Pedroso e a esquerda socialista criar PDF versão para impressão
14-Set-2008
João DelgadoNão se têm ouvido novas de Ferro Rodrigues, mas emparelhando estas declarações de Pedroso com as políticas neo-liberais e desreguladoras do trabalho patrocinadas por outro proeminente membro da "ala esquerda" do PS, Vieira da Silva, parece que será prudente esperar sentado até que alguém vá ao sótão do Largo do Rato procurar a famigerada gaveta onde Soares terá depositado o socialismo.

Paulo Pedroso decidiu assinalar o seu regresso à vida política com uma entrevista de fundo à TSF. Até aqui nada de notável a assinalar, até porque está decididamente longe do escopo destas linhas aflorar sequer as razões da prolongada ausência, ou as circunstâncias do regresso.

Clarificadas as razões que não me motivam a pena, vamos então às que me provocam pena, e que estão no conteúdo político de duas particulares passagens da entrevista de Pedroso.

Em primeiro lugar, o registo de que, questionado sobre a possibilidade de o PS vir a perder a maioria absoluta em 2009, Pedroso considerou não ser possível governar em minoria, recordando a experiência de Guterres, em que participou como secretário de estado e depois ministro.

Para o socialista, o problema é simples, BE e PCP recusam-se a entender o programa do PS e, portanto, a opção que resta é refazer o bloco central com o PSD, sendo legítimo e obrigatório inferir daqui que Pedroso considera que os social-democratas, de Ferreira Leite, entendem bem o programa e a acção do governo Sócrates.

Para que os ouvintes não pensassem que Pedroso abandonara convicções, o ex-delfim de Ferro Rodrigues (segundo a opinião publicada) logo fez questão de reafirmar pertencer à ala esquerda do PS. E para que não subsistissem dúvidas, respondeu lesto à questão seguinte de Teresa Dias Mendes, sobre a eventual necessidade de o PS introduzir na sua prática governativa mais medidas de esquerda. Pois claro que sim, empolgou-se Pedroso, logo alvitrando a procriação medicamente assistida alargada a mulheres sós e o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Como assim? Iria Pedroso de seguida falar do código do trabalho, do combate à precariedade, ele que ganhou galões como "expert" em questões laborais? Não, Pedroso sabe bem porque parou naqueles dois temas, Pedroso sabe bem que as questões de progresso (ou civilizacionais, se quiserem) não são aquelas que traçam a linha entre direita e esquerda, como bem comprovou o referendo para a despenalização do aborto, que convocou - e bem - para o lado do Sim gente do PSD e até do PP.

Não se têm ouvido novas de Ferro Rodrigues, mas emparelhando estas declarações de Pedroso com as políticas neo-liberais e desreguladoras do trabalho patrocinadas por outro proeminente membro da "ala esquerda" do PS, Vieira da Silva, parece que será prudente esperar sentado até que alguém vá ao sótão do Largo do Rato procurar a famigerada gaveta onde Soares terá depositado o socialismo.

E já nem discuto aqui o que de facto o patriarca do PS colocou na gaveta, porque o espaço é curto... e o tempo é de acção e luta, contra Sócrates e a precariedade!

João Delgado

 
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