Paquistão apoiou de uma forma ou de outra a maioria pashtun, que hoje significa os Taliban. E não pretende deixar de fazê-lo.

Sob o presidente Carter, os Estados Unidos decidiram tentar expulsar um chamado governo comunista considerado muito próximo da Rússia. Sabemos hoje, depois que passou a haver acesso aos arquivos da administração Carter, e também através de uma famosa entrevista dada há dez anos por Zbigniew Brzezinski, então Conselheiro de Segurança Nacional de Carter, que o apoio dos EUA antecipou em pelo menos seis meses a invasão das tropas soviéticas. De facto, um dos objectivos era precisamente atrair a União Soviética a uma intervenção militar, na correcta suposição de que esta, em última instância, não atingiria o alvo e enfraqueceria o regime soviético em casa. Bravo! Foi isso mesmo que fez. Mas a política dos EUA também gerou, ao mesmo tempo, a Al-Qaeda e os Taliban - um caso clássico em que o tiro saiu pela culatra aos Estados Unidos. De qualquer forma, é o próprio Brzezinski que está a advertir Obama para não repetir o erro soviético.

Assim, Obama está a prometer hoje algo que não está em condições de cumprir. É sempre muito bom para ele receber o implícito aval do governo iraquiano para as suas propostas em relação ao Iraque. Está a obter grande sucesso por conta disso, e vai colher crédito do público dos EUA e do mundo. Mas pode desfazer esse crédito ao não conseguir cumprir uma promessa impossível sobre o Afeganistão. O seu grupo de 300 conselheiros não está a servi-lo bem nesta questão. Obama sabe ser prudente quando é necessário. Mas não está a ser nada prudente em relação ao Afeganistão.

1 de Agosto de 2008

Tradução de Luis Leiria


 
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