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02-Out-2008
naomi_klein.jpgAs dívidas maciças que o público está a acumular para socorrer os especuladores vão tornar-se parte de uma crise orçamentária global que vai ser usada para justificar cortes profundos nos programas sociais, além de uma investida renovada para privatizar o que restou do sector público.
Seja qual for o significado dos acontecimentos das últimas semanas, ninguém deve acreditar nas declarações exageradas de que a crise do mercado assinala a morte da ideologia do "livre mercado".

A ideologia do livre mercado sempre esteve ao serviço dos interesses do capital, e a sua presença avança e recua, dependendo da utilidade que tem para esses interesses.

Em épocas de crescimento, pregar o "laissez-faire" é rentável, porque um governo ausente permite o crescimento de bolhas especulativas. Quando essas bolhas estouram, a ideologia torna-se um empecilho e entra em estado dormente, enquanto o grande governo parte em missão de salvamento.

Mas podemos ter a certeza de que a ideologia vai regressar com força total assim que os planos de socorro tiverem sido aplicados.

As dívidas maciças que o público está a acumular para socorrer os especuladores vão, então, tornar-se parte de uma crise orçamentária global que vai ser usada para justificar cortes profundos nos programas sociais, além de uma investida renovada para privatizar o que restou do sector público.

Também vão dizer-nos que, infelizmente, as nossas esperanças de um futuro verde são demasiado onerosas.

Reacção imprevisível

O que não sabemos é como o público vai reagir. Vale lembrar que todos os que têm menos de 40 anos nos EUA cresceram a ouvir que o governo não pode intervir para melhorar as nossas vidas, que o governo é o problema, não a solução, que o "laissez-faire" é a única opção.

Agora, repentinamente, vemo-nos diante de um governo extremamente activo, intensamente intervencionista, aparentemente disposto a fazer o que for preciso para salvar os investidores deles mesmos.

Esse espectáculo necessariamente levanta uma pergunta: se o Estado pode intervir para salvar grandes corporações que assumiram riscos insensatos nos mercados imobiliários habitacionais, por que não pode intervir para salvar milhões de americanos do risco iminente de perderem as suas casas devido à execução de suas hipotecas?

Se 85 mil milhões de dólares podem ser disponibilizados instantaneamente para comprar a seguradora gigante AIG, por que um sistema de saúde pago por um fundo único - que protegeria os americanos das práticas predatórias das empresas de seguro-saúde - parece ser um sonho tão inalcançável?

E, se cada vez mais corporações precisam do dinheiro dos contribuintes para se manterem em pé, por que os contribuintes não podem fazer exigências em troca - por exemplo, a imposição de limites aos salários dos executivos ou a adopção de garantias contra mais perdas de empregos? Agora que está claro que os governos podem, sim, intervir em tempos de crise, ficará muito mais difícil para eles alegar impossibilidade de agir no futuro.

Outra mudança potencial tem a ver com as esperanças do mercado quanto a privatizações futuras. Os bancos globais de investimentos vêm fazendo lóbi com políticos há anos em favor de dois mercados novos: um que viria da privatização das pensões públicas e outro que viria de uma nova onda de privatizações totais ou parciais de rodovias, pontes e sistemas de água.

Desconfiança

Fica mais difícil argumentar em favor desses dois sonhos: os americanos não estão com vontade de confiar uma parte maior de seus activos individuais e colectivos aos apostadores insensatos de Wall Street, especialmente porque parece mais que provável que os contribuintes vão ter de recomprar os seus próprios activos quando a próxima bolha estourar.

Com o descarrilamento das conversações na Organização Mundial do Comércio, a crise actual pode também catalisar uma abordagem radicalmente alternativa à regulamentação dos mercados e sistemas financeiros mundiais.

Já está a ocorrer no mundo em desenvolvimento um movimento em favor da chamada "soberania alimentar", como alternativa a deixar que caprichos dos negociantes de commodities ditem o acesso aos alimentos em todo o mundo. É possível que tenha chegado a hora, finalmente, de ideias como a taxação das transacções financeiras, que desaceleraria o investimento especulativo, além de outros controles dos capitais globais.

E, agora que "nacionalização" deixou de ser palavrão, as empresas de petróleo e gás farão bem em precaver-se: alguém precisa pagar pela mudança para um futuro mais verde, e faz muito sentido que a parte maior dos recursos venha do sector altamente rentável, que é o maior responsável pela nossa crise climática. Isso com certeza faz mais sentido do que criar outra bolha perigosa no comércio de carbono.

Mas a crise à qual estamos a assistir pede mudanças ainda mais profundas. A razão pela qual se permitiu que proliferasse o crédito de risco não foi apenas que os reguladores não compreenderam o risco. É porque temos um sistema económico que mede nossa saúde colectiva exclusivamente com base no crescimento do PIB.

Enquanto os créditos de risco estavam a alimentar o crescimento económico, os nossos governos apoiaram-nos activamente. Assim, o que está realmente a ser posto em xeque pela crise é o compromisso sem questionamentos com o crescimento a qualquer custo.

Pressões públicas

Esta crise deve conduzir-nos a uma maneira radicalmente diferente de as nossas sociedades medirem a saúde e o progresso.

Mas nada disso vai acontecer sem a imposição de pressões públicas muito fortes sobre os políticos neste período-chave.

Não estamos a falar de fazer lóbi de modo educado, mas na volta das pessoas às ruas e ao tipo de acção directa que trouxe o New Deal nos anos 1930.

Sem isso, haverá mudanças superficiais e o regresso ao "business as usual" o mais rapidamente possível.

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NAOMI KLEIN é colunista da The Nation e autora de "A Doutrina do Choque - A Ascensão do Capitalismo de Desastre". Tradução de Clara Allain, adaptado para Portugal por Luis Leiria. Publicado na Folha de S.Paulo de 28 de Setembro de 2008, reproduzido no blogue Outra Política http://outrapolitica.wordpress.com/2008/09/29/mercado-livre/


 
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