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05-Set-2008
Jorge CostaA um ano das eleições, o tema da futura maioria começa a povoar os discursos. Não é assunto cativante: muitos têm mais com que se preocupar. Mas, atrás do politiquês, estão as verdadeiras opções.

Nunca foi tão baixa a cotação do apelo à maioria absoluta. Sócrates governa há três anos sob aplauso da maioria dos deputados. No parlamento, ninguém pode obrigar o PS a aplicar a receita liberal. Sócrates aplica-a porque essa é a sua escolha. É isso que tem revoltado muitos daqueles que o elegeram esperando uma viragem política.

Perante o descontentamento à esquerda e o protesto social, o PS já se lança na tentativa de fabricar um voto útil, em nome da "estabilidade". Mas a pergunta é: se uma maioria absoluta falhou no essencial e fez tão mal a tanta gente, porque haveríamos de pedir mais desta "estabilidade"?

À direita, ninguém acredita em ganhar. Mas Marcelo Rebelo de Sousa já reduziu a maioria absoluta uma questão de decibéis: se o PS apela, o PSD tem de apelar também.

Por detrás dos apelos cacofónicos a maiorias absolutas que ninguém deseja, está a verdade da disputa da relação de forças entre dois partidos, o PS e o PSD, profundamente identificados com o essencial da estratégia patronal para o país. Manuela Ferreira Leite é a esfinge da "boa moeda" de Cavaco, a direita respeitável e orgânica, que a elite nacional não encontrou em Santana Lopes. José Sócrates é o primeiro-ministro a quem as confederações empresariais não poupam elogios. Ainda há pouco, a propósito do Código de Trabalho, Francisco Van Zeller sublinhava que "os governos de direita são mais tímidos no que respeita a relações de trabalho. O ministro Vieira da Silva soube muito bem até onde podia ir".

O PSD e o PS são a maioria absoluta que conduz a liberalização em Portugal. Este é um consenso ao centro que protege a "estabilidade" do projecto da classe dominante. Mesmo que o PS não tenha metade dos deputados, este consenso radical não deixará de ser hegemónico em 2009. Quem poderá "precisar do Bloco", como se vem escrevendo, não é José Sócrates. Pelo contrário: uma política socialista forte, uma esquerda de combate pelos direitos sociais e democráticos, é indispensável a uma alternativa à civilização da crise e da austeridade. Tal política só pode viver em antagonismo com a pilhagem do país organizada por uma burguesia parasitária e rentista. Nas eleições, essa política não tem maioria. Mas é absolutamente necessária.

Jorge Costa

 
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