Algumas coisas que os média não dizem sobre a crise nos EUA, por Michael Moore criar PDF versão para impressão
02-Out-2008
Michael MooreO cineasta Michael Moore conta como centenas de milhares de pessoas entupiram os telefones e correios electrónicos dos congressistas dos EUA contra a lei proposta pelo governo Bush para salvar os bancos em crise. E aponta como Wall Street e o seu braço mediático (as redes de TV e outros meios) prosseguem a estratégia de atemorizar a população.
Artigo traduzido por Carta Maior.

Tradução do artigo de Michael Moore publicado no jornal Página 12:

Querem nos meter medo

Todos diziam que a lei seria aprovada. Os especialistas do universo já estavam a fazer reservas para celebrar nos melhores restaurantes de Manhattan. Os compradores particulares em Dallas e Atlanta foram despachados para fazer as primeiras compras de Natal. Os homens loucos de Chicago e Miami já estavam a abrir as garrafas e a brindar entre eles muito antes do café da manhã.

Mas o que não sabiam era que centenas de milhares de norte-americanos tinham acordado pela manhã e decidido que era tempo de se rebelarem. Milhares de chamadas telefónicas e correios electrónicos golpearam o Congresso tão forte como se Marshall Dillon (Comissário Dillon, personagem de uma série de televisão) e Elliot Ness tivessem descido em Washington D.C. para deter os saques e prender os ladrões.

A Corporação do Crime do Século foi detida por 228 votos contra 205. Foi um acontecimento raro e histórico. Ninguém se conseguia lembrar de um momento onde uma lei apoiada pelo presidente e pelas lideranças de ambos os partidos fosse derrotada. Isso nunca acontece. Muita gente está-se a perguntar por que a ala direita do Partido Republicano se uniu à ala esquerda do Partido Democrata para votar contra o roubo. Quarenta por cento dos democratas e dois terços dos republicanos votaram contra a lei.

Eis o que aconteceu:

A corrida presidencial pode estar ainda muito semelhante nas sondagens, mas as corridas no Congresso estão a assinalar uma vitória esmagadora dos democratas. Poucos questionam a previsão de que os republicanos receberão uma surra no dia 4 de Novembro. As previsões indicam que os republicanos perderão cerca de 30 cadeiras na Câmara de Representantes, o que representaria um incrível repúdio à sua agenda. Os representantes do governo têm tanto medo de perder os seus assentos que, quando apareceu esta "crise financeira" há duas semanas, deram-se conta que estavam diante da sua única oportunidade de separar-se de Bush antes da eleição, fazendo algo que fizesse parecer que estavam do lado da "gente".

Estava a ver ontem C-Span, uma das melhores comédias que assisti em anos. Ali estavam, um republicano depois do outro que apoiaram a guerra e afundaram o país numa dívida recorde, que tinham votado para matar qualquer regulação que mantivesse Wall Street sob controlo - ali estavam, a lamentar-se e a defender o pobre homem comum. Um depois do outro, usaram o microfone da Câmara baixa e atiraram Bush para debaixo do autocarro, para a linha do comboio (ainda que tenham votado para retirar os subsídios aos comboios também), diabos, teriam atirado o presidente nas águas crescentes de Lower Ninth Ward (bairro de Nova Orleans) se pudessem prever outro furacão.

Os valentes 95 democratas que romperam com Barney Frank e Chris Dodd eram os verdadeiros heróis, do mesmo modo como aqueles poucos que votaram contra a guerra em Outubro de 2002. Reparem nos comentários dos republicanos Marcy Kaptur, Sheila Jackson Lee e Dennis Kucinich. Disseram a verdade. Os democratas que votaram a favor do pacote fizeram-no em grande parte porque estavam temerosos das ameaças de Wall Street, que se os ricos não recebessem a sua dádiva, os mercados enlouqueceriam e então adeus às pensões que dependem das acções e adeus aos fundos de aposentadoria. E adivinhem? Isso é exactamente o que fez Wall Street! A maior queda num único dia no índice Dow da Bolsa de Valores de Nova York.

À noite, os apresentadores de televisão gritavam: os norte-americanos acabaram de perder 1,2 mil milhões de dólares na Bolsa! É o Pearl Harbour financeiro! Caiu o céu! Gripe aviaria! Obviamente, quem conhece a bolsa sabe que ninguém "perdeu" nada ontem, que os valores sobem e baixam e que isso também acontecerá porque os ricos compraram agora que estão em baixo, os segurarão, depois os venderão e logo em seguida os comprarão novamente quando estiverem baixos de novo. Mas, por enquanto, Wall Street e o seu braço de propaganda (as redes de TV e os meios de comunicação que possuem) continuarão a tratar de nos meter medo. Algumas pessoas perderão os seus empregos. Uma débil nação de fantoches não suportará muito tempo esta tortura. Ou poderemos suportar?

Eis no que acredito: a liderança democrata na Câmara baixa esperava secretamente todo o tempo que esta péssima lei fracassasse. Com as propostas de Bush derrotadas, os democratas sabiam que poderiam então escrever a sua própria lei que não favoreça apenas os 10% mais ricos que estavam à espera de outro lingote de ouro. De modo que a bola está nas mãos da oposição. O revólver de Wall Street, porém, aponta para as suas cabeças. Antes que dêem o próximo passo, deixem-me dizer o que os meios de comunicação silenciaram enquanto se debatida esta lei:

1. A lei de resgate NÃO prevê recursos para o chamado grupo de supervisão que deve monitorar como Wall Street vai gastar os 700 mil milhões de dólares;

2. A lei NÃO considerava multas, sanções ou prisão para nenhum executivo que roubar dinheiro público;

3. A lei NÃO fez nada para obrigar os bancos e os fundos de empréstimo a renovar as hipotecas do povo para evitar execuções. Esta lei não deteria uma sequer execução!

4. Em toda a legislação NÃO havia nada executável, usando palavras como "sugerido" quando se referiam à devolução do dinheiro do resgate a ser feito pelo governo.

5. Mais de 200 economistas escreveram ao Congresso e disseram que esta lei poderia piorar a crise financeira e provocar ainda MAIS uma queda.

É hora de nosso lado estabelecer claramente as leis que queremos aprovar.

Tradução para o espanhol: Celita Doyhambéhére

Tradução para o português: Marco Aurélio Weissheimer

 
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