De Espanha... bons ventos (e até já lá têm os bons casamentos...) criar PDF versão para impressão
07-Set-2008
bruno_maia.jpgDo Estado Espanhol chegam-nos novidades: o Governo prepara uma nova lei do aborto. Uma nova lei que acabe com as desigualdades no acesso à IVG entre as mulheres Espanholas e que ponha termo à perseguição que algumas autoridades locais lançaram a mulheres e clínicas nos últimos meses.

Espanha foi, durante algumas décadas, o refúgio para muitas mulheres Portuguesas que queriam interromper a gravidez e que podiam pagar o acto. Curiosamente num país onde a lei era muito semelhante à nossa lei antiga! Mas há uma diferença: ela é aplicada de maneira diferente - com alguma parcimónia do Estado e, sobretudo, usando os instrumentos da própria legislação que permite a realização IVG quando a gravidez coloca em causa o bem-estar físico e psicológico da mulher. Dois países vizinhos, com duas aplicações diferentes para uma lei semelhante.

De qualquer das formas, isto pertence ao passado. A necessidade que o Governo Espanhol sente actualmente em mudar de raiz a regulação legal do aborto só prova uma coisa: a lei que tínhamos não era passível de ser reformada. Durante a campanha do referendo de 2007, os partidários do "Não" defendiam que era possível manter a lei antiga, reformando-a, prevenindo assim aquilo que mais chocava os Portugueses na altura: a prisão de mulheres que abortavam. Mas essa não era uma boa solução. E Zapatero percebe agora o porquê!

Por cá, já decorridos mais de 1 ano desde a aplicação da lei, levantam-se outras questões. Os activistas que se auto-designam "pró-vida" continuam no activo - têm convocado vigílias à porta de hospitais públicos e da Clínica dos Arcos em Lisboa, em protesto contra as mulheres que abortam. Colocam-se à saída destes locais, por onde diariamente saem mulheres que acabaram de interromper uma gravidez, para logo as acusarem de algo monstruoso que estas não cometeram.

Ainda me recordo da preocupação que os movimentos do "Não" tinham pelas mulheres, durante a campanha do referendo - queriam protegê-las e oferecerem-lhes todas as condições e mais algumas para serem "boas mães". Agora mudaram radicalmente de estratégia - já não querem defender as mulheres, preferem submetê-las à violência de uma vigília em que estas são as principais criminosas! Como se não bastasse a gravidez indesejada, como se já tivessem de se submeter a um processo médico, agora ainda correm o risco de serem vilipendiadas na rua, por uma qualquer massa de gente que as acusam do pior!

Tanto cuidado com as mulheres, tantas associações em que investiam para ajudar na maternidade... Afinal, percebemos agora, não passavam de areia para olhos que se recusavam olhar em frente. O que lhes interessava mesmo era que o Estado perseguisse estas mulheres. E quando a maioria dos Portugueses recusou essa perseguição, eles assumem este papel e perseguem-nas eles mesmos, à porta das clínicas.

Senhores e senhoras do "Não", já perderam o referendo há mais de 1 ano. Deixem estas mulheres em paz porque as suas preocupações são infinitamente maiores do que o vosso próprio umbigo!

Bruno Maia

 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >
© 2019 Esquerda.Net
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.