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14-Out-2006
AVALIAR, É POSSÍVEL?
professorquadro"Abramos as portas e dêmos corda aos relógios. É boa altura para exigir o reconhecimento social da forma como trabalhamos, como nos vemos e como nos sentimos", diz Cecília Honório neste artigo sobre a polémica questão da avaliação dos professores.

Avaliar, é preciso?

Por Cecília Honório, professora e deputada do Bloco de Esquerda

A voz da marcha d@s professores na rua foi a voz do silêncio que se vive em muitas escolas.
O silêncio estrangulado de uma proposta de carreira onde não se vê futuro, o silêncio da raiva perante uma campanha de difamação destinada a dividir para reinar, o silêncio da indignação face ao policiamento das faltas, o silêncio nauseado perante alguns poderes que correm mais céleres que a ministra na aplicação do que ainda não existe.

A voz de muitos silêncios esteve na rua no dia em que a República devia assumir que sabe o que quer para a escola, e não sabe.

A ministra mandou @s professores ler o "estatuto" e já encheu os olhos da opinião pública com a Avaliação. Medir o mérito, valorizar o mérito. E parte do mérito desta opinocracia é bluff.

A avaliação de desempenho centrada nas escolas, que a ministra propõe, não é a condição de aferição da qualidade. A avaliação refém dos pares mais próximos, nos actuais contextos, é naturalmente formativa e a esperar-se outra tradução do modelo só apostando na sua exterioridade e independência.

Tudo pode acontecer com a avaliação de desempenho, para além do entupimento das escolas de dois em dois anos. Ou as rotinas actuais se perpetuam, porque quanto mais formatadas e normalizadas as práticas mais elas se desregulam onde podem, quanto mais papéis se preenchem mais as pessoas fazem o que lhes apetece, para o bem e para o mal, e a sala de aula continua a ser um pequeno reino. Ou os amigos dos poderes instalados são para as ocasiões ou os evocados princípios de avaliação para a Administração Pública vão conduzir a que a excelência seja atribuída apenas aos professores e professoras que dão aulas das 8.30 às 15.30, vão à reunião das 15.30 às 17.30, frequentam a formação em horário pós laboral das 18.30 às 20.30, preparam aulas e corrigem testes depois do jantar para poderem fazer as visitas de estudo ao fim-de-semana. Tudo pode acontecer.

Certo mesmo é o estrangulamento proposto no modelo de progressão, que fracciona a carreira em duas, desvaloriza o trabalho com os alunos como centralidade da profissão ao colocar a gestão intermédia nas mãos de uma casta seleccionada pelo tempo que, por sua vez, fiscalizará os "outros". Os ministérios, indiferentes às exigências da formação inicial, em nome da autonomia que abusivamente enche a boca de meio mundo, passam a bola para a escola e para a casta.

A qualidade não tem funil.

Posto isto, será altura de procurar debater, com seriedade, a avaliação d@s professores? Passar ao lado não é a melhor maneira de deixar passar a guilhotina da ministra? Não levamos tod@s por tabela, aos olhos da nação e do poder, por conta de uma carreira que "não se mostra"?

Num recente debate sobre educação, tive a oportunidade de ouvir uma presidente de conselho executivo asseverar ter ultrapassado parte do insucesso na sua escola atribuindo as turmas com mais problemas aos melhores professores. Cá está uma boa prática. Perguntei-lhe, então, como é que os valorizava. Não respondeu, porque não há resposta.

O/A professor/a que, numa escola, escolhe trabalhar com turmas de contextos desfavorecidos não é igual ao que escolhe as melhores turmas. O professor que trabalha em escolas de contextos desfavorecidos não tem o mesmo trabalho, nem enfrenta os mesmos problemas, do que está colocado em escolas de contextos mais favorecidos. À professora que tem mais níveis de ensino e mais turmas é exigido mais do que à que tem menos turmas e menos níveis. O professor que investiga para preparar as suas aulas não é igual ao que dá aulas a ler o manual e a mandar sublinhar. A professora que respeita as crianças e os jovens que tem pela frente e que sabe que, nesta profissão, os afectos fazem milagres, não é igual à que não sabe nem quer saber. O professor que não se esqueceu que é um agente intelectual não é igual aos que se revê feliz e contente nas mangas-de-alpaca da cultura burocrática que se instalou nas escolas e que é a melhor amiga dos silêncios.

Dir-se-á que esta é uma profissão de muita invisibilidade, que o essencial se passa à porta fechada, que não há mercadorias visíveis nas pautas, que não há relógio que contabilize as noites ou os fins-de-semana que os fazedores de opinião e o ministério acham que os professores dedicam ao lazer e que elas e eles, realmente e com a porta da sua casa fechada, dedicam à escola e aos alunos.

Abramos as portas e dêmos corda aos relógios. É boa altura para exigir o reconhecimento social da forma como trabalhamos, como nos vemos e como nos sentimos.

 
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