“A Bolívia corre um risco grave de jugoslavização” criar PDF versão para impressão
15-Set-2008
Membros da União juvenil crucenhista, que se tem destacado nos massacres de apoiantes de Evo MoralesPara o sociólogo Eduardo Paz Rada, a elite do oriente, apoiada pela embaixada dos EUA e contando com grupos armados contratados por latifundiários bolivianos, brasileiros e norte-americanos, está a agir para promover a divisão do país.
Artigo de Igor Ojeda, correspondente do Brasil de Fato em La Paz (Bolívia).

 

"Os sectores das oligarquias do oriente boliviano não estão somente a reagir contra o processo de transformações que o governo Evo Morales está implementando e que afecta directamente seus interesses - sobretudo no manejo da terra e dos excedentes procedentes do gás -, como agora estão em uma clara ofensiva destinada a promover a divisão da Bolívia, com o argumento das autonomias", analisa o sociólogo Eduardo Paz Rada, da Universidad Mayor de San Andrés (UMSA).

 

Segundo ele, tais acções estão vinculadas à estratégia do imperialismo americano de provocar uma crise regional e tentar travar os processos revolucionários e reformistas nos países da região. Há cerca de três semanas, os governadores opositores de Santa Cruz, Tarija, Beni e Pando vêm promovendo, ao lado de comités cívicos regionais, formados principalmente por empresários, a tomada de controlo de instituições estatais nos departamentos (estados). A justificativa deles é a pressão pela devolução do montante do imposto sobre o gás destinado às regiões que foi cortado em parte pela gestão Evo, para financiar uma bolsa aos idosos.

 

Para Rada, o governo do presidente Evo Morales, ao não haver adoptado medidas há vários meses contra tal arremetida, encontra-se agora em grandes dificuldades. "O país corre um risco grave de jugoslavização e fragmentação devido ao facto de que as oligarquias do oriente, apoiadas pela embaixada dos Estados Unidos, possui grupos armados, contratados especialmente por proprietários de terras bolivianos, brasileiros e norte-americanos", diz. O termo "jugoslavização" é uma referência à desintegração da então Jugoslávia em vários países a partir da década de 90.

 

Ainda segundo o sociólogo, o Executivo deve tomar medidas urgentes com acção directa das Forças Armadas, a Polícia Nacional e os movimentos sociais. "Seja através do estado de sítio, ou de acções fundadas na lei e na Constituição, o governo deve actuar rapidamente e com energia, sobretudo para travar desde agora mesmo o controle territorial dos sectores das oligarquias regionais".

 

Estado de sítio

Desde que as mobilizações da oposição tiveram início, as Forças Armadas e a polícia vêm evitando actuar com mais energia. Em muitos dos casos, os militares e policiais que resguardavam as entidades foram obrigados a se retirar, diante do forte assédio dos manifestantes. No entanto, nesta sexta-feira (12), a entidade militar confirmou o deslocamento de soldados às regiões em conflito e afirmou que aguarda uma ordem escrita por Evo Morales para recuperar as instituições públicas e reprimir os grupos de "vândalos ou radicais". Já o presidente disse sentir-se culpado pelas humilhações sofridas pelo exército e pela polícia, já que foi ele quem pediu para que não fossem usadas armas de fogo.

 

No mesmo dia, o governo decretou o estado de sítio no departamento de Pando, devido à morte, oficialmente, de oito pessoas (sete delas camponeses apoiantes de Evo) em enfrentamento com funcionários do governo departamental em El Porvenir.

O Executivo, defensores de direitos humanos e camponeses chamam o ocorrido de "massacre" e acusam o governador Leopoldo Fernández de ter armado os funcionários e ter contratado mercenários peruanos e brasileiros para impedir que os apoiantes de Evo chegassem à capital Cobija, a 30 km do local das mortes, que podem aumentar, já que 35 camponeses ainda estão desaparecidos.

 

Já Fernández nega as acusações, afirma que não acatará o estado de sítio e desautorizou o governador de Tarija, Mario Cossío, a representá-lo no diálogo com o Executivo, iniciado na sexta-feira.

 

Em Cobija, um soldado morreu, vítima de um disparo por arma de fogo, e seis civis ficaram feridos à bala na retomada pelo exército do aeroporto Capitán Anibal Arab, que estava em controlo dos opositores desde o dia 5. Segundo alguns relatos, os militares ingressaram no local atirando para o ar, e foram recebidos com disparos de metralhadoras.

