Crise financeira sem fim à vista? criar PDF versão para impressão
14-Set-2008
Nuno TelesSe bem que estas notícias sejam, na sua maioria, originárias dos EUA, é paradoxal que seja a Europa a região mais afectada com a actual crise. Segundo as últimas estimativas a Zona Euro crescerá 1,3% este ano contra 1,6% nos EUA. A explicação para este assimétrico impacto reside nas diferentes políticas públicas dos dois blocos económicos.

Graças à agitação dos mercados financeiros internacionais aprendemos, ao longo do último ano, o nome de alguns dos gigantes globais destes mercados. Merryl Linch, CityGroup, UBS, Bear and Sterns, Societé Generale são algumas das mega instituições a ocupar quotidianamente as páginas dos jornais devido aos prejuízos sofridos com a crise que se instalou desde Agosto do ano passado. Infelizmente, é hoje claro que a vertigem e irresponsabilidade do comportamento destes agentes nos últimos anos - avalizadas pelos poderes públicos, depois de décadas de liberalização, desregulamentação e privatização nos mercados financeiros - não afectam só os seus accionistas e trabalhadores. O racionamento do crédito nos mercados financeiros traduziu-se numa abrupta desaceleração da economia global a que poucos países escapam e que já bem sentimos no nosso dia-a-dia, seja no aumento do desemprego ou no galopante valor das prestações dos créditos imobiliários.

No entanto, um ano depois, estamos longe de poder afirmar que o pior já passou. O mercado imobiliário norte-americano continua em crise. Os preços da habitação caem mês após mês e o número de familias em dificuldade nos pagamentos das suas prestações não pára de crescer. Assim, nos últimos dias assistimos à nacionalização de facto - com um custo de alguns milhares de milhões de dólares - das sociedades de crédito hipotecário Fannie Mae e Freddie Mac, duas agências que, em conjunto, asseguram 80% das hipotecas imobiliárias norte-americanas. Entendidas como garantes de todo o sistema de crédito imobiliário, a falência destas agências abriria as portas a uma autêntica catástrofe nos mercados financeiros. Contudo, quando ainda procurávamos perceber as implicações desta decisão do Tesouro norte-americano, logo fomos informados de mais uma grande instituição financeira em risco de colapso: o banco de investimento norte-americano Lehman Brothers. Mais vítimas neste massacre financeiro internacional se avistam no futuro próximo. Segundo a revista The Economist de 30 de Agosto, o número de bancos comerciais norte-americanos em situação periclitante tem vindo a crescer, totalizando já o preocupante número de 117 bancos sob atenta vigilância pelo poder público.

Se bem que estas notícias sejam, na sua maioria, originárias dos EUA, é paradoxal que seja a Europa a região mais afectada com a actual crise. Segundo as últimas estimativas a Zona Euro crescerá 1,3% este ano contra 1,6% nos EUA. A explicação para este assimétrico impacto reside nas diferentes políticas públicas dos dois blocos económicos. Enquanto nos EUA, o Federal Reserve baixou consecutivamente as suas taxas directoras e o Governo promoveu um conjunto de medidas de estímulo da economia real, o Banco Central Europeu permanece inabalável na manutenção das suas taxas directoras - em nome do combate à inflação - ao mesmo tempo que os diferentes Governos se encontram sob os austeros e discricionários limites do Pacto de Estabilidade e Crescimento. Entretanto, o BCE já anunciou uma redução das injecções de liquidez que têm mantido o sistema financeiro europeu à tona. É, pois, urgente uma viragem na política económica europeia.

Nuno Teles

Co-autor do Blogue Ladrões de bicicletas

 
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