A dupla crise europeia: financeira e democrática criar PDF versão para impressão
07-Out-2008
Eu quero a tua massa para salvar os "golden boys" A crise financeira atingiu a Europa, apesar dos discursos que, desde há um ano, pretendiam tranquilizar, mas que revelavam uma total cegueira sobre as suas causas e amplitude. A integração financeira atingiu um tal grau que todos os bancos e instituições financeiras foram envolvidos na bolha imobiliária e participaram na especulação sobre títulos hipotecários. A economia real é agora afectada, pois vários países membros da UE entraram em recessão.
Artigo publicado por Attac França.

O Benelux e a França foram obrigados a nacionalizar de urgência os bancos Fortis e Dexia. Mas os dirigentes europeus finalmente compreendem que isso não vai chegar para colmatar os buracos. Os senhores Trichet, Junker e o presidente em exercício da UE, Sarkozy, apelaram ao estabelecimento de um plano conjunto. De imediato, as contradições da Europa política actual irromperam à luz do dia. A senhora Merkel opôs-se ao projecto. A ausência de coordenação conduz o Reino Unido a garantir uma parte dos depósitos bancários, enquanto que a Irlanda anuncia a sua intenção de garantir a totalidade dos depósitos somente dos bancos irlandeses.

Chegou o momento em que é posto a nu o impasse da construção europeia neoliberal. Tendo inscrito o princípio da livre circulação dos capitais em todos os tratados europeus e tendo desregulado e liberalizado sistematicamente, a UE criou as condições para ser plenamente atingida pela tempestade financeira.

Por outro lado, tendo feito da UE uma construção não democrática, confiada a um exército de políticos e tecnocratas enfeudados à ideologia do mercado e incapazes de pensar de outra maneira que não seja em termos de concorrência de mercados e nunca em termos de cooperação entre povos, nenhuma autoridade política democrática está hoje capaz de evitar a mais grave crise desde o período entre as duas guerras mundiais.

Eis pois a dupla crise: porque a UE foi inserida no gigantesco Maelstrom1 da financiarização mundial e porque é uma entidade não democrática, ela está hoje em crise.

A associação Attac, que foi acusada de actuar como uma Cassandra2, tanto contra a mundialização liberal como contra os tratados europeus anti-democráticos, reitera de novo a urgente necessidade de pôr fim à lógica financeira. Apela a todos os cidadãos, nestes dias em que se manifestam todos os perigos para a economia, a sociedade e a democracia, para se mobilizarem para que sejam aplicadas de imediato medidas que impeçam o retorno das crises, e em especial para que lutem por uma nova partilha da riqueza a favor dos assalariados e não dos accionistas:

  • regresso ao sector público dos principais pólos do sector bancário da UE;

  • limitação drástica dos fluxos de capitais pela taxação das transacções financeiras;

  • Encerramento urgente dos paraísos fiscais e dos mercados de futuros até que se aplique um controlo mais restrito;

  • impostos muito progressivos sobre os rendimentos do capital para que sejam os especuladores a pagar;

  • cessação das reformas ditas estruturais do mercado de trabalho, da protecção social, recuo na privatização dos serviços públicos;

  • acção da UE para que se realize uma conferência internacional sob a égide da ONU e não do G8.

A 15 de Outubro, todas as Attac da Europa tornarão públicas o conjunto das suas propostas para sair da crise.

1 Maelstrom, termo de origem escandinava que significa poderoso remoinho de água. (NT)

2 Cassandra, pessoa que prediz com insistência desgraças ou situações indesejáveis, termo com origem na mitologia grega.(NT)

Tradução de Carlos Santos

 
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