 

Movimentos reagem

Enquanto isso, teve início, na noite de sexta-feira, um diálogo entre governo e oposição, representada por Mario Cossío. Depois de mais de oito horas de reunião, foram acordadas as bases das negociações, que serão retomadas no domingo (14). Mesmo assim, os movimentos sociais do país acentuaram as suas acções em retaliação às medidas de pressão dos opositores.

No dia 10, cultivadores de folha de coca do Chapare, no centro da Bolívia, iniciaram um cerco a Santa Cruz de la Sierra, com fecho de estradas. Desde então, os pontos de bloqueio vêm aumentando. No dia 11, Eugenio Rojas, presidente da Câmara da cidade de Achacachi, no ocidente do país, e líder do movimento indígena "poncho rojos", declarou estado de emergência nas filas camponesas e ameaçou a tomada de terras e fábricas no oriente.

 

Outros dirigentes sociais, separadamente, afirmaram que retomarão as instituições públicas controladas pela oposição e defenderão o governo Evo, se necessário, com as suas vidas.

 

Na quinta-feira à noite, a Federação Nacional de Cooperativas Mineradoras (Fencomin) havia dado um prazo de 72 horas aos governadores da oposição para que estes retomassem o diálogo com o Executivo. "Caso contrário, as cooperativas mineradoras se mobilizarão a nível nacional em defesa da democracia em liberdade, da igualdade social e da unidade do país. Se eles exigem nosso sangue, nós vamos oferecê-lo mais uma vez para o benefício de todo o povo boliviano", diz o comunicado da entidade.

 

"Considero necessário que se combinem a acção das instituições militares com a mobilização popular, especialmente para apoiar os sectores afins ao governo que se encontram combatendo no seio mesmo do conflito em Santa Cruz, Pando, Beni e Tarija. Parece, a esta altura da situação, que não se poderá evitar o enfrentamento directo e de grande dimensão, e que já prevíamos que se desataria pela decisão das classes dominantes de não perder os seus privilégios e o poder económico e político", opina o sociólogo Eduardo Paz Rada.

 

Em Santa Cruz de la Sierra, os dirigentes da Confederação de Povos Indígenas do Oriente (Cidob) se declararam na clandestinidade, em virtude da perseguição que estão a sofrer por grupos opositores a Evo Morales.

 

Na tarde de quinta-feira, integrantes da União Juvenil Crucenhista (UJC) invadiram e saquearam a sede da Cidob, e atacaram as casas de seus líderes. "Queremos denunciar ao mundo que o governador Rubén Costas quer massacrar os indígenas que, até o momento, não responderam a nenhuma das suas provocações", disse Adolfo Chávez, presidente da organização.

 

"Conspiração"
E, em meio à polémica da expulsão do embaixador dos EUA em La Paz, Philip Goldberg, o ministro da Presidência boliviano, Juan Ramón Quintana, acusou a USAID (agência estadunidense de apoio ao desenvolvimento) de contratar políticos neoliberais dos governos anteriores para desestabilizarem a gestão do presidente Evo Morales, principalmente com o apoio à oposição regional.

 

"A USAID se converteu em refúgio político e económico de todos aqueles funcionários do mais alto nível de Goni [Gonzalo Sánchez de Lozada] e Carlos Mesa. Portanto, estes funcionários, com a informação do Estado, fizeram um complot, durante todo esse tempo, contra o governo nacional", disse.

 

Quintana detalhou a denúncia: de acordo com ele, Carlos Campero, ex-funcionário de Lozada, passou a trabalhar no escritório encarregado em temas de descentralização da entidade norte-americana. "Sector que trabalhou em projectos de apoio nos governos departamentais da oposição".

 

Além de Campero, teriam sido contratados pela USAID Javier Cuevas, ex-ministro da Fazenda de Lozada e Mesa; Javier Rebollo, ex-director geral do Tesouro Nacional; José Nogales, ex-vice-ministro de Política Tributária de Lozada e Mesa; e Juan Brun, ex-director do Instituto Nacional de Reforma Agrária no governo Lozada.

 

O ministro da Presidência fez a denúncia ao justificar a expulsão do país do embaixador dos EUA, por conspiração contra o governo e a unidade boliviana. Segundo Quintana, um dos resultados da actuação do diplomata "estamos a experimentar agora, com a violência e o enfrentamento nos departamentos de Santa Cruz, Pando, Beni e Tarija, parte da estrutura conspirativa montada com os recursos da USAID na Bolívia, sobre a qual nem o embaixador soube explicar".

 
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