Siga a rusga, trema a terra * criar PDF versão para impressão
01-Out-2008
Eduardo PereiraAssistimos a uma vulgarização inadmissível deste tipo de intervenção policial. Vulgarização, que significa um abuso. Porque a rusga é essa forma de intervenção policial que dispensa o incómodo da investigação. Não há princípio de presunção de inocência numa rusga. Ao contrário, quem vive num bairro dito "problemático" é presumido culpado, pelo menos até que a rusga o possa ilibar.

Na tradição popular, o termo rusga designa um conjunto de tocadores e cantadores que, sobretudo na primeira metade do século XX, corriam as ruas, animando festas e romarias. Mas, na cidade do Porto, as rusgas sanjoaninas tradicionais são algo mais do que isso: são uma massa humana que invade as ruas e convida cada um a juntar-se à multidão, onde todos se confundem com todos. São como uma espécie de figuração criativa do caos, a exaltar uma identidade colectiva e o sentimento de pertença à comunidade. A rusga é então essa força, essa coisa irracional, que procura arrastar tudo e todos à sua passagem. Siga a rusga, trema a terra!

Já a rusga policial, assume um carácter diferente. Onde a festa popular é convite, celebração, união, a rusga policial é intimação, repressão, divisão. Nela, o caos figurado serve só para reafirmar a vitória da ordem social estabelecida. Em comum, porém, há esse carácter de força irresistível. Nos últimos tempos, tem-se tornado um hábito a realização de rusgas policiais em vários bairros ditos "problemáticos" das principais zonas urbanas, nomeadamente nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto. A polícia chega, corta os acessos ao bairro, invade as ruas, por vezes invade também algumas casas. Qualquer pacato cidadão, ou cidadã, que vá a passar na rua, pode ser abordado, identificado, revistado, encostado a uma parede, apenas porque estava a passear na sua rua, no seu bairro. Porque a rusga é cega, não distingue. Esta rusga é como uma rede de malha muito estreita, usada numa pesca de arrasto: ninguém lhe escapa. Siga a rusga, trema a terra!

Conheço alguns desses bairros, ditos "problemáticos". São quase sempre urbanizações de grande dimensão, onde se acolhem alguns dos mais desprotegidos da nossa sociedade. Há portugueses, muitas vezes migrantes oriundos das zonas rurais. Há imigrantes, de várias nacionalidades. Há gente para quem a cidade não sorriu. Remediados, uns; pobres, quase todos os outros. Falam-se várias línguas. Cruzam-se etnias, incluindo a do povo cigano, que há tantos séculos é sistematicamente perseguido na sua própria terra. Reza-se de maneiras distintas a diferentes divindades. Arrasta-se o tempo, que sobra do desemprego e do abandono escolar. Somam-se os factores de exclusão. Escasseiam as respostas sociais, os projectos de envolvimento da comunidade, a dinamização cultural. Por isso, com demasiada frequência, em vez de serem lugares de encontro, estes são, sobretudo, lugares de desencontro, de tensão, de conflito. Dizer que este é um terreno capaz de potenciar o surgimento de comportamentos anti-sociais, é desnecessário. Dizer que a crise económica e social que atravessamos, agrava esse risco, seria dizer o óbvio.

Mas o que por vezes se torna menos visível no discurso mediático (e por isso mesmo importa aqui afirmar peremptoriamente), é que em todos estes bairros há uma maioria de residentes que apenas procura trabalhar e levar a vida da melhor maneira possível, sem provocar quaisquer conflitos. Quem aqui mora não são arruaceiros, mas sim gente digna, merecedora de respeito. Não podemos permitir que qualquer eventual excepção nos faça esquecer esta verdade fundamental.

E no entanto, as rusgas alcançam alguns resultados. A apreensão de armas ilegais, o desmantelamento de uma ou outra rede de tráfico de droga, ou a esporádica execução de um mandado de captura, contam-se entre os mais positivos, e só quem não conhece a realidade destas urbanizações é que pode desvalorizar a sua importância. Outro tipo de resultados, contudo, apenas traduz uma agenda moralista, conservadora e reaccionária, sem qualquer relação com as questões de segurança. É o que se passa com as perseguições aos toxicodependentes e aos imigrantes. O resultado mais frequente, porém, é mesmo o de intimidar indiscriminadamente todos quantos habitam estes bairros, aterrorizando populações que à partida já têm problemas de sobra.

Mesmo que, em tese, possamos admitir a eventualidade de, em situações absolutamente excepcionais e de gravidade extrema, a rusga policial ser a única forma eficaz de actuação, a verdade é que, no presente, assistimos a uma vulgarização inadmissível deste tipo de intervenção policial. Vulgarização, que significa um abuso. Porque a rusga é essa forma de intervenção policial que dispensa o incómodo da investigação. Não há princípio de presunção de inocência numa rusga. Ao contrário, quem vive num bairro dito "problemático" é presumido culpado, pelo menos até que a rusga o possa ilibar. A banalização destas rusgas demonstra ainda o fracasso do modelo de integração social baseado na construção de grandes dormitórios desprovidos de respostas sociais mobilizadoras. Precisamos de uma estratégia diferente para lidar com a exclusão social nos grandes meios urbanos. E precisamos de nos questionar, se acaso a forma como hoje se reprime a criminalidade nos tais bairros "problemáticos" não significará, a médio prazo, simplesmente deitar mais lenha para a fogueira. Siga a rusga? trema a terra? "Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto".

* Verso de uma estrofe de um tema do cancioneiro popular minhoto.

Eduardo Pereira, membro da Assembleia Municipal de V. N. Gaia e da Assembleia de Freguesia de Vilar de Andorinho, eleito pelo Bloco de Esquerda

 
